Estamos todos, infelizmente, familiarizados com o pesadelo que é tentar marcar uma consulta num centro médico, mesmo tendo médico de família. E se precisamos urgentemente de ser vistos, pois bem, ou apanhamos uma das pouquíssimas consultas de urgência ou acabamos por passar horas nas Urgências por ser essa a nossa única opção.
E se tudo isto é mau numa cidade grande e com bons transportes, imaginem o pesadelo para quem vive em zonas mais isoladas e, ainda por cima, já vai bem avançado na jornada de “ir para novo”.
É claro que não falta por aí quem sustente que a solução está em criar mais postos de atendimento e ter mais médicos para os servir, sem explicarem, claro, como é que se consegue esse milagre uma vez que vagas em certas zonas do país ficam sistematicamente por preencher.
Mas, pergunto-me, em que é que isso ajuda quem tem de pagar com uma parquíssima reforma um transporte para ir a uma consulta de 10 minutos? Bom, mais as horas de espera... E isto se não chegar lá e bater com o nariz na porta por estar alguém em greve.
Algumas das ideias que tenho para esta questão seriam bem fáceis – e baratas – de implementar, houvesse vontade para o fazer. Outras já exigiriam algum estudo e planeamento mas, mais uma vez, não seriam nada do outro mundo. Mais ainda, não há nenhuma razão para que não se estendam a outros setores etários, tendo em vista critérios como distâncias e dificuldades de movimentação.
Vamos a isto.
A primeira ideia já foi implementada, em parte, durante a pandemia, com médicos a fazerem consultas por telefone. Tive uma referente aos meus pais e foi, francamente, boa. O que proponho é uma versão mais sofisticada, digamos, deste esquema, virado numa primeira fase para pessoas idosas que vivem em locais mais isolados ou que tenham dificuldades de se deslocarem, e que seria, muito simplesmente, uma teleconsulta. Há várias aplicações capazes de sustentarem este sistema, por isso a parte técnica não seria difícil.
E como muitos idosos não sabem lidar com estas “modernices” ou não têm um telemóvel à altura – ou até não têm nenhum – este serviço seria feito em coordenação com a junta de freguesia local. Esta poderia arranjar pessoal seu ou, melhor ainda, voluntários – estudantes liceais, por exemplo, como se faz quando é altura do recenseamento – para se deslocarem a casa da pessoa em questão e auxiliarem com a ligação e até com a conversa, se for preciso. Mais ainda, poderiam levar consigo um bom aparelho de medir a tensão, uma vez que é algo sempre feito numa consulta presencial. Já agora, as Visitadores de que falo no post E vivam as visitadoras seriam aqui muito úteis.
Este esquema teria ainda uma enorme vantagem adicional: é que utente e médico não precisam de estar na mesma terra, ou seja, quem vive num lugarejo algures no interior podia ter como médico de família alguém da vila ou cidade mais próxima em que houvesse médicos.
É claro que nem tudo se resolve com este sistema e haverá sempre casos em que o médico decida que tem mesmo de ver o doente. Mas serão, certamente, a minoria. E assim, muitos dos que evitam ao máximo serem vistos, pelos incómodos e custos que uma deslocação ao médico lhes acarreta, passariam a estar muito melhor acompanhados, com problemas detetados a tempo.
É que como estamos sempre a ouvir dizer – mas não a fazer – em termos de saúde não há nada melhor do que a prevenção.
A ideia para a segunda proposta veio também da pandemia. Como todos sabemos, há zonas nas grandes cidades com uma população maioritariamente envelhecida e com pouco poder financeiro. E como pouco (ou nada) se afastam do seu bairro, nem passe de transportes têm e uma ida ao médico é-lhes trabalhosa e cara.
Sendo assim, porque não levar o médico até elas? Pensem bem, o que é preciso para consultas de rotina? Muito pouca coisa e nada de muito volumoso ou complicado. Não seria viável organizar na junta de freguesia, numa escola, num pavilhão ou outro local público uma “visita do médico” em certos dias da semana / mês, só para residentes idosos daquela zona? A marcação seria bem mais fácil de fazer e a deslocação também.
E se estão a pensar, então os não idosos não têm direito? Isso não é descriminação? Bom, se o é, talvez seja altura de haver alguma a seu favor!
Já agora, nestas duas propostas há um elemento comum: é que como os médicos não têm de estar num centro de saúde para dar as consultas, poderão fazê-las num horário da sua conveniência – no caso das teleconsultas há que ter em conta se vai haver um auxiliar junto do utente – sem que isso envolva todo o restante pessoal.
A última proposta é um pouco mais complexa, mas seria realmente ideal para as muitas povoações com pouquíssimos (e idosos) habitantes espalhadas pelo nosso país.
Pois bem, a ideia seria equipar uma carrinha como consultório médico, com o mínimo de equipamento de medicina e enfermagem. Levaria um médico e um enfermeiro e percorreriam, num horário predeterminado e anunciado, aldeias e lugarejos do seu raio de ação. O tempo passado em cada local seria ajustado consoante a respetiva população, mas haveria, no mínimo, uma visita a cada três meses.
Para além das consultas de rotina poderiam fazer, também pequeno curativos – em muitos casos, as pessoas que vivem nesses locais deixam andar as coisas à espera que se curem sozinhas...
Poderiam, também, tirar sangue para análises, por exemplo, outro pesadelo logístico para quem vive nessas circunstâncias. Ou outros exames que possam ser feitos com equipamento mais “portátil”, digamos.
E para serem ainda mais úteis, este serviço poderia incluir também, uma pequena “farmácia” com os medicamentos que aqueles utentes usam mês após mês, ano após ano, abastecida por uma das farmácias da zona – se houver mais que uma, bom, faça-se um concurso público.
Já agora, para um verdadeiro Serviço Nacional de Saúde, que tal incluir também neste esquema, com outra periodicidade, claro, um dentista e um oftalmologista?
Para a semana: Voltemos à alimentação. Mais algumas sugestões