Apesar de a preocupação com as finanças domésticas não ser um exclusivo dos longevos, muito pelo contrário, a situação agrava-se, muitas vezes, quando se ultrapassa uma certa idade, quase sempre a da reforma, e se está dependente de um rendimento que pouco aumenta com o passar dos anos. Mais ainda, quando somos jovens, podemos ter a ideia de que as coisas poderão melhorar com uma promoção, uma mudança de emprego, a criação de um negócio próprio.
Não estou a dizer que um longevo não pode melhorar a sua situação em termos económicos, não faltam exemplos de pessoas que criaram empresas ou atividades de sucesso já depois de se terem reformado. Mas nem todos o fazem, por diversas razões, e, a menos que se tenha uma reforma choruda, ao fim de algum tempo parece que o dinheiro deixou de render, não dá para aqueles extras que dão prazer à vida, seja ir comer fora, viajar ou outra coisa.
A questão é, conhece os seus gastos mensais? Ou seja, sabe para onde vai o seu dinheirinho? É claro que se a sua pensão e / ou outra fonte de rendimento é muito baixa, não há mistério nenhum, muitas vezes chegar ao fim do mês com tudo pago é até um milagre! Mas numa época de aumentos constantes no custo de vida a que não correspondem, de modo algum, subidas nos rendimentos, talvez seja altura de fazer uma pequena análise.
Poderá estar a pensar, mas eu não faço extravagâncias nem grandes despesas, como é que isto se aplica a mim? Muito simplesmente, as pequenas quantias que vamos gastando sem sequer pensar nelas acabam por se acumular num total que nos surpreenderia se as registássemos. Já agora, não estou a dizer que corte todos os extras, a menos que tenha mesmo de ser, mas se souber os seus gastos usuais poderá decidir, com conhecimento de causa, em que usar o seu dinheiro de modo a tirar o máximo proveito dele.
Se está habituado a usar um computador, o Excel é ótimo para isto, faz todo o tipo de somas e permite criar tabelas mais específicas só com um determinado tipo de gastos. Mas papel e caneta (e calculadora...) também cumprem a tarefa e são, certamente, mais fáceis de usar para a maioria dos longevos.
O ideal seria fazer este exercício durante um mínimo de dois meses. Numa folha (página de caderno) ponha as despesas fixas mensais, renda (caso ainda a pague), luz, água, etc., ficando assim a saber, caso ainda não o saiba, de quanto dispõe para tudo o resto.
Registe, depois, noutras páginas as suas despesas diárias, classificando-as de um modo genérico. Comida, por exemplo – aqui deverá pôr apenas as coisas necessárias, não o bolinho que comeu no café do bairro... Já agora, convinha separar coisas como bebidas, incluindo água, que compra. É claro que se tiver tempo e disposição, pode anotar em pormenor os artigos que adquire, assim verá melhor quais são as suas principais despesas alimentares, por exemplo.
Numa outra secção, vá pondo os extras: refeições fora, incluindo cafés e similares, distrações, jornais e revistas (se os compra), etc., especificando essas despesas. Esta é, de longe, a parte mais importante e aquela em que é fácil não fazer ideia de para onde vai o dinheiro.
Apesar de eu ter falado em dois meses, é boa ideia ir somando esses valores, por categoria, todas as semanas – e aposto que irá ficar surpreendido com alguns desses totais!
Basicamente, a ideia é olhar para essas parcelas de despesa mensal e ver as que pesam mais no seu orçamento. Poderá, assim, avaliar se está a gastar por gastar ou se está a tirar o máximo proveito do seu rendimento mensal. Por exemplo, sabe quanto gasta em cafés? E se calhar vai tomá-los por rotina, sem sequer os apreciar. Toma sempre o pequeno-almoço fora? Talvez seja melhor fazer disso um mimo ocasional e guardar o dinheiro poupado para outra coisa que lhe dê prazer.
Com base nesta sua análise poderá, também, fazer um orçamento mensal de despesas. Nada de muito rígido, mas que lhe sirva de orientação em relação aos seus gastos. E se tem despesas anuais, tipo condomínio (se o paga), presentes, etc., sugiro que divida esse valor por 12 e coloque o resultado nos seus gastos mensais – o dinheiro não saiu, claro, mas também não foi gasto noutras coisas.
Sim, tudo isto dá trabalho, mas, repito, a menos que tenha uma pensão muito choruda, não será melhor ir poupando em pequenas coisas – as tais que se vão acumulando – para ter uma “almofada” para problemas futuros ou para gastar em algo mais caro que lhe daria bem mais prazer, como uma viagem?
Já agora, se costuma fazer compras impulsivas, deixe o cartão Multibanco em casa a maior parte das vezes que sair. Levante semanalmente a quantia que pretende gastar e resista à tentação de levantar mais a menos que seja de facto algo de que necessita. Sim, o cartão dá imenso jeito, evita que andemos com dinheiro – já agora, não leve tudo o que levantou sempre consigo... – mas pode levar-nos a gastar bem mais do que tínhamos planeado.
Não falei em como poupar dinheiro, no supermercado, por exemplo, mas apenas em fazer gastos conscientes. E fuja das prestações, são um peso futuro que não sabe se poderá vir a pagar. Em vez delas, poupe mensalmente para essa despesa que quer efetuar – a menos que seja uma emergência. Por exemplo, se paga os seus óculos, mal adquire uns comece a poupar para os seguintes. A grande vantagem deste sistema, é que se tiver problemas um mês e não puder poupar esse dinheiro, só estará a atrasar a compra. Mas se falhar uma prestação, as coias poderão ser bem mais complicadas.
Numa altura em que se questiona a viabilidade das reformas existentes, acho que é boa ideia sabermos em que gastamos o nosso dinheirinho, mais ainda, se esse é o melhor uso que lhe podemos dar.
Para a semana: Longevidade a dois. Nem sempre é fácil o convívio a dois à medida que se vai para novo.