Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

89 - A evolução do "ir para novo"

Já falei anteriormente neste assunto em Como a sociedade vê os idosos, mas, com o tão badalado envelhecimento da população e o choro e ranger de dentes que o acompanha usualmente, acho que vale a pena expandi-lo um pouco mais.


A primeira coisa a ter em mente é que o estatuto dos idosos nas respetivas sociedades se manteve mais ou menos estável durante séculos, mais precisamente até ao dealbar da chamada Era Industrial. Até então eram vistos com uma boa dose de veneração ou, no mínimo, de respeito e isso devia-se a vários fatores.


Para começar, numa sociedade em que a esperança de vida era muito, mas mesmo muito reduzida, quem chegava a uma idade respeitável para a época era visto como detentor do favor divino – e não me refiro ao Deus cristão, não nos esqueçamos que até bem recentemente a religião era um fator importantíssimo na vida das pessoas. E até se entende esta ideia, numa altura em que pouco se sabia da maior parte das doenças e, sobretudo, de infeções, e em que um mero arranhão podia levar a uma morte dolorosa, conseguir sobreviver a tudo isso era, de facto, uma proeza.


Temos, depois, o ritmo lentíssimo das mudanças tecnológicas e sociais. Ou seja, os mais idosos eram, realmente, os depositários dos conhecimentos, do saber da sociedade em que viviam e que transmitiam, mais ou menos abertamente, às gerações seguintes. Recordo o sistema de aprendizes em tudo o que era profissão para garantir, precisamente, que os mais novos aprendiam o modo correto de fazer as coisas. Até na agricultura de subsistência essa aprendizagem existia, embora de um modo mais informal, neste caso de pais para filhos. Mais ainda, quando algo estranho acontecia recorria-se precisamente aos anciãos na esperança de que na sua longa vida (para a época), já tivessem visto algo semelhante.


Podemos, até, dizer que ser velho estava na moda. Lembram-se das cabeleiras com pó branco que a aristocracia (e não só) usava? Foi, até, moda no século 18 usar roupas talhadas de modo a dar um ar idoso à pessoa, como um casaco justo nos ombros que dava ao homem que o usava o ar encurvado de um idoso – vejam imagens de Benjamin Franklin, por exemplo.


Temos, depois, o fator económico. É que os filhos dependiam dos pais, no sentido de que trabalhavam para eles, não a troco de dinheiro mas pelo seu sustento e herança futuras. Mesmo os que eram postos como aprendizes de outras artes ficavam totalmente dependentes do mestre durante muitos anos, ou seja, até conseguirem, também eles, guindarem-se a essa categoria profissional, trajeto que nem todos conseguiam singrar com êxito.


Ou seja, era, realmente, uma sociedade de velhos (relativos, claro, comparados connosco) totalmente gerida por esses mesmos velhos.


A primeira grande transformação de tudo isto surgiu com a Revolução Industrial. Subitamente, os jovens podiam arranjar empregos com nenhuma formação – ou uma curtíssima – e em que eram pagos a dinheiro! Ou seja, deixavam de estar dependentes da boa vontade, e da herança, dos pais e podiam criar a sua própria vida, longe da sabedoria convencional.


Mais ainda, esta passou a ser desprezada como inútil e ultrapassada. Surgiu rapidamente a ideia de que, a partir de uma certa idade – 40 anos, geralmente – as pessoas eram incapazes de aprender coisas novas, faltando-lhes, também, a necessária agilidade e resistência física para o que os novos trabalhos exigiam. Ou seja, os mais idosos deixaram de ser vistos como seres doutos e merecedores de todo o respeito e consideração e passaram, isso sim, a ser considerados uns inúteis que viviam à custa do trabalho alheio – soa familiar?


Daí foi um passinho ao que ainda vemos muito, sobretudo no Ocidente, a procura desenfreada pela juventude, sobretudo física, e uma sociedade em que tudo, do marketing às ideias está virado para os jovens. Já falei várias vezes de idadismo, mas vai bem mais longe do que isso, é uma verdadeira gerontofobia, termo definido como a aversão ou medo patológico aos idosos e ao processo de envelhecer. Pequeno detalhe, muitos dos que sofrem dela já são idosos...


Felizmente, pelo menos para quem vai para novo, já entrámos numa terceira onda, sendo esta liderada por fatores económicos e não só. Nomeadamente, cada vez mais empresas tomaram consciência de que andam a ignorar uma fatia cada vez maior da população, pior ainda, são pessoas que detêm cada vez mais poder económico e que pouco são incentivadas a usá-lo.


É que na maior parte dos países Ocidentais, o “velhinho, coitadinho” é quase uma figura mítica. Muitos chegam à idade da reforma – quando esta existe – em plena forma física e mental, criam, até, novas empresas ou trabalhos, para suplemento das suas poupanças e reformas ou como ocupação, enfim, têm dinheiro e lazer, uma combinação ideal.


Só um pequeno aparte, Portugal está, ainda, um pouco à margem disto. É que mantivemos até muito recentemente uma sociedade em que uma boa parte da população vivia de pouco mais do que de uma agricultura de subsistência ou de empregos não diferenciados e mal pagos e com pouquíssimos cuidados médicos e isso reflete-se no número substancial de idosos com uma muito parca reforma que mal dá para sobreviverem – se é que dá – e sem uma cultura de lazer, algo que nunca souberam o que era. E a sua saúde e boa forma física também não são grande coisa. Infelizmente as coisas são como são e teremos de ultrapassar esta fase para entrarmos, em pleno, nessa tal terceira onda.


E esta está a demonstrar ser totalmente diferente das anteriores. Os “idosos” não pretendem voltar a ser olhados como detentores da sabedoria e muito menos como incapazes ou inúteis. Veem-se, agora, como uma nova categoria, seres plenamente capazes e úteis, que seguem um novo caminho sem esperar pela “autorização” de ninguém, mais ainda, que começam a forçar, pela sua mera existência, muitas mudanças na sociedade.


Muito francamente, já era altura!


Para a semana: O que não fazer. Não se assustem, não são bem regras...

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