Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

77 - É tão bom ser idoso!

Este é um post mais “levezinho” mas, na minha opinião, bem necessário. É que passamos uma boa parte da vida a ouvir falar da desgraça que é envelhecer e dos muitos males e problemas que nos vão, certamente, afetar só por termos passado um certo marco etário.


Como tenho dito noutros posts, envelhecer já não é, hoje em dia, o que era ainda há bem pouco tempo e sê-lo-á cada vez menos, a fazer fé no que se passa noutros países em que esta evolução começou bem antes do que em Portugal.


Mas, se nos fiarmos no que dizem até pessoas que tinham obrigação de ter mais juízo, digamos, está tudo na mesma e, a partir dos 65 anos espera-nos uma perda galopante de vista e de audição, dificuldades nos movimentos, falta de memória e um sem número de outras mazelas. E sim, se calhar até as temos ou vamos ter, mas que tal parar um bocadinho para pensar no que há de bom em já não ser novo?


Em primeiro lugar, destaco vermo-nos livres dos dramas da adolescência e anos subsequentes. Refiro-me, claro, ao “será que ele / ela gosta de mim”, “pensava que ele / ela era uma pessoa amiga e afinal...”, isto sem falar na enorme preocupação com “o que dizem de mim”, sobretudo nas redes sociais.


Não é tão bom não nos preocuparmos com tudo isso? Mais ainda, muitos dos que vão agora para novos – ou já lá chegaram – pouco contacto têm com as tais redes sociais e nunca lhes ocorreria entrar em paranoia ou viver de acordo com o que por lá se diz. Viva ser idoso!


Outra enorme vantagem é podermos vestir e calçar o que nos apetece. Bem sei que os jovens passam a vida a dizer que são diferentes e originais no seu visual e se os compararmos com os adultos, até têm razão. Mas entre eles? Não, é tudo a mesma coisa, o que “alguém”, sim, o misterioso alguém que nunca dá a cara, decretou estar na moda.


Mesmo mais tarde, durante toda a vida adulta, o que usamos tem muito a ver com o ambiente em que trabalhamos e convivemos, há sempre a preocupação de não destoar. E acatamos, em maior ou menor grau, os ditames do tal alguém, um outro, presume-se, atendendo a que é outra faixa etária.


Mas quem já não é novo tem muito mais liberdade de escolha, até porque, graças ao idadismo reinante nas nossas sociedades, ninguém nos liga muito, exceto em casos extremos de desleixo ou exageros de visual. Sendo assim, podemos vestirmo-nos tendo apenas em vista o nosso conforto. Aqui para nós, tendo em conta que os sapatos bicudos voltaram a estar na moda, não estão contentes por terem o pretexto de precisar de um calçado mais seguro em termos de impedir quedas e escorregadelas? Viva ser idoso!


E não esqueçamos o desconto da terceira idade em transportes, museus e várias outras coisas! Sim, os jovens também os têm, mas falta-lhes algo que nos abunda, tempo livre para gozá-los ao máximo. Ou seja, podemos distrair-nos – e cultivar-nos – por bem menos do que gastaríamos se fôssemos mais novos. Mais um viva a ser idoso!


Por falar em tempo livre, que tal não termos de sair obrigatoriamente de casa mesmo que o tempo esteja abaixo de cão? Pois, enquanto os mais novos enfrentam frio, chuva e sabe-se lá que mais – ou calor abrasador – nós podemos ficar no quentinho – ou fresco – das nossas casas e sair apenas quando o ambiente exterior estiver mais apetecível. Pensem nisso no próximo dia de temporal e deem um viva a ser idoso!


Podemos, também, ficar até às tantas a ver um filme ou série de estimação, sem nos preocuparmos com a falta que o sono nos irá fazer na manhã seguinte, como acontecia quando tínhamos de sair para estudar ou trabalhar. A menos que sejamos uma daquelas pessoas com despertador interno que nos acorda sem piedade sempre à mesma hora, pois bem, é só ficarmos aconchegados na cama até nos apetecer levantar-nos. E um grande viva a ser idoso!


Mas há mais. Já ouviram, certamente, a expressão “a minha vida dava um filme”. Pois bem, com uns bons aninhos em cima, todas as vidas dão um, só temos de relembrar pessoas que conhecemos, coisas que fizemos, enfim, coisas que vivemos. E, acreditem, mesmo as vidas mais monótonas contêm bem mais do que pareceria à primeira vista.


Só que em vez de remoer certos acontecimentos, como acontece quando somos mais novos, podemos agora simplesmente recordar o que houve quase como se tivesse acontecido noutra vida, é que já foi há tanto tempo... Não será sempre agradável, mas também aqui temos uma enorme vantagem. É que olhando para o que foi mau à distância de vários anos vemos as coisas, quer queiramos, quer não, com um bocadinho dos “óculos cor-de-rosa” do saudosismo e, também, algum desprendimento, é que no fundo sabemos bem que já não somos aquela pessoa, daí eu ter falado em filme. Viva ser idoso!


Pensemos também na experiência de vida que fomos acumulando ao longo dos anos e dos conhecimentos que adquirimos e de que muitas vezes nem nos apercebemos de que os temos – já agora, não me refiro a “coisas de livros”, pode muito bem ser algo bem mais prático, como saber o que fazer se há uma “desgraça” na cozinha com uma receita ou poder fazer algum pequeno arranjo em casa.


Sem contar que estivemos presentes, em maior ou menor grau, em muitos dos eventos importantes dos últimos anos e à evolução das nossas sociedades, conhecemos o antes e o depois não por termos lido algo ou visto um programa sobre o assunto mas porque o vivemos. E essa riqueza de experiência histórica e sociológica ninguém nos tira. Pois, viva ser idoso!


Resumindo, esqueçam o choradinho da desgraça de envelhecer. Sim, os nossos corpos mudam com o passar dos anos, mas com boa alimentação e atividade física podem, até, não “piorar” assim tanto. Quanto à memória, há cada vez mais estudos que provam que a sua perda não é inevitável.


E como sugestão final, que tal fazerem uma listinha bem pessoal com as coisas em que acham que estão melhores agora que já não são novos? Acima de tudo, não se esqueçam de repetir diariamente – ou mais – a frase que usei aqui várias vezes: viva ser idoso!


Para a semana: Voltemos à memória Sim, é a grande preocupação de quem vai para novo

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