Em Memória, quem te viu e quem te vê falei da diminuição natural da memória e de vários modos de a atrasar ou, até, impedir. Dada a tremenda importância do tema voltar-lhe-ei mais vezes, sobretudo à doença de Alzheimer, este será apenas uma espécie de post de introdução, tratando um pouco de tudo.
No mundo atual tememos mais a perda das capacidades mentais do que uma doença física, talvez porque, graças ao idadismo, crescemos convencidos de que essa diminuição “faz parte” do ciclo da vida e, sendo, assim, é inevitável. Só que é um ciclo vicioso, quanto mais atentos estamos ao seu aparecimento mais entramos em espiral ao menor sinal que a possa indiciar. E esse stress só agrava a situação.
O grande problema é que quando temos pequenos lapsos de memória a partir de uma certa idade surge logo o espetro da terrível doença de Alzheimer. Ora uma coisa não está necessariamente relacionada com a outra nem a redução das nossas faculdades mentais tem de ser inevitável.
Comecemos por esclarecer que Alzheimer não é o único tipo de demência, há muitas outras variantes como a frontotemporal, a terceira mais comum, a vascular, em pessoas que sofreram um AVC, por exemplo ou a doença de Parkinson, entre outras.
E estas são apenas as degenerativas. Mas também há causas que levam a uma demência não degenerativa, como um traumatismo craniano, alcoolismo, tiroide, falta de vitamina B12, tumores, distúrbios metabólicos e vários outros. Há também alguns problemas, como desidratação e infeções urinárias, que resultam em confusão mental e que, se não forem tratados, podem ser vistos como o aparecimento de uma demência.
Neste primeiro post dedicado à doença de Alzheimer começarei por indicar alguns modos como um leigo pode distingui-la do envelhecimento “normal”, lembrando, no entanto, que qualquer tipo de demência só pode ser realmente diagnosticado por um médico.
Aqui vão alguns sinais de alerta.
Esquecer totalmente um acontecimento, data ou evento, se a pessoa costumava ter uma “memória de ferro” para essas coisas.
Dificuldade em seguir orientações, escritas ou orais, por muito detalhadas que sejam. E / ou incapacidade cada vez maior para resolver problemas usuais, como planear compras, ver as contas mensais ou seguir uma receita culinária.
Desorientação e perda da noção do tempo. Sim, acontece-nos a todos não saber, às vezes, a quantas andamos, mas se é cada vez mais frequente, poderá indicar um problema.
Problemas de linguagem. Ter cada vez mais dificuldade em exprimir-se, muito para lá da dificuldade pontual em encontrar a palavra certa.
Abandono de atividades até aí favoritas, como ver o “seu” clube jogar, ir ao café, ler o jornal (para além de problemas de visão, claro).
Deixar de conseguir seguir um filme ou livro, por muito simples que sejam, porque “é muito confuso, não percebi nada”.
Estes são apenas alguns dos sinais de alerta, para uma lista mais completa e a sua comparação com o que é considerado um envelhecimento normal recomendo vivamente o site da Alzheimer Portugal, que é muito abrangente e interessante.
Atenção, estes sinais só são de alerta se comportamentos e atitudes começarem a ser totalmente diferentes do que eram até então. Se uma pessoa foi sempre “despassarada”, nunca sabendo onde pôs as coisas ou o que ia fazer, isso não passa subitamente a indicação de Alzheimer só porque atingiu uma certa idade!
Até há uns anos falava-se coloquialmente em senilidade para abranger todas as formas de demência – e também a mera diminuição natural da memória e capacidades mentais. E era considerada uma consequência normal e inevitável do passar dos anos. Só que, com os avanços da medicina, custa-nos cada vez mais aceitar que há coisas que não têm cura, pelo menos para já, e as doenças degenerativas, físicas ou mentais, são as que mais nos incomodam.
Acho que o que causa mais angústia ao vermos que a nossa memória já não é o que era é a ideia de virmos a ser uns “inúteis”, dependentes de terceiros para as coisas mais básicas. E também a hipótese, cada vez mais presente nas nossas mentes, de que temos Alzheimer, sabendo perfeitamente o tremendo peso, pessoal e económico, que isso irá ter para os nossos familiares.
Mas, como expliquei no post acima citado, há coisas que podemos fazer para retardar esse declínio mental e que são, resumidamente, atividade física, uma dieta saudável e, acima de tudo, a estimulação do cérebro. Lembremo-nos de que no mundo Ocidental atual a atividade mental baixa imenso precisamente quando seria mais necessária. Com a reforma aos 65 anos – ainda menos em alguns países – ou as pessoas fazem um esforço para desenvolver ou manter certas atividades e aprendizagens ou entram em estagnação mental porque já não precisam de fazer nada disso para o seu emprego. E isto coincide com uma diminuição da atividade física – já não é preciso sair tanto de casa – e com uma dieta menos boa – só para mim, não vale a pena cozinhar...
Mesmo quem foi diagnosticado com Alzheimer pode beneficiar grandemente de estímulos mentais e físicos, atrasando a evolução da doença. Sim, por enquanto não há cura, apesar de estarem a aparecer alguns fármacos que ajudam, também eles, a atrasar o agravamento dos sintomas, mas isso não significa cruzar os braços e não fazer nada.
E, como em quase todas as doenças, também neste caso quanto mais depressa for detetada melhor é. Repito, só pode ser diagnosticada por um médico, por isso, se apresenta sintomas ou se os nota num familiar, tente arranjar uma consulta. É claro que o mais provável é enfrentar a atitude do “é normal”, “os anos não perdoam”, como expliquei em Idadismo na medicina.
E se tivermos mesmo Alzheimer? Bom, há dois modos de reagir, desistência total e depressão ou um novo apreço pela vida. Seria muito bom que houvesse acompanhamento psicológico das pessoas assim diagnosticadas para que desenvolvam técnicas de aproveitamento do tempo que lhes resta em plena posse das suas faculdades.
É que esse diagnóstico não é uma sentença de morte imediata, pode, isso sim, ser um estímulo para sair da inércia e viver em pleno cada dia que passa, lembrando-nos de que ninguém conhece o futuro e pode-se até morrer de outra coisa antes que a doença ataque em pleno...
Voltarei a este tema num post futuro, é mais uma área em que há muito poucos apoios. E, já agora, aproveitar também para pôr a vida em dia em termos financeiros, decidir para onde ir quando se tornar impossível continuar onde está, enfim, tomar decisões enquanto as podemos tomar para evitar deixar esse encargo à família direto, caso exista.
Para a semana: Ajudar a geração sanduíche Refiro-me a quem já está na reforma mas tem a seu cargo familiares idosos