Mantendo o tema do 25 de abril, tão popular esta semana, vou falar um pouco do que mudou, para melhor e para pior, nestes 50 anos, mas em termos da camada com mais uns aninhos em cima.
O primeiro dado que salta logo à vista é o tremendo pulo que deu a esperança média de vida. Em 1974 era, em média, de 68,2 anos, sendo a dos homens 64,8 anos e a das mulheres 71,4. Passados os tais 50 anos, estes valores passaram para 81, 78,1 e 83,5, respetivamente. Ou seja, a média aumentou uns incríveis 16,2 anos, subindo 13,3 anos para os homens e um pouco menos para as mulheres (12,1).
Pus a negrito os valores referentes aos homens porque, atendendo a que constituíam a maioria da força laboral, sobretudo da que tinha direito a pensões – de que falarei mais num post futuro – esta subida foi a que mais afetou alguns aspetos económicos atuais. É que, se repararem bem nos números, muitos não chegavam sequer a usufruir da reforma ou morriam pouco depois de a obterem, muito ao contrário do que se passa agora.
Muito deste aumento ficou a dever-se à melhoria das condições de vida e ao Sistema Nacional de Saúde que, nos seus primeiros anos, funcionava lindamente e foi um elemento importantíssimo na melhoria do estado geral de saúde da população, muita da qual tinha, até então, pouco ou nenhum acesso a cuidados médicos de rotina.
A abertura do país ao exterior também contribuiu, abrindo as mentalidades para outros modos de vida, sobretudo em termos de alimentação e de atividade física por mero lazer. E a alteração sofrida pela economia portuguesa também deu a sua ajuda, com a queda acelerada do setor primário e o aumento, também ele muito forte, do terciário, menos desgastante em termos físicos.
Mas a maior alteração, pela positiva, nestes 50 anos teve a ver com as pensões. Antes do 25 de abril, estas estavam praticamente reservadas a funcionários públicos, apesar de em 1972 ter sido criado o regime de previdência dos trabalhadores agrícolas, destinado a abranger, de imediato, os inscritos nas casas do povo que se encontrassem em situação de carência por motivo de invalidez ou velhice e, posteriormente os não inscritos nas casas do povo. E sem esquecer a pensão de sobrevivência, para viúvas de funcionários públicos que, sem ela, ficariam totalmente ao desamparo.
Quanto ao resto da população, bom, estava mais ou menos por conta própria, sobretudo as mulheres que, com a discrepância enorme na esperança média de vida e estando pouco presentes no mundo laboral, ficavam, muitas vezes, desvalidas na velhice, a menos que tivessem algum apoio dos filhos.
A partir de 1974 o sistema de pensões foi sendo progressivamente alargado, passando a existir, até, a pensão social para quem nunca descontou para a Segurança Social. Sim, muitos dos valores são baixíssimos, mal dão para viver, mas, mesmo assim, sempre são uma ajuda preciosa para quem, sem isso, ficaria sem qualquer meio de subsistência.
Juntemos-lhes, também, passes sociais e outros descontos vinculados à idade e chegamos à conclusão que sim, os idosos estão, pelo menos no papel, bem melhor.
É claro que os custos de tudo e mais alguma coisa dispararam, entretanto, e o que seria uma boa quantia há uns anos é agora um valor miserável, sobretudo porque, felizmente, as expectativas também mudaram e muitos não têm, agora, paciência, se é que este é o termo correto, para passar o tipo de privações que há 50 anos seriam consideradas banalíssimas.
O decréscimo acima citado do setor primário, sobretudo a partir de 1974, teve, também, uma consequência negativa, a tão badalada desertificação do mundo rural e o tremendo isolamento dos idosos que por lá ficaram, sobretudo porque não conheciam outra vida. E mesmo tendo agora a tal pensão social, a sua vida pouco mudou, para muitos tudo continua quase como era no tempo da sua juventude – é que com as dificuldades de deslocação em muitos desses locais, o dinheiro de pouco lhes serve.
A melhoria na educação após o 25 de abril trouxe, por outro lado, uma nova leva de menos novos com outra atitude em relação à idade e ao seu papel na sociedade. Ou seja, já não se contentam em ficar quietinhos a um canto, à espera da morte, mexem-se, aprendem, viajam, fazem-se ouvir, enfim, começam a ser uma força a ter em conta, como já vemos noutros países.
Sem contar que, com o aumento crescente de pessoas com boas reformas – ou, no mínimo, razoáveis – e com capacidades que podem aplicar noutros setores ou em empresas próprias, esta camada etária começa a ter um peso considerável na economia nacional, e não pela negativa, como nos tentam fazer crer. Ou seja, começam a ocupar um espaço que há 50 anos estava reservado para os patriarcas de famílias economicamente poderosas.
Há, no entanto, um aspeto que, se mudou, fê-lo pela negativa: o modo como os idosos são vistos pela sociedade. É que, como já tenho dito noutros posts, deixaram de ser vistos como detentores da sabedoria popular, pessoas com quem se podia aprender. E lembro que muitas profissões eram transmitidas precisamente assim, entre camadas etárias.
Há ainda a questão de a generalização das pensões mais o aumento da esperança de vida levou à ideia de que os idosos são um peso morto na sociedade, um fardo que os mais novos têm de sustentar – ideia totalmente errada, como também já tenho explicado em posts anteriores.
E numa sociedade que, 50 anos depois do 25 de abril, se afirma igualitária e defensora dos direitos de todos, é, no mínimo, triste que o idadismo continue a imperar sem freio, sendo ignorado, ou até, desconsiderado precisamente pelos que mais afirmam, alto e bom som, as virtudes da Revolução dos Cravos.
Para a semana: Os avós já não são o que eram. Uns fazem de pais, outros são postos de parte, há até os que são mesmo pais numa idade avançada...