Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

34 - Cuidados Paliativos

Hoje irei de falar de algo mais triste, digamos, mas que é inevitável para muitos, ou antes, para cada vez mais pessoas. Sei que há quem não queira nem pensar no assunto, por isso aqui fica o aviso: irei falar da morte em casos em que a única coisa a fazer é esperar por ela o melhor possível.


Muito recentemente, pensei que ia ter necessidade de cuidados paliativos para um familiar. Infelizmente não foi preciso, mas fiquei chocada com o resultado da pequena pesquisa que fiz.


Sei que há centros que os prestam – com a inevitável lista de espera, claro – mas pouco ou nada encontrei para quem deseja passar os últimos dias (ou meses) da sua vida em casa, para morrer no seu ambiente e rodeado dos seus entes queridos.


Pelo que percebi, se o problema é um cancro, há associações que prestam alguns cuidados. Descobri também uma empresa que avaliaria a situação para depois dar um orçamento.


Mas... e quem não pode pagar? Não devia ser um serviço coberto pelo tão badalado e elogiado Serviço Nacional de Saúde? Ou morrer bem não está no âmbito das suas funções?


Mais ainda, uma pessoa nessas condições nem sempre precisa de cuidados médicos e / ou de enfermagem complicados. Muitas vezes são só pequenas coisas que um familiar poderia aprender a fazer ou que uma visita diária de alguém habilitado resolveria.


O problema é que ter um bom fim de vida não se resume apenas a receber tratamento médico, há muitas outras coisas. Por exemplo, uma pessoa nessas condições tem, em geral, pouca ou nenhuma mobilidade. Ora será muito difícil a um leigo, digamos, fazer a cama com a pessoa deitada, lavá-la, vesti-la, enfim, prestar-lhe os cuidados mais básicos, pelo menos sem lhe causar grandes e penosos incómodos.


Não digo que deva haver equipas permanentes a andarem de casa em casa a prestarem esses serviços. Mas, no mínimo, deviam existir para os primeiros tempos, com a função importantíssima de ensinarem tudo isso a quem vai, de facto, cuidar do doente terminal.


Mais ainda, nem sempre o mobiliário que temos em casa é o mais adequado e sim, sei que se pode alugar, por exemplo, uma cama como a dos hospitais. Mas pergunto mais uma vez: morrer em casa é um luxo só para quem tem dinheiro? E há inúmeros outros acessórios que facilitariam imenso a vida da pessoa e o seu conforto, só que os familiares não fazem a menor ideia e não têm quem os informe devidamente.


Não admira, pois, haver tantas pessoas hospitalizadas apenas à espera da morte, é que, francamente, não há alternativas decentes. Por muito má que seja essa solução, serem cuidados por quem não faz a menor ideia do que deve fazer e como fazê-lo é capaz de ser bem pior.


E temos também a parte da distração. Há pessoas nessa fase que estão a maior parte do tempo inconscientes, sobretudo devido à medicamentação, mas há bastantes que passam muitas horas conscientes, mas sem grande capacidade de se moverem.


Pois aqui fica uma dica futurista, que tal experimentar com óculos de realidade virtual? Se houvesse um esforço conjunto – e perante as inúmeras hipóteses de comercialização – estou certa de que surgiriam muitos projetos interessantes. Por exemplo, visitas virtuais à terra natal da pessoa ou a outra onde viveu algum tempo ou a onde sempre quis ir. Já agora, uma instituição de Alpedriz (Alcobaça) fez essa experiência com os seus cerca de setenta utentes de apoio domiciliário e o resultado foi ótimo.


Temos, também, a componente espiritual, digamos. E não me refiro apenas a apoio religioso, tenho a certeza de que pessoas bem inseridas numa comunidade religiosa têm acesso a visitas, apoio, etc.


Mas mesmo os não oficialmente religiosos precisam de alguma orientação, de terem com quem falar. E, francamente, família e amigos nem sempre são a melhor opção, todos sabemos que há coisas de que é bem mais fácil falar com um estranho. E para todos os efeitos, um padre ou outro religioso recebeu formação para escutar, apoiar, e tudo isso. Repito, não se trata de “vender religião” mas de organizar uma rede de pessoas que possam ajudar com a transição pacífica para a morte e, pelo menos numa primeira fase, recorrer a pessoas dessa área seria mais rápido do que estar a formar gente de base – isto partindo do princípio de que haveria dinheiro para isso...


E o apoio psicológico a quem assiste a tudo isto? Já é um choque saber da morte de um ente querido num hospital por razões de saúde, mas assistir, dia após dia, ao seu “desaparecimento” gradual é, certamente, bem mais traumático. Até porque a situação de cuidados paliativos pode durar semanas, meses, até, com todo o desgaste mental que isso acarreta.


Só que, mais uma vez, apoios, nem vê-los.


Já agora, quando falo em apoios, não me refiro a dinheiro. Acreditem, para muitos cuidadores, ter um verdadeiro apoio nos cuidados a prestar, ter a hipótese de poder ter uma folga de vez em quando e, muitíssimo importante e quase sempre ignorado, ter com quem falar, tirar dúvidas, desabafar, conta bem mais do que a componente monetária, mesmo quando esta é muito bem-vinda.


O único “consolo”, se é que lhe podemos chamar isso, é que se morre com a mesma falta de apoios com que se nasce: não há parteiras profissionais para quem queira dar à luz em casa (ao contrário de muitos países, como a França) e não há quem prestes cuidados paliativos normais em casa.


Ou seja, nasce-se e morre-se institucionalizado!


Para a semana: Tratar a mente como um músculo. Ou seja, exercitá-la...

0