Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

205 - Pilares da felicidade 2

Os últimos dois pilares, viver com amor e viver no presente

A semana passada falei dos dois primeiros pilares da felicidade, inspirada por uma série da natureza que achei que se aplicavam plenamente a todos os humanos mas, ainda mais, aos longevos. Lembro que são quatro: viver com paixão, viver sem medo, viver com amor e viver no presente. Hoje irei, pois, tratar dos dois últimos, começando por viver com amor.

Tal como disse quando falei de viver com paixão, não me refiro ao sentido romântico desta palavra – e mais uma vez, se tem um grande amor na sua vida, parabéns, é mais do que meio caminho andado para uma vida mais feliz. Não, refiro-me aqui a amor no seu sentido mais lato e em duas vertentes: amor por si próprio e amor pelos outros.

Começando pelo amor a nós próprios, nunca poderemos ser felizes se estivermos sempre a deitar-nos abaixo. Sabem como é, sou horrível, sou isto, sou aquilo, sobretudo no que diz respeito à aparência. Pois é, nem todos podemos ser modelos e, muito francamente, atendendo à verdadeira desgraça que é a vida de muitos deles, homens e mulheres, fica-nos a ideia de que nem eles se acham perfeitos.

Se está descontente com o seu aspeto, faça apenas uma perguntinha: é algo que possa mudar? Se a resposta for sim, trabalhe nesse sentido em vez de se estar sempre a queixar. Se for não, então esqueça, siga em frente com a sua vida, acredite, lastimar-se não altera nada e só o fará sentir-se mais infeliz.

Quanto aos outros aspetos da sua personalidade, são mesmo defeitos ou apenas coisas que os outros, sim, os célebres outros, dizem que são? Por exemplo, ser muito frontal pode não agradar a muita gente... Mas mesmo que não veja mal no seu modo de ser, pense um pouco: as suas relações com os outros seriam mais calmas, melhores, se atenuasse um pouco ou até mudasse certos aspetos do seu comportamento? O que me leva ao segundo tipo de amor, o amor aos outros.

Já falei várias vezes nas vantagens, necessidade, até, de se ter uma boa rede de apoio à medida que vamos para novos. E não tem de ser necessariamente a nossa família, podem ser vizinhos, amigos, pessoas com quem convivemos num centro de dia, enfim, o importante é abrirmo-nos aos outros, deixá-los entrar na nossa vida. Pequeno detalhe, tem de ser uma via de dois sentidos, ou seja, se queremos ser apoiados também temos de apoiar.

Fazendo uma nova referência às inúmeras séries de vida selvagem que passam na televisão, já reparou que, com raras exceções – e estas são quase sempre predadores, como o leopardo ou o crocodilo – os animais mais bem-sucedidos vivem em grupos, pequenos clãs que se entreajudam? Podem ser todos da mesma família ou não, o importante são os laços que existem entre eles.

Passemos ao quarto e último pilar, viver no presente. Também este tem duas vertentes possíveis: há quem viva permanentemente, ou quase, no passado e quem passe o tempo todo, ou quase todo, a preocupar-se com o futuro. Ambas as atitudes têm um aspeto em comum, impedem de se apreciar o momento que se está a viver, seja bom ou mau – e lembre-se, coisas más podem ensinar-nos bastante.

Comecemos por falar de quem vive no passado. Também aqui temos dois tipos de atitudes, a cor-de-rosa e a negra. É um facto bem comprovado que temos a tendência de esquecer certas dificuldades porque passámos, convertendo-as naquilo a que os americanos chamam “momentos Hallmark” – a marca mais famosa de cartões para todas as ocasiões e produtora de um sem fim de filmes “lamechas” de Natal e de romances cor-de-rosa.

Ou seja, recordamos a infância, certas fases da nossa vida, como sendo de extrema felicidade, a tal ponto que o presente empalidece perante todas essas “recordações” e é-lhe impossível estar à altura. As férias eram sempre alturas de grande diversão e prazer, sem mosquitos, calor excessivo ou qualquer outro problema, a comida tinha mais sabor, enfim, sabem como é.

Não há nada de errado em recordar o nosso passado deste modo, o problema surge quando isso nos impede de viver o momento atual, ou seja, de viver no presente. Seria, pois, boa ideia “separar as águas”, ou seja, ter momentos em que se dedica de alma e coração a recordar e outros – os mais frequentes – em que tenta apreciar as pequenas coisas do dia-a-dia, por muito insignificantes que nos possam parecer (como referi em viver com paixão).

E temos, depois, as pessoas opostas, que remoem, vezes sem conta, o seu passado mas com óculos do mais sombrio que há. Para elas não houve momentos bons ou, se os houve, ficam à sombra de tudo o que de mau lhes aconteceu, na realidade ou apenas no seu modo de ver as coisas.

Recordam ao pormenor todos os insultos – mais uma vez, reais ou imaginários – que sofreram, os azares que tiveram, o comportamento de familiares, amigos e conhecidos, desde que este possa ser visto como negativo, enfim, o oposto total dos tais “momentos Hallmark” – francamente, não me consigo lembrar de nenhum género literário ou cinematográfico que sirva de comparação.

Mais uma vez, não chegam a apreciar o presente porque lhes recorda sempre algo mau do passado.

Finalmente, os que vivem no futuro. Não há nada de errado em preocupar-nos com o nosso futuro, muito pelo contrário, um dos meus primeiros posts neste blogue foi precisamente Preparar o “ir para novo”. Mas também aqui há um abismo entre precaver-nos e estar obcecado com o que pode acontecer.

Nunca se toca num prato favorito porque poderá vir a causar isto ou aquilo, não se dá um passeio porque poderá haver problemas, não se usam certas coisas para as guardar “para um dia”, enfim, penso que nada disto é novidade para nenhum de nós.

É claro que isto não significa adotar a atitude da cigarra da fábula, viver e gozar totalmente o presente sem a mínima preocupação com o futuro. Não, como em muitas outras coisas, no meio está a virtude. Tome medidas para assegurar o seu futuro, dentro do possível, claro, implemente algumas precauções contra certos problemas mais ou menos previsíveis, mas depois relaxe e aprecie ao máximo os instantes atuais – acredite, passam num ápice.

Para a semana: Coisas de que não se fala. Pequenas coisas, como o chamado "odor de velho" e outras de que não se costuma falar.

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