À primeira vista poderá parecer estranho falar de férias num blogue dedicado a “quem vai para novo”, ou seja, pessoas que estão, na sua maioria em férias permanentes. Mas ninguém vive isolado e julho e agosto são, por convenção, os meses em que a maioria dos que trabalham tiram férias, uns por necessidade – filhos em idade escolar ou empresas que fecham nesse período – outros por uma certa inércia quando essa necessidade deixa de estar presente.
São também os meses em que muitos não novos, sobretudo em zonas mais rurais, recebem a visita de filhos e netos que residem noutra zona de Portugal, às vezes até noutro país. Em muitos casos é até a única altura em que os veem, tirando, quanto muito, uma visita relâmpago no Natal.
Ora com a chegada de setembro temos dois fatores que em muito contribuem para aumentar o estado de depressão e isolamento desses não novos: a ideia de que só verão a família daí a um ano e a aproximação do outono e inverno, com a sua conotação de morte.
Há também, claro, muitos casos em que se dá o inverso, ou seja, veem a família durante o resto do ano – sobretudo os netos, de que tomam conta fora do horário escolar – e ficam sós no período de férias. Mas este post só lhes é muito indiretamente dedicado.
Neste mundo de dispersão de famílias, não vale a pena suspirar pelos “bons velhos tempos” de casas com várias gerações ou, no mínimo, a viverem bem próximas. As coisas são o que são e devemos, isso sim, ver como podemos minorar o isolamento de familiares mais idosos – ou o nosso.
Pois bem, se ainda não o fez, que tal aprender a usar o seu telemóvel para ter chamadas presenciais? Não é muito difícil, sobretudo se a ligação for iniciada do outro lado, e nem é preciso ter um aparelho topo de gama. O que é necessário, para além de o saber fazer, claro, é haver vontade para marcar, digamos, uma chamada semanal, que poderá até envolver familiares em vários locais – ou, se for muito confuso para quem vai para novo, um escalonamento das ditas chamadas.
E acreditem, uns meros minutos podem fazer toda a diferença na qualidade de vida de quem está só a maior parte do ano. A princípio poderá custar reservar esse tempinho, mas faça um esforço e verá que em breve passa a fazer parte da sua rotina – refiro-me aos familiares, claro.
Se não está nessa situação, ou seja, se apesar de não ser novo não tem família ou esta vive perto de si, pois bem, pode à mesma ajudar: olhe à sua volta, encontrará certamente pessoas isoladas a quem falar ou com quem organizar um pequeno convívio, com a vantagem de que em breve descobrirá que as vantagens são mútuas.
Passemos agora ao segundo fator, a chegada do outono e inverno. A ideia usual é comparar a vida humana às estações de um ano. Ou seja, temos a nossa primavera (infância e adolescência), o nosso verão (os chamados anos ativos, pelo menos até uma certa idade), o outono (a última fase da vida ativa e o início da reforma) e o inverno (os últimos anos da reforma, culminando, inevitavelmente, na morte).
Pessoalmente, acho que esta visão linear fazia todo o sentido quando a nossa esperança de vida era de 40, 50 ou mesmo 60 anos. Mas, atendendo ao que é agora e à rapidez com que tecnologia e sociedade mudam, acho que faz muito mais sentido olhar para a nossa vida como uma série destes ciclos.
Ou seja, tal como na natureza, ao inverno segue-se uma nova primavera, verão, etc. Só que, ao contrário do ciclo natural, cada um dos nossos dura não um mas vários anos, não os mesmos para todos os ciclos, sendo uns mais longos do que outros e ficando cada vez mais curtos à medida que vamos para novos. E, pequeno detalhe, em vez de começar na primavera, como se convencionou para as estações do ano, inicia-se no outono.
E porquê? Bom, nunca vi o outono como uma época em que as coisas começam a morrer – é até a minha estação favorita – nem o inverno como uma altura em que está tudo morto. Do meu ponto de vista, o outono é a estação em que a natureza, tendo-se expandido nas duas estações anteriores, começa a concentrar os seus recursos para preparar o ciclo seguinte. E o inverno é apenas uma época de latência, de hibernação, digamos, para que tudo possa depois renascer com a força toda.
Sendo assim, setembro é um bom mês para “renascer”, ou seja, para iniciar novas atividades, estudos, distrações... Lembremo-nos, por exemplo, de que as chamadas Universidades Sénior aceitam matrículas precisamente neste período e muitos outros locais reiniciam cursos ou atividades diversas uma vez que quem as organiza voltou das suas férias de verão.
Falo de atividades para quem vai para novo em Sejamos ativos e de diversões em Distrações. Mais ainda, com a descida geral das temperaturas, esta é uma boa altura para fazer umas caminhadas ou iniciar – ou reiniciar – alguma atividade física (Exercitemo-nos). E, também, para fazer algum esforço para sair do ramerrame em que inevitavelmente caímos e tentar conviver e sair mais. Enfim, de olhar à nossa volta e tentar descobrir algo que nos agrade e que sirva de mote ao ciclo seguinte.
A grande vantagem de começar agora, no final das férias de verão, é que estará a preparar com a devida antecedência a hibernação do inverno. Em vez de um período triste e vazio, terá, assim, novas coisas para fazer nos muitos dias em que o tempo não aconselha a sair de casa, novos objetivos e programas para se manter ocupado durante esse período usualmente vazio. E, poderá, assim, chegar à primavera (a da natureza) em plena forma física e mental para florescer, então, com toda a sua pujança e em consonância com o que se passa à sua volta.
Para a semana: O stress Pois, infelizmente não se restringe aos novos nem a quem está na idade ativa.