Ir para novo

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208 - Manter um espírito de criança

Que tal recuperarmos aquela sensação de maravilhamento com que as crianças veem coisas que lhes são novas?

Pensando bem, um título mais adequado seria “recuperar um espírito de criança”. É que, muito francamente, são raríssimos os casos em que conseguimos mantê-lo enquanto crescemos e na idade adulta – talvez porque isso não se coaduna lá muito bem com enfrentar as responsabilidades que a vida nos vai trazendo.

Mas quando chegamos a longevos, altura em que muitas dessas obrigações vão desaparecendo, sobretudo para os reformados, seria boa ideia dar um passo atrás, ou antes, muitos passos, e recuperar algo que perdemos muitas vezes ainda muito novinhos.

Primeiro, a capacidade de nos maravilharmos com as coisas. Se observarem uma criança pequena, verão o seu encanto por coisas que nós, os adultos, temos tendência a ignorar por serem demasiado insignificantes no nosso mundo “a sério”: os reflexos do sol na água ou noutra superfície, o voo de uma mosca num raio de sol, as cores de uma flor, as sombras projetadas pelas folhas de uma árvore ao moverem-se com o vento, enfim, um nunca acabar de pequenas maravilhas que enchem este nosso mundo.

E não têm de estar ligadas à natureza, não faltam objetos artificiais que, se forem olhados com atenção, são igualmente maravilhosos. Basicamente, esta ideia encaixa em algo que já tenho referido várias vezes: apreciar o presente e não nos limitarmos a passar pela vida a prestar apenas importância a coisas que consideramos “sérias”.

Em segundo lugar, tentar reaver algo que se perde com a idade, na maior parte das vezes bem cedo neste mundo cada vez mais competitivo: fazer coisas pelo mero prazer de as fazer.

Desenhar, por exemplo, uma atividade que agrada bastante às crianças, pelo menos até terem idade para começarem a dizer, “não tenho jeito nenhum para isto”. Soa familiar? Pois é, muitos adultos nunca o fazem precisamente pela mesma razão. E não tem de ser só desenhar, pode ser jardinar, costurar, cozinhar, montar engenhocas, enfim, mil e uma coisas de que nos abstemos porque... não temos jeito para isso.

Se calhar até é verdade e os resultados são tudo menos bons, mas quem disse que só devemos fazer as coisas em que somos bons, ou pelo menos não muito maus? Se lhe dá prazer pegar num lápis ou em tintas, esqueça o jeito – ou falta dele – e avance. Gosta de remexer na terra, plantar coisas? Tudo bem, faça-o mesmo se o resultado não for bom. Adora mexer em tachos e panelas, misturar ingredientes e experimentar coisas? Mesmo se o resultado for uma mistela intragável, passou, certamente, algum tempo divertido.

Pequeno detalhe, não estou a falar de “melhorar com a prática”. Sim, é bem verdade em muitas áreas, mas aqui o importante é fazermos coisas que nos divertem, independentemente do resultado.

Terceiro, mexer-se por mero prazer. Falo muito frequentemente de como é necessário um longevo ser ativo, exercitar-se, mexer-se, enfim, e isso é, de facto, uma necessidade para uma vida saudável. O problema é que muitos começam a olhar para a atividade física como um mero meio de atingir um fim. Dar um certo número de passos diários, por exemplo, ter x aulas de ginástica (ou algo similar) por semana, nadar um certo número de piscinas...

Pois bem, que tal intercalar tudo isto com alturas em que faz essas coisas pelo mero prazer de as fazer? Por exemplo, em vez de uma caminhada em que tenta atingir metas de ritmo e distância, um passeio em que vai apreciando o que o rodeia, parando, até, para ver melhor um edifício, uma planta, uma cena. Se costuma ir à piscina por uma questão de exercício, tente passar algum tempo ali apenas a flutuar, a apreciar a água, movendo-se ao sabor dos seus caprichos.

Pense no modo como uma criança corre pelo mero prazer de correr ou chafurda na água apenas porque gosta de se mexer.

Terceiro, dar largas à nossa criatividade. Tente recordar-se dos seus tempos de infância e das histórias que inventava ao menor pretexto, confundindo-as, até, muitas vezes com a realidade para desespero dos adultos à sua volta. Não estou a dizer que perca a noção das coisas, mas não lhe fará mal nenhum, muito pelo contrário, deixar-se “ir na onda” de vez em quando.

Se é daquelas pessoas muito “adultas” que só lê coisas sérias, experimente ler alguma ficção. Se já a lê, se calhar até em exclusivo, tente variar os géneros. Mais ainda, tente imaginar-se em situações “dignas de um livro” (ou de um filme), por mais improváveis que sejam. Repito, é algo que as crianças fazem com toda a naturalidade, mas que vão perdendo, na maioria dos casos, à medida que vão crescendo.

E há uma vantagem adicional nisto, se, por razões físicas ou outras tem pouca atividade e está numa situação em que o tempo custa a passar, verá que, ao meter-se na sua mente, ao acionar a sua imaginação para todo o tipo de cenários, as horas passarão a correr.

Finalmente, ocupar o nosso tempo. Muitos longevos caem em dois tipos de situações: tentam ocupar todos os momentos do dia ou deixam-se ficar inativos a maior parte do tempo porque “na minha idade, o que posso fazer?” Tenho falado muito deste segundo caso e dado todo o tipo de sugestões para despertar – ou não deixar morrer – o interesse pela vida. Mas o primeiro caso é igualmente nocivo para o bem-estar psicológico.

Para muitos homens, que sempre viveram para o trabalho e nunca tiveram muito tempo para simplesmente relaxar, é difícil quebrar esse hábito e tentam, o mais possível, substituir o emprego de que se reformaram por todo o tipo de atividades que lhes preencham o chamado horário útil. Há mulheres que caem nesta categoria, mas o mais usual é terem sido educadas para a ideia de que uma “mulher a sério” não tem tempo para estar parada.

Pois bem, e isto é válido para todos, tentem reservar uma parte do dia para estar sem fazer nada. E não me refiro a dormir uma sesta ou ver televisão, por exemplo. Não, sente-se, de preferência num sítio confortável, e deixe a sua mente deambular a esmo. Pequeno aviso, poderá não ser fácil, comece por períodos curtos que vai alongando à medida que se habitua.

Mais uma vez, pense na capacidade que crianças pequenas têm para se isolarem e ficarem, literalmente, a olhar para nada.

Para a semana: Falemos de dinheiro. As pequenas despesas podem acumular-se mais depressa do que imaginamos...

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