Considera-se, e bem, que a solidão é um flagelo dos tempos modernos, sobretudo entre os adolescentes e em que “vai para novo”. Não deixa de ser irónico, atendendo a que nunca houve tantos modos de contactar pessoas e, até, de conviver. Mais ainda, ao contrário do que se passava até bem recentemente, já não estamos limitados a pessoas que conhecemos fisicamente através da família, emprego, vizinhança, etc.
Ora eu penso que a raiz desta epidemia está em não ensinarmos às pessoas o valor da solitude.
Sim, sei que parece um “invento” moderno, mas este conceito já existe há bastante tempo e o termo também.
Comecemos pela semelhança entre os dois termos. Pois bem, ambos significam estar sozinho.
Só que não são sinónimos. E porquê? É que solidão é estar sozinho e querer estar com outras pessoas. Ao passo que solitude é estar sozinho e abraçar isso como uma oportunidade, ou seja, escolher estar só e ser feliz com isso.
Dir-me-ão, e quem não escolhe estar só? Como é que pode ter solitude?
Aprofundemos um pouco mais estes dois conceitos.
A solidão implica tristeza, a pessoa quer conviver, relacionar-se e não o pode fazer por razões diversas. Ou seja, é um conceito negativo que pode degenerar em depressão e outros distúrbios mentais.
Já a solitude é um conceito positivo porque permite entrar em contacto com nós próprios e sentir prazer na nossa companhia. Pode também funcionar como uma espécie de “espaço para respirar”, para descansar dos outros e do mundo que nos rodeia, enfim, para “carregar baterias”.
Estudos têm provado que a solitude tem inúmeras vantagens, de que mencionarei só algumas.
- É muito importante para o autoconhecimento e para dar prioridade aos nossos pensamentos, desejos e necessidades.
- Pode ajudar a aumentar muito a criatividade.
- O distanciamento de outras pessoas permite entender melhor o que se passa no nosso âmago e a desenvolver opiniões próprias a nosso respeito.
Antes de continuar, aqui fica um aviso: procurar a solitude não significa deixar de tentar conviver, de ter uma vida social. O convívio é sempre desejável, sobretudo em quem “vai para novo”, como tenho referido em posts anteriores. Só que nem sempre é possível e quem não o consegue acaba por sofrer, em maior ou menor grau, de solidão.
É especialmente difícil para mulheres de uma certa idade que passaram da casa dos pais para a que criaram com o marido e que se veem a viver sozinhas pela primeira vez com uma idade bastante avançada – lembremo-nos de que a esperança de vida das mulheres é superior às dos homens, apesar de essa diferença se ter vindo a atenuar. Ou seja, nunca estiveram sozinhas consigo mesmas e não sabem o que fazer numa situação dessas.
Mais ainda, vivemos numa sociedade em que o gosto por estar sozinho é muito mal visto e criticado, “bicho do mato” é um dos miminhos mais suaves que se ouvem em relação a quem aprecia a sua solitude.
Ou seja, temos tudo a empurrar-nos para a solidão e nada que nos desvie para a solitude. Pois bem, está na altura de mudar isso!
Comece por repetir diariamente – ou até várias vezes por dia – que não há mal nenhum em estar só. Acima de tudo, não é prova de que se é uma pessoa horrível com quem ninguém quer conviver, quando a realidade é que, a partir de uma certa idade, nos é muito difícil arranjar novos amigos quando os antigos desaparecem, levados pelas correntes da vida ou, até da morte. Mas isso será tema para um post futuro.
O passo seguinte é converter um mal – a solidão – em algo bom – a solitude. Pois bem, sem deixar de se abrir ao mundo, procure apreciar a sério algum do seu tempo a sós. Não à toa, vendo televisão apenas para passar o tempo, por exemplo, mas fazendo um esforço a sério para pensar no que realmente gosta, no que deseja, enfim, para fazer um pouco de introspeção. Uns minutinhos bastam para começar, verá que às tantas fica tão absorta nos seus pensamentos que o tempo passa sem que dê por ele.
Um outro passo importante é começar a fazer coisas sem esperar até ter companhia. Nunca vai ao cinema sozinha? A um museu? Pois bem, é altura de começar! E quem sabe, poderá até divertir-se bem mais do que se for com alguém que não partilha os seus gostos e com quem convive apenas... para não estar sozinha.
Dê um pequeno passeio no seu bairro, num parque vizinho, enfim, nalgum lugar que lhe atraia a atenção. Mas não se limite a andar, não é uma prova atlética, olhe à sua volta e tente apreciar o que a rodeia. Acredite, há sempre pequenos detalhes interessantes até mesmo na zona mais prosaica.
E se nunca faz nenhuma destas coisas por receio do que “as pessoas dirão”, esqueça, a vida é sua e ninguém tem nada a ver com isso. Além do mais, tem mesmo a certeza de que comentam os seus atos? Ou que reparam até neles? É que muitas vezes as barreiras que nos limitam estão em nós e não na sociedade ou nas pessoas que nos rodeiam.
Tente fazer algo sozinha uma vez por dia – já agora, ir às comprar não conta, há fortes probabilidades de ser algo que faz há anos, mesmo quando ainda vivia acompanhada. Não é preciso ser algo grande, repito, um pequeno passeio pelo bairro por mero lazer é quanto basta, pelo menos para começar.
Irá, assim, aprendendo aos poucos a viver em solitude e não em solidão.
E sabe aquela ideia de que esperamos uma eternidade por um autocarro e depois em vez de um vêm vários? Pois é, quando nos sentimos bem connosco e com estarmos sós, surpresa, surpresa, surgem muitas vezes oportunidades de convívio, as tais que perseguimos sem êxito sabe-se lá durante quanto tempo.
Boa solitude!
Para a semana: Desfrutar do ar livre. Somos o país do sol e do bom tempo, há que aproveitar...