Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

56 - Ir para novo a dois

Quando se fala em preparar a reforma, o que nos vem logo à mente é a sua componente financeira. É importante, sem dúvida, e quem o possa fazer deverá, certamente, tentar tomar medidas adicionais, em poupanças e / ou investimentos, para garantir uns últimos anos melhores.


Mas essa não é a única forma de considerar a questão. Em Preparar o “ir para novo” abordei a questão da interrupção abrupta da nossa carreira profissional uma vez alcançada a reforma e como minorar os problemas que daí advêm.


Mas há ainda um outro aspeto que se devia ter em consideração e que é muito simplesmente ignorado pela maior parte de nós. Pois bem, já pensaram no que acontece a uma relação a dois quando um dos seus membros – ou ambos – se reforma?


Penso que a ideia generalizada é que fica tudo na mesma ou, até, que melhora porque passam a ter mais tempo para estarem juntos. Mas será mesmo assim?


Falarei de vários casos: ambos a trabalhar fora e que se reformam mais ou menos ao mesmo tempo; ambos a trabalhar fora, mas com reformas desfasadas; e um casal em que só um trabalha fora de casa – e sim, o atual teletrabalho está incluído.


Já agora, uso o termo casal na sua aceção mais completa de pessoas que vivem juntas há anos, quer sejam ou não casadas oficialmente. E, também para simplificar, na gramática que usarei considerarei apenas casais heterossexuais.


Comecemos pelo caso de só um ter emprego.


Até à sua reforma, os papéis de ambos os membros do casal eram bastante claros. Ele... bom, os casos em que é só ela que trabalha são ainda raros no nosso país, por isso vou simplificar. Ele, repito, saía todos os dias, seis dias por semana, para o seu emprego e ela ficava em casa ou saía sem qualquer obrigação definida. Em geral, o casal via-se apenas ao fim do dia e ao fim de semana e as chamadas tarefas domésticas estavam quase todas a cargo do elemento que “não trabalhava”.


Eis que chega a reforma e, subitamente, sim, literalmente de um dia para o seguinte, passam a ficar ambos em casa e sem quaisquer obrigações ou horários a cumprir. Os primeiros tempos até poderão correr razoavelmente bem, afinal de contas é uma novidade. Mas depois...


Bom, ela, ou seja, quem já ficava em casa, começa a ressentir a “intromissão” no “seu” espaço, nas suas horas. Já ouviram certamente mulheres de uma certa idade dizerem, “agora que ele está reformado, não me desampara a casa, está sempre no meu caminho a estorvar” ou algo com o mesmo sentido.


Mas para quem estava habituado a sair para o emprego, as coisas também não são fáceis. Não nos esqueçamos que muitas pessoas se identificam apenas com o seu trabalho, fora dele sentem que nada são. Acrescente-se a isso a sensação nítida de que a casa não é o seu lugar e pronto, temos a receita perfeita para depressões, discussões e tudo o mais.


Passemos ao caso de reformas desfasadas. Pois bem, quem se reforma primeiro passa por todos os problemas de deixar de ter uma ocupação e de ter perdido a sua identidade. Junte-se-lhe o facto de o outro membro do casal achar que, “agora que estás em casa...”, tem a obrigação de cuidar a sós do lar e de fazer tudo o que até aí era partilhado, em maior ou menor grau. E não nos esqueçamos de que no nosso país o membro masculino de um casal costuma ser o mais velho, ou seja, o que se reforma primeiro. Ou seja, mesmo que nada fizesse em casa antes, a sua companheira espera agora que passe a fazer tudo ou quase tudo.


Finalmente, o caso de reformas quase coincidentes. Em princípio, poderá ser o mais fácil uma vez que se trata de uma experiência nova para ambos. Mas também pode ser a mais problemática, se ambos tiverem vivido apenas para o trabalho, uma vez que ficam agora duas depressões a partilhar o que se tornou um espaço estranho por falta de habituação no seu uso durante as chamadas horas úteis.


Mas em todos estes casos, perguntar-me-ão, que se passa com conviverem mais, com “singrarem juntos para o pôr-do-sol”? Sim, é tudo muito bonito no papel, mas, infelizmente, a realidade é outra.


Pensem bem, quanto tempo passa um casal junto antes da reforma? Apenas as noites, fins de semana, feriados e férias. E quanto disso é realmente passado a conversar e não a falar de preocupações ou de coisas a fazer? Pois é, a triste realidade é que muitos casais descobrem, quando entram na reforma, que já não se conhecem, pior ainda, que pouco ou nada têm em comum – muitas vezes, nem sequer amigos, uma vez que a tendência é, para quem tem um emprego, conviver quase exclusivamente com colegas uma vez que pouco tempo resta para outras relações.


Resumindo, temos casais que passam os últimos anos – ou décadas – de vida juntos apenas por inércia ou por acharem que, caso se divorciem, ficarão sós e isso seria ainda pior.


Mas não tem de ser assim, tal como a parte financeira – e a da ocupação do tempo do post anterior que mencionei – também a vida a dois pode ser preparada desde bem cedo. Basta haver um esforço para passarem algum tempo juntos, realmente juntos, sem compras ou outros afazeres, para manter a ligação que tiveram durante os primeiros anos. E, acima de tudo, conversar, não de ninharias ou de coisas do dia-a-dia, mas do que realmente vos interessa.


Podem, também, organizar períodos de teste de convívio em casa só entre eles. Passarem, por exemplo, uma parte das férias assim, a “brincar aos reformados”. Será também bom que discutam o que gostariam de fazer quando já não tiverem obrigações. Manterem-se na mesma casa? Viajar? Dedicarem-se a um passatempo a dois? Criar uma nova ocupação?


Em muitos países, nomeadamente EUA e Austrália, é cada vez mais moda casais reformados venderem a casa e passarem a viver numa boa autocaravana, viajando por todo o país, parando onde lhes apetece durante uns dias, meses ou até anos... A grande vantagem é que é algo novo para ambos, veem coisas novas e conhecem pessoas, enfim, é uma nova aventura a dois em vez de se tentarem adaptar à força ao que resta da sua antiga vida uma vez retirada a sua fatia maior, a do emprego.


É que, muito francamente, se é para descobrirem que se afastaram, como se costuma dizer, e que já nada têm em comum, bom, quando mais cedo o reconhecerem melhor será. Caso contrário irão sobrecarregar com mais um problema uma situação já de si complicada como costuma ser a reforma.


Para a semana: Segurança. Regras e propostas para melhorar a segurança de quem "vai para novo"

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