No post Memória, quem te viu e quem te vê? falei um pouco do que é a memória, dos tipos de memória que há e das razões da sua diminuição quando vamos para novos. Dei também algumas indicações genéricas de atividades que podem estimulá-la e que, lembro, nunca é cedo demais para começarmos.
Como todos sabemos, se os músculos não são estimulados, atrofiam e, com o passar do tempo, perdem até a capacidade de recuperarem. Ora o mesmo se passa com a nossa mente, se não a usarmos, vai perdendo progressivamente as suas capacidades.
Proponho, pois exercitá-la, independentemente da idade. Mas a principal ênfase aqui é para quem tem a seu cargo familiares não muito novos, digamos, que querem ajudar a manterem-se “espertos como um alho” o mais tempo possível. Como muito do que aqui proponho tem de ser feito por duas ou mais pessoas ou, quando muito, é melhor se o for, a sua prática ajuda também a exercitar o músculo mente dos mais novos.
Sei que para muitos dos que estão atualmente avançados nesta jornada não é fácil aceitarem algumas destas distrações, sobretudo as mulheres. Mas com algum esforço, consegue-se lá chegar.
Comecemos pelos muito banais jogos de cartas. São uma ótima opção para entreter pessoas com pouca mobilidade e sem exigirem equipamento caro e complicado. Genericamente, jogar às cartas, seja que jogo for, melhora a chamada estimulação cognitiva e ajuda a evitar a perda de memória, mesmo que seja algo muito simples. Sendo assim, porque não procurar jogos simples que se possam jogar a dois ou mais? Falo em procurar porque o ideal seria ir variando, para não se entrar numa rotina em que já quase nem é preciso pensar.
Fazer paciências também conta mas, mais uma vez, evitar fazer sempre a mesma coisa. Sim, sei que é um jogo a sós – bom, há versões eletrónicas para mais jogadores – mas nem sempre podemos estar presentes e assim temos a certeza de que o nosso familiar recebe algum estímulo na nossa ausência.
Um outro jogo outrora muitíssimo popular, pelo menos entre os homens, é o dominó. Tal como os jogos de cartas, exigem que se raciocine para a colocação da melhor peça e, sendo assim, estimula a memória e o raciocínio lógico.
Uma outra atividade interessante tem a ver com as também outrora muito populares adivinhas. Não faltam livrinhos com elas e sites repletos das mesmas, com variadíssimos graus de dificuldade. Mas aqui o ideal será esperar que a pessoa a “ir para nova” vá respondendo e raciocinando, mesmo que já saibamos a resposta. E sabe que mais? Poderá, até, ter uma surpresa agradável e o seu familiar demonstrar que tem um belo reportório delas, da sua infância e juventude.
Uma variante será usar ditados. Com o pretexto de ter lido um giro, pode citá-lo e ver se o seu familiar o conhece ou a alguma variante. Para além de ser estimulante, ainda acaba a aprender umas coisinhas...
Outra atividade estimulante e que pode também ser feita a sós – apesar de ser bem melhor a dois – é fazer um puzzle. Há-os bem difíceis, mas se a pessoa em questão nunca fez nenhum, o melhor é começar por algo mais simples, para não desencorajar logo. E quando digo que é mais divertido a dois, é que pode servir de pretexto para conversar de um modo mais descontraído.
Aliás, se conhece pessoas que também gostam de os fazer, que tal criar uma espécie de “serviço de trocas”? Assim teriam todos acesso a bastantes exemplares sem grande despesa.
No post anterior falei da leitura, mas sugiro aqui uma variante: ler um livro em conjunto. Terá a vantagem adicional de contornar problemas de visão ou de falta de familiaridade com a palavra escrita. Escolher, claro, algo que possa agradar ao seu familiar. E pode até ser divertido ir lendo “usando vozes”, quebra a monotonia, mantendo o seu ouvinte mais atento.
Os jogos de tabuleiro são sempre interessantes e o interesse por eles – e a sua quantidade e variedade – aumentaram imenso nos últimos anos. Será pois bastante fácil encontrar algo que estimule a mente e, mais uma vez, possa servir de pretexto para conversar e conviver.
Já referi por duas vezes conversar, acreditem, é uma atividade ótima para estimular a mente. Não me refiro, claro, ao banal “como é que está?” e similares mas sim a uma conversa a sério. Bom, dito assim, quase mete medo... mas quero apenas dizer o tipo de troca de ideias, factos, bisbilhotices, etc. que temos com as pessoas que fazem parte do nosso círculo. Mas como o familiar em questão pode não lhe pertencer, sugiro usar atividades como um puzzle, um jogo de tabuleiro ou isso para criar um ambiente menos forçado.
A minha última proposta tem a ver com algo que muitos idosos até adoram fazer, só que, infelizmente, sai muitas vezes sob a forma de remoer a mesma coisa. Refiro-me, claro está, a recordar o passado. Mas, repito, recordar, não remoer. E pode ser feito de um modo muito simples, por exemplo, dizer que se tem um conhecido que é carpinteiro, falar um pouco dele (nem que seja inventado) e ver se “sai” uma recordação.
Pode-se usar de tudo, o nome de uma terra, um nome – “ontem conheci pela primeira vez alguém chamado Albano” – ou muitas outras coisas. É claro que funciona muitíssimo melhor se nos basearmos, pelo menos inicialmente, em factos conhecidos da vida do nosso familiar. E, quem sabe, poderemos até ouvir histórias bem interessantes.
Apesar de muito do que aqui disse tenha a ver com estimular a mente de terceiros, a verdade é que ao fazê-lo estamos também a estimular a nossa. Sem contar que vamos criando hábitos de distrações que nos podem vir a ser muito úteis mais tarde, quando nos chegar a vez.
Para a semana: E vivam as visitadoras. Recuperemos as antigas visitadoras... mas com uma diferença