Costumo chamar-lhe a geração esquecida, como referi no primeiro post do meu outro blogue, Luísa Opina, intitulado, precisamente, A geração esquecida. E é-o, de facto, mas é também a geração ensanduichada entre pais idosos e filhos adultos, ou seja, pessoas já na reforma ou perto dela mas que se vêm a ter de tomar conta da geração que as precedeu.
Curiosamente, ou talvez não, num país em que há tanto choro e ranger de dentes sobre o “envelhecimento da população” e a tragédia económica que isso representa para o país, este é um dos muitos detalhes que passam ao lado de “peritos” e comentadores de todos os tipos.
Fica-se com a impressão de que paira no ar a ideia vaga de que os lares são a solução para todos os que ultrapassam uma certa barreira etária e que, sendo assim, não há nada para tentar solucionar, nem sequer a sua existência um pouco por todo o lado.
Ora para além do custo tremendo da maior parte dos lares, não acessíveis, portanto, a todas as bolsas, da sua enorme escassez e da falta de qualidade de muitos deles, até dos de luxo, há ainda a questão de não serem a solução certa para toda a gente. É que não se trata de creches ou de infantários, cujos utentes estão numa idade em que tudo o que é novidade é bom.
Não, os lares são uma questão totalmente diferente. Há quem não queira ir para um, mesmo que não possa, de modo algum cuidar de si, correndo, até, algum perigo se continuar a viver “como sempre o fez”. E há também uma fatia da tal geração sanduíche que acha que esse é um recurso de última instância, a adotar apenas quando não se pode recorrer a outra solução, por exemplo, quando o seu próprio estado físico mal dá para cuidarem de si, quanto mais de outros.
Só que esta atitude de lar ou nada deixa ao desamparo quem, seja por que razão for, opta pelo nada ou, pura e simplesmente, não consegue arranjar lugar num deles. Sim, há centros de dia que poderiam preencher algumas das horas do dia mas, mais uma vez, não são suficientes para a procura, não existem em toda a parte e há quem se recuse a frequentá-los por não gostar de estar entre estranhos ou por outras razões.
Ora tudo isto deixa literalmente ao abandono quem, já na idade da reforma, se vê perante a necessidade de acompanhar, em permanência, alguém ainda com mais idade, sabendo, à partida, que a sua situação se irá agravar cada vez mais com o passar dos anos.
É uma situação bem mais difícil do que possa parecer. É que não nos esqueçamos de que estamos a falar de adultos, com os seus hábitos e teimosias, a que se alia, muitas vezes, a irritação por se verem incapazes de fazer o que até há bastante pouco tempo podiam fazer sozinhos. E, claro, acabam por descarregar toda essa irritação e impaciência no único alvo disponível...
E esta situação continua dia após dia, semana após semana, mês após mês, ano após ano, agravando-se progressivamente. De um apoio esporádico vai-se passando, quase sem dar por isso, a ajuda permanente, sem folgas ou férias, o que acarreta um enorme desgaste físico mas, sobretudo, psicológico.
E porquê sem folgas ou férias? Muito simplesmente, por falta de quem substitua o cuidador. Sim, há empresas especializadas, também elas não existem em todo o lado e não na quantidade suficiente. Mais ainda, muitas vezes os idosos em questão não precisam de cuidados especiais que justifiquem o custo de as contratar, não podem, simplesmente, ser deixados sozinhos e / ou a ajuda de que necessitam pode ser prestada por um leigo, digamos.
É claro que quando se fala em apoios aos cuidadores a solução proposta é sempre a mesma, um subsídio mensal. E é útil, sem dúvida, para quem teve de deixar de trabalhar para cuidar a tempo inteiro de um familiar. Mas fora desses casos, para que serve o dinheiro? Dá tempo livre ao cuidador? Permite-lhe tirar umas horas para si, umas férias noutro local? É claro que não! Ou acham que se podem pôr umas notas a tomar contar do idoso?
O que seria realmente útil era a formação de pessoas que pudessem dar umas horas ou uns dias a quem precisasse de uma folga. Não estou a falar de um curso “a sério”, apenas da aquisição de alguns conhecimentos básicos. E, como muitos idosos não aceitam de bom grado a presença de estranhos, poderiam começar por passar um tempinho na casa juntamente com o cuidador, para “habituação”, sendo, progressivamente, deixados a sós com o idoso, se tudo corresse bem na primeira fase.
Acreditem, poderem ter umas horas por semana para irem arejar, fazer compras, enfim, divertirem-se um pouco sem terem de estar sempre a olhar para o relógio e de coração aos saltos, só de pensar no que se pode estar a passar na sua ausência, seria um alívio tremendo para os cuidadores.
Quanto a férias, que tal a criação de hotéis – ou de secções de hotéis – destinados precisamente a idosos que não podem ser deixados sós e que precisam de algum acompanhamento? Como não é um lar, muitos que recusam esta solução aceitariam, certamente, de bom grado, “ir de férias”, até porque seria apenas por uns dias. Ou uma solução mista, em que o hotel proporcionasse acompanhamento a qualquer hora do dia ou da noite a hóspedes acompanhados de idosos que dele precisassem. Muitos já oferecem baby-sitters a clientes com crianças, seria, apenas, um alargamento dos serviços que prestam – e possivelmente algo muito lucrativo...
Também aqui, à semelhança do que disse para os campos de férias, quem pudesse pagar, pagava, quem não tivesse meios, quer para um acompanhante no mínimo uma vez por mês quer para duas semanas de férias anuais, seria subsidiado por uma pequena percentagem da taxa de turismo.
Para além de isto ser, verdadeiramente, cuidar dos idosos, pouparia, também gastos futuros com problemas físicos e psíquicos da tal geração sanduíche.
Para a semana: Mezinhas caseiras Para quando não se quer aumentar ainda mais a carga de medicamentos