Em posts anteriores já falei da atitude da sociedade perante os idosos – Como a sociedade vê os idosos – e também do facto de continuar a ser o único tipo de discriminação totalmente ignorado este mundo cada vez mais woke – Idadismo I e Idadismo II. Infelizmente, essas atitudes têm uma influência tremenda na nossa qualidade de vida, e não só, se as interiorizarmos, como muitos de nós fazemos, infelizmente.
Vamos começar por um pequeno exercício para ver qual é a sua atitude perante a ideia de “ir para novo”. Sem pensar e sem acionar o seu sentido crítico, escreva cinco palavras – ou conceitos – que lhe vêm à mente quando pensa em pessoas idosas. Mas atenção, nada de frases floreadas, duas ou três palavras são mais do que suficientes para qualquer conceito mais complexo.
Deixe passar uns momentos e releia o que escreveu. Foram termos positivos? Por exemplo, experiência, conhecimentos, ativos? Ou negativos, como perda de forças, falta de saúde, falhas de memória? Pois, tenho um vago pressentimento de que pelo menos a maioria do que escreveu está do lado negativo...
Ora isso é terrível sob vários pontos de vista. Ando a ler um livro muito interessante, Breaking the Age Code (Quebrar o código da Idade), de Becca Levy, professora de psicologia em Yale e investigadora pioneira em gerontologia social e a psicologia do envelhecimento. O livro tem um subtítulo esclarecedor: Como as nossas crenças sobre o envelhecimento determinam quanto tempo vivemos e até que ponto vivemos bem – a tradução é minha. Já agora, encontrei uma versão brasileira intitulada A coragem de envelhecer: a ciência de viver mais e melhor e uma espanhola Rompe Los limites de la edad.
Pode não ser para toda a gente, tem algumas partes mais densas, digamos, mas que são compensadas por inúmeros exemplos e casos. Pois bem, para mim está a ser uma autêntica revelação. A autora usou como base experiências feitas pelo seu laboratório e também estudos feitos noutras áreas ao longo de décadas mas que incluíam, no questionário inicial, perguntas sobre o modo como os participantes encaravam o envelhecimento e os idosos.
Para resumir, o modo como encaramos essa fase inevitável da nossa vida – e relembro, mais uma vez, que só há uma alternativa a envelhecer... – influencia aspetos tão diversos como a nossa saúde, memória, longevidade e muitas outras áreas. Mais ainda, em estudos em que um grupo já avançado em idade recebia de modo subliminar (ou seja, em imagens demasiado rápidas para delas termos consciência) ideias negativas sobre ser idoso, a sua capacidade de memorizar coisas ou de recuperar a forma física era muitíssimo pior do que a de um grupo que recebia ideias positivas!
Felizmente, há uma solução! É que somos bem mais maleáveis do que imaginamos e basta um pequeno esforço para alterar esta situação – bom, parto do princípio que os seus termos eram negativos... E até nem é muito difícil.
Numa primeira fase, tente arranjar cinco conceitos positivos em substituição dos que lhe vieram à mente e leia-os várias vezes por dia. Embora de modo consciente, terão um efeito similar ao do estudo que citei mais acima.
Depois tente arranjar exemplos que contradigam essas suas ideias negativas. Se, por exemplo, acha que criatividade é coisa para novos, tente encontrar exemplos de escritores, pintores, compositores, etc. que trabalharam até tarde. E olhe que nem terá de se esforçar muito! Melhor ainda, procure casos de pessoas que só enveredaram por essas áreas após os 50, 60 anos ou até mais tarde!
E se está a pensar, pois, isso é tudo muito bonito mas eu não tenho talento para nenhuma dessas áreas, aqui fica a minha pergunta: como é que sabe? Aposto que a última vez que escreveu ou pintou foi na escola e por obrigação... E se acha que já é tarde para começar uma atividade artística, aqui fica um exemplo. Anna Mary Robertson Moses era famosa pelos seus bordados; com 70 e tal anos teve de deixar de os fazer por causa da artrite. Desistiu de tudo? Entrou em depressão por “ser velha e inútil”? Não! Decidiu começar a pintar e fê-lo, sem parar e com grande êxito até aos seus 101 anos!
Ou se acha que a idade traz inatividade e passividade, pois bem, olhe à sua volta. Aposto que conhece, pessoalmente ou não, inúmeras pessoas com 70, 80 ou até mais anos cheias de vida e muita ativas, se calhar até na sua própria família chegada ou mais afastada. Pois bem, fale com elas, conviva, pode ser que um bocadinho da sua energia e prazer de viver passem para si. No mínimo serão bons exemplos de que idade não é sinónimo de inutilidade.
Podia até ser uma boa ideia para um segmento televisivo semanal – ou até diário – a apresentação de casos reais de pessoas na força da vida apesar da idade avançada, juntamente com curtas biografias dos tais famosos em várias áreas. E não só. Podia também incluir algumas sugestões de atividades existentes não necessariamente em Portugal como um incentivo para a sua criação local. Penso que isto faria bem mais pela tal população idosa de que tanto ouvimos falar do que a eterna conversa dos “velhinhos, coitadinhos”.
Acredite, vale a pena fazer um esforço para começar a ver o “ir para novo” de um modo positivo, é que mesmo que isso não aumente a sua longevidade, pois bem, dar-lhe-á, no mínimo, uma vida bem preenchida em vez de passar anos – ou até décadas – sem nada fazer porque “na minha idade já não vale a pena”. Só que, como disse num post anterior, o tempo passa à mesma, quer o ocupemos quer não, pior ainda, ninguém sabe quantos anos vai viver, por isso mais vale “ir fazendo pela vida” enquanto por cá andamos.
Para a semana: Doenças Falemos de algumas das doenças mais comuns em quem “vai para novo”