Ir para novo

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36 - E vivam as visitadoras

Há muitos anos, bom, até à década de 60 do século passado, existia em Portugal a figura da enfermeira visitadora. Fazia parte das reformas propostas por Ricardo Jorge para melhorar as condições sanitárias da população, combater o tremendo flagelo que era então a tuberculose e muito mais. Era um curso muito curto, que nos anos 30 passou a ter a duração de um ano, incluindo quatro meses de estágio.


Tinham inúmeras tarefas a seu cargo, incluindo acompanhamento de doentes, pequenos curativos e muito mais. Lembro que na época o curso de enfermagem era relativamente rápido e não era, de modo algum, um curso superior.


Ora não seria bom se houvesse algo similar para a cada vez maior fatia da nossa população que “vai para nova”? Ou seja, a criação de simples visitadoras, não enfermeiras, que verificassem periodicamente as condições de vida das pessoas da sua lista, chamassem os serviços competentes caso precisassem de ajuda e muito mais.


Bastaria uma formação básica e essa função poderia ser executada por estudantes, por exemplo, como trabalho cívico – à semelhança do que acontece em muitos países europeus e não só. Mas também por pessoas do denominado rendimento mínimo (que não o é), voluntários e pessoas pagas para o fazerem.


Antes de passar à descrição de possíveis funções a executar, vamos ao que mais interessa a muitos e que é... quem paga isso?


Pois bem, famílias que o pudessem fazer, dariam o seu contributo, consoante as suas posses. É que, como tenho dito em vários posts anteriores, para muitos idosos e para os seus familiares o grande problema até nem é o dinheiro, é sim a falta de quem preste cuidados e a ausência de muitos serviços, nem que se possa pagar por eles.


E para quem não tivesse recursos ou os familiares não pudessem pagar, pois bem, isso ficaria a cargo da Segurança Social. Sim, sei que já tem encargos a mais e está, de facto, falida, mas, muito francamente, seria dinheiro mais bem empregue do que muitos dos seus gastos atuais – como o famigerado RSI, entregue anos a fio sem que se veja a menor tentativa de reinserção (ou de inserção) da parte de quem o recebe,


Passemos às funções, todas incluídas em visitas periódicas ao domicílio das pessoas registadas como estando acima de uma certa idade e a viverem sozinhos – e um casal de idosos entra neste critério.


Como referi brevemente acima, o principal objetivo é verificar se está tudo bem com a pessoa e ajudar no que for preciso. Não me refiro apenas ao estado de saúde física, uma vez que as visitadoras não teriam formação específica nessa área. Poderiam, isso sim, alertar quem de direito se detetassem qualquer problema que achassem grave ou com tendência para se agravar.


Não, a sua principal atividade seria na área do bem-estar geral. A casa está razoavelmente limpa? A pessoa apresenta sinais de que cuida de si? Consegue ir às compras ou tem quem o faça por si? Apresenta sinais de maus tratos? Sim, é que, infelizmente, são cada vez mais comuns situações em que familiares maltratam os seus familiares mais idosos.


Não seriam visitas a correr, como se pode imaginar lendo esta pequena lista. Mais ainda, caso houvesse sinais claros de que a pessoa precisava de ajuda ou que se “estava a deixar ir”, seria assinalada para ser alvo de uma visita mais prolongada de futuro, com a visitadora a ajudar no que fosse preciso, da limpeza da casa aos cuidados pessoais e compras – daí a tal formação básica.


Mas a maior vantagem deste serviço seria quebrar o ciclo de solidão em que muitos idosos vivem. Nem que fosse apenas uma visita mensal, seria, certamente, uma mudança muito positiva na vida dessa pessoa.


O ideal seria conseguir visitas semanais ou, quanto muito, quinzenais. Isso iria depender bastante da área específica, como bem sabemos há bairros nas grandes cidades em que a média de idades é bem acima dos 50...


Há ainda as zonas rurais, que têm a sua própria especificidade, nomeadamente em termos de isolamento. Aqui, sim, o ideal seria uma visita prolongada, uma manhã ou uma tarde inteiras. É que mesmo que não fosse preciso qualquer tipo de ajuda, faria um bem tremendo à saúde mental da pessoas visitada passar umas horinhas a conversar, a conviver. E numa altura em que tanto se fala da saúde mental da população, este seria um grande passo em frente.


Não nos esqueçamos de que numerosos estudos recentes fazem notar que o risco de suicídio após os 65 anos é bem superior ao de qualquer outro grupo etário e a razão principal é, muito simplesmente, o isolamento e solidão tremendos em que muitas dessas pessoas vivem.


Sei que muitos idosos precisam de apoios na área da saúde, mas penso que se tem descurado tudo o mais que pode correr mal. E seria bem mais rápido e fácil tentar criar este serviço de visitadoras do que organizar apoio médico ao domicílio... é que no mundo atual, nem que seja para fazer apenas uns curativos ou dar umas injeções, é preciso um longo curso de enfermagem – é-o, pelo menos no nosso país, em que é o tudo ou nada.


Mas mesmo nessa área as visitadoras poderiam ter um papel importante, alertando para problemas que os idosos têm tendência a ignorar “porque não é nada, vai passar...” E com o modo como o SNS funciona, bom, quem os pode criticar?


Enfim, sei que nada disto surgirá amanhã – ou nunca... Mas talvez sirva de inspiração a paróquias e outras organizações que já tentam dar algum apoios à população não muito jovem das suas áreas, relembrando-lhes de que muitos não gostam de centros de dia ou de outras atividades organizadas, acabando por se fechar cada vez mais sozinhos em casa. E, muito francamente, muitas vezes uma simples visita para conversar é bem mais importante do que outros apoios... pelo menos para quem a recebe.


Para a semana: Solidão e solitude. Uma é má, a outra pode ser muito boa.

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