Começo pelos cuidados paliativos (ou falta deles). Recentemente, o nosso Governo descobriu a pólvora em relação a este assunto e, com uma prontidão digna de todos os elogios, arranjou uma solução: doentes a precisar de cuidados paliativos que continuem a ocupar camas de hospitais em vez de para uma instituição passam a ter de pagar uma taxa! Francamente, é mesmo de génio!
Ou seja, para estes iluminados os ditos doentes só permanecem no hospital por pura teimosia, uma vez que o país está cheio de centros de cuidados paliativos e de milhentas soluções para quem prefere morrer em casa. Curiosamente, um dado recente diz que cerca de 53 % dos doentes referenciados para cuidados paliativos morrem antes de terem uma vaga. E no caso de doentes oncológicos, esse valor passa para cada 2 em 3.
E não nos esqueçamos de que a estatística se refere a “doentes referenciados” e não a todos os que precisariam desse tipo de cuidados. Atendendo a que os profissionais de saúde sabem bem da falta de lugares, fica-me a ideia de que só referenciam os que precisam mesmo de mais cuidados médicos.
Falei deste assunto precisamente em Cuidados paliativos. Como o texto já tem 3 anos, algumas coisas mudaram, nomeadamente o número de empresas que oferecem agora assistência ao domicílio nestas situações – mas mantenho a minha pergunta, e quem não pode pagar?
É claro que no papel – ou antes, na Internet – é tudo muito bonito, o SNS tem, até, uma página dedicada ao assunto (pode vê-la aqui). Mas na prática continua tudo na mesma, ou seja, não há assistência condigna a quem está no fim de vida e muito menos aos seus familiares.
Com a megalomania que nos é habitual, fala-se, claro, em criar novos centros ou ampliar os existentes. Mas, muito francamente, sempre achei que são sobretudo úteis para quem precisa de alguns cuidados médicos e / ou não tem familiares que possam cuidar dessa pessoa. Além disso, muitos prefeririam, certamente, morrer em casa, rodeados pelas suas coisas e pelos seus entes queridos.
Não vou repetir o que disse no post citado acima (que seria bom ler / reler), em que sugiro, por exemplo, que se dê uma formação prática a quem tenha a seu cargo uma pessoa nesta situação, completando-a com visitas de profissionais ao domicílio, mais ou menos frequentes consoante as necessidades. E como muitas vezes a pessoa em causa vai parar a um centro (ou fica no hospital a aguardar vaga) porque os familiares que podiam cuidar dela estão a trabalhar, que tal criar uma licença paliativa, à semelhança da licença de maternidade?
Faz sentido, começar e acabar a vida com o mesmo tipo de apoios – ou falta deles, morre-se à espera de uma vaga e nasce-se na rua ou numa viatura também à espera de uma... E se fizerem as contas como deve ser verão, certamente, que, para além de ser melhor para os afetados acaba por ficar mais barato do que andar a construir centros dedicados.
Passando aos bons exemplos, ou antes, a um misto destes com coisas absurdas, ontem, sábado, a SIC Notícias deu no seu noticiário das 15 uma reportagem de meia hora sobre a aldeia sénior de São José de Alcalar. Penso que já falei nela nalgum post anterior e é um projeto muito interessante e com muito mérito. Aliás, que eu saiba, só há mais uma aldeia destas em Portugal, bem mais pequena, a de Mourisca do Vouga.
E a razão principal é a burocracia e a falta de agilidade em aceitar novos conceitos por parte de quem nos governa. Vários outros projetos morreram na fase de licenciamento porque havia quem insistisse que eram lares, com todas as regras que isso implica, enquanto outros não sabiam onde as posicionar.
O mesmo se passa com vários projetos do chamado “cohousing” (habitação colaborativa), em que os idosos têm a sua própria pequena habitação, mas existem zonas e tarefas comuns partilhadas por todos. Pelo que li, há vários projetos a tentarem arrancar sob a forma de cooperativa, uma vez que a nossa tão pesada burocracia nunca ouviu falar disto nem quer ouvir falar.
É pena, na minha opinião seria uma boa solução para tantas aldeias desertas, ou quase, serem convertidas num projeto destes. E sim, sei bem que não são uma solução para pessoas acamadas ou com dificuldades graves de mobilidade, mas seriam ideais para muitos longevos que acabam por ir para um lar – se arranjarem vaga, claro – porque receiam continuar a viver sozinhos.
Para concluir, vou referir alguns exemplos realmente bons e de louvar.
Muitas Juntas de Freguesia de todo o país oferecem agora aos seus longevos programas de atividade física. Os nomes diferem, mas a ideia é sempre a mesma, pô-los a mexerem-se ou a manter a sua mobilidade apesar da idade. A oferta varia muito, de ginástica para seniores a caminhadas e outras. Por exemplo, no parque pertinho da minha casa vejo com frequência de manhã cedo um grupo razoável de longevos a fazerem exercícios leves acompanhados de um instrutor.
Se quer saber o que há na sua zona, esta página tem uma lista das várias freguesias do país com os respetivos contactos, incluindo um endereço online – aviso já quem nem todas os têm, mas pode sempre ir até lá. Recordo, também, que muitos centros paroquiais oferecem cada vez mais atividades para os cidadãos seniores da zona.
Finalmente, vi uma reportagem muito interessante esta semana num dos canais televisivos – penso que faz parte de uma série chamada “O meu lugar de verão” da RTP Notícias – que me chamou a atenção pelo tema tratado.
Como bem sabemos, em julho e agosto muitos imigrantes portugueses vêm passar as férias a Portugal, enchendo vilas e aldeias. Mais ainda, muitos mandam os filhotes passar esses dois meses com os avós, uma vez que não têm tanto tempo de férias como eles, vindo apenas uns dias no fim. Pois bem, muitas Câmaras e Juntas de Freguesia estão a desenvolver toda uma gama de programas e atividades precisamente para avós e netos partilharem.
Espero, muito sinceramente, que este exemplo se multiplique e que se estenda, também, a outros meses – lembremo-nos que muitos jovens passam uma boa parte do seu tempo com os avós durante o período escolar.
Para a semana: Manter um espírito de criança. Que tal recuperarmos aquela sensação de maravilhamento com que as crianças veem coisas que lhes são novas?