Com o muito mediático caso recente, achei que era uma boa altura para falar nesta questão que, devido ao já tão famoso envelhecimento da população, se torna cada vez mais uma praga na nossa sociedade. Já agora, o aumento no número de queixas não significa um aumento de casos, tal como em muitas outras áreas, como violência doméstica, violação e pedofilia, as pessoas estão, agora, mais dispostas a agirem.
O que me leva a um “detalhe” sobre o tal caso tão badalado. Acho asqueroso, por falta de outro termo educado, que surjam agora várias pessoas, incluindo “amigos”, a dizer que sabiam, que viram isto e aquilo. A sério? E nada fizeram durante este tempo todo? Isso não os torna cúmplices ou, no mínimo, culpados de omissão de socorro? E sim, este último é crime!
Bom, para evitar que isto se repita – pois, sou uma otimista nata – aqui ficam algumas opções para o caso de suspeitar, ou assistir, a violência contra idosos:
- Linha da APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima): 707 200 077 ou 116 006 (chamada gratuita das 9 às 21)
- Serviço de Informação a Vítimas de Violência Doméstica (disponível 24h gratuito): 800 202 148
- Linha Nacional de Emergência Social: 144
- Linha do Cidadão Idoso da Provedoria de Justiça: 800 203 531
E há sempre, claro, uma esquadra ou posto da GNR.
Não vou entrar em detalhes sobre os vários tipos de violência contra idosos reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde – físicos, psicológicos, financeiros, sexuais, negligência e abandono, abuso nos cuidados de saúde – uma vez que há bons artigos sobre o assunto. Nomeadamente este da APAV e este da Stannah, muito completo.
Prefiro, pois, falar de causas e do que fazer.
De acordo com a OMS, Portugal é um dos países com uma maior taxa de violência contra idosos. Bom, entre os países em que há estatísticas mais ou menos sérias sobre o assunto, claro.
E isso não me admira nada.
Em primeiro lugar, temos um elevado nível de violência doméstica, assunto de que falei no meu outro blogue em Violência doméstica. Ou seja, em muitos casos a violência perpetua-se na velhice, seja por parte do cônjuge / companheiro, seja por parte de filhos educados nesse tipo de ambiente. E sim, a maior parte das vítimas são mulheres, talvez por terem sido educadas a aceitar comportamentos que são, agora, considerados agressões.
Mas há uma outra razão, para mim igualmente importante, a falta de apoios de todos os tipos. Refiro-me, claro, aos cuidadores, em ambiente doméstico ou num lar.
Comecemos por quem cuida de idosos em casa. À medida que as faculdades físicas e mentais do idoso se deterioram, o cuidador – bom, quase sempre uma cuidadora – vê-se a braços com um isolamento crescente. Aos poucos, a sua vida social, um simples convívio, até, vão desaparecendo e instala-se aquilo a que se chama “febre de cabine”, definida como “irritabilidade e desassossego extremos por se viver durante um período prolongado em isolamento ou num espaço interior confinado”.
E é bem verdade. Cuidador e idoso veem-se fechados num mesmo espaço dia após dia, sem qualquer tipo de alívio ou de quebra de rotina, ou, pelo menos quase nenhum, e isso faz, inevitavelmente, aumentar o nível de stress de ambos e exacerbar os pequenos conflitos que surgem, inevitavelmente, em qualquer intercâmbio humano.
Junte-se a isso o facto de que, com a idade, muitos defeitos, digamos, acentuam-se, como a teimosia, ser rabugento, refilar, etc., sem falar em que também os idosos podem ser autores de violência, sobretudo verbal, e, com o acumular de casos destes, o cuidador acaba por “explodir”.
Ora isto podia ser minorado – ou até evitado – se houvesse uma rede de apoios aos cuidadores. Nada de muito sofisticado, bastava haver a hipótese de serem substituídos uma tarde ou um dia por semana, para poderem ir “arejar” um pouco, espairecer, conviver, ter alguma vida própria.
Há tanta gente a viver de subsídios e tantos jovens a resvalar para maus comportamentos por não terem em que se ocuparem nos longos períodos de férias, que tal darem-lhes uma pequena formação para poderem prestar este tipo de ajuda?
Atenção, não estou a falar de idosos com necessidades especiais, estes precisariam, claro, de um outro tipo de apoio mais sofisticado, digamos, mas ainda mais necessário para quem cuida deles. Não, falo, isso sim, dos muitos casos de idosos que ainda retêm muitas das suas faculdades, mas que não é seguro ficarem sozinhos em casa – acreditem, falo por experiência própria, mal saímos desatam a fazer todas as coisas que sabem que são perigosas dado o seu estado físico, como subir a um escadote para ir buscar uma caixa do topo de um armário e em que não mexem há anos!
E se um apoio semanal não for possível, tudo bem, mesmo quinzenal ou até mensal já seria muito bom para quem está “preso” nessa situação.
Quanto aos lares, será que quem lá trabalha tem a formação e, sobretudo, o feitio certo para o fazer? É que nem todos têm paciência e jeito para cuidar de idosos, sobretudo quando estes têm debilidades físicas ou mentais. Sugiro, pois, uma análise aprofundada das qualificações de quem trabalha num lar – bom, acompanhada, claro está, de propostas de formação. E uma maior vigilância do que se passa, quer por parte de familiares, quer por parte de fiscais “à paisana”, tipo o comprador secreto muito usado por grandes cadeias de lojas e hotéis.
Nada disto irá pôr fim à violência contra idosos, infelizmente, mas ajudaria a minorar muitas situações que descambam precisamente porque os seus autores se veem num beco sem saída.
Para a semana: Viajar... sem sair de casa. Para quem tem dificuldades em movimentar-se, há outras opções