Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

30 - Expectativas

Se pensarmos um pouco, nós que estamos bem a caminho de “ir para novos” chegamos rapidamente à conclusão de que, durante uma boa parte da nossa vida, tivemos expectativas, boas e más, sobre como seria essa inevitável etapa da nossa vida – bom, chegando lá, claro está...


No post de hoje irei analisar algumas delas e ao modo como, sobretudo nos últimos anos e com a rápida evolução da sociedade, da ciência e da tecnologia, muitas delas passaram a ser irrealistas, mais uma vez no bom e no mau sentido.


A primeira grande expectativa que mudou imenso é, precisamente, a de chegar a esta fase da vida. É que com a esperança de vida tal como era, a ideia mais disseminada era, “já não chego lá!” Ou, a partir de uma certa idade, “já pouco viverei”. E, na maioria esmagadora dos casos, essa expectativa até se cumpria.


Infelizmente, as coisas mudaram mas a mentalidade tem alguma dificuldade em acompanhar essa evolução. E assistimos a muitas vidas desperdiçadas, sim, desperdiçadas, por causa da ideia de, “na minha idade, já não vale a pena”.


Já falei disto anteriormente e do facto de o tempo passar à mesma, quer se aja ou não, por isso mais vale irmos fazendo alguma coisinha, como estudar, ter um novo passatempo, viajar, enfim, viver como se o amanhã só fosse chegar daí a imenso tempo – e até chega cada vez mais tarde!


Uma outra expectativa negativa tem a ver com a saúde física e, sobretudo, mental. Comecemos por esta.


Era ponto assente entre praticamente toda a população de que a idade traria, inevitavelmente, a senilidade, a perda das faculdades mentais. Ora isso não é bem assim. Tem-se constatado que o cérebro funciona quase como um músculo, tem de ser exercitado para se manter em boa forma. E talvez devido ao tipo de profissões atuais da maioria, que exigem um esforço cerebral maior, muitos chegam agora a uma etapa bem avançada da vida com todas as suas faculdades intactas, ou quase.


Sim, há doenças degenerativas, como Alzheimer, de que falarei numa outra altura, uma vez que merece um post totalmente dedicado a ela. Mas até nestes casos uma deteção precoce seguida de “ginástica” mental pode atrasar imenso o aparecimento dos sintomas mais graves.


Também a saúde física tem mudado muito e há agora pessoas de 80 e muitos bem mais saudáveis e em melhor forma do que muitos o eram há uns anos com metade dessa idade.


Só que, tanto na saúde mental como na física, apesar de sabermos que tudo se alterou imenso, e para melhor, ainda mantemos, no fundo, as mesmas expectativas de deterioração e pouco ou nada fazemos para as contrariar.


Temos também o caso da reforma. Durante décadas, ansiava-se por poder, finalmente, deixar de trabalhar – bom, a minoria que tinha direito a uma reforma, entenda-se, para muitos era labuta até ao fim. Era uma espécie de Eldorado, um tempo de lazer e despreocupação que duraria até ao final da vida. E porquê Eldorado? Bom, é que para muitos acabava por não passar de um mito uma vez que acabavam por não chegar lá. E para os que o conseguiam, bom, a duração era frequentemente curta e não chegava para se fartarem.


Mas enfrentamos, agora, vinte ou mais anos de “vida de lazer” e, ao fim de muito pouco tempo, deixa de ter o mesmo sabor, pode até tornar-se um grande pesadelo.


Mais uma vez, as coisas mudaram mas a nossa expectativa interior manteve-se a mesma, apesar de sabermos muito bem que é irrealista. Só, que, infelizmente, isso impede-nos de encarar a reforma de outro modo e, acima de tudo, de a preparar para que seja realmente um período prazenteiro da vida.


A última grande expectativa tem a ver com a família. Com exceção de quem não tinha filhos, por nunca os ter tido ou por os ter perdido, a expectativa era passar os últimos anos na companhia dos descendentes e a ser cuidado por eles. Via-se até isso como uma obrigação, sobretudo por parte das filhas.


Mesmo os que se mantinham na sua própria casa podiam contar ter pelo menos parte da família perto e, apesar de não haver telemóveis, Internet e tudo isso, viam mais os filhos e netos do que atualmente.


Também aqui as coisas mudaram – e de que maneira. Apesar de termos agora uma baixíssima mortalidade infantil, está a tornar-se quase uma norma os idosos viverem isolados da família que, muitas vezes, nem no mesmo país está.


E com a melhor condição física e mental do idoso, acima referida, e a sua longevidade, há muitíssimo menos pressão para “aproveitar porque pode não durar muito.” Ou seja, estar com um familiar idoso deixa de ser visto como algo que poderá não se repetir muitas vezes para se tornar uma obrigação a que se tenta fugir o mais possível porque, “fica para a semana, para o próximo mês, para o ano que vem...”


O problema aqui é que muitos dos que “vão para novos” mantêm a convicção de que se deve ter a companhia da família nos últimos anos e, não a tendo, acabam por entrar em depressão, como muito bem sabemos, mesmo quando a relação com os ditos familiares nunca foi das melhores.


Resumindo, é mais do que altura de analisar as expectativas que temos em relação ao que significa chegar a uma certa idade e fazer todos os possíveis para as adaptar às novas realidades – é que só assim poderemos desfrutar de uns verdadeiros “anos de ouro”, preparados como deve ser e sem estarmos dependentes de terceiros para validar o nosso valor como ser humano digno.


Para a semana: Coisas vivas. Animais e plantas são excelente companhia.

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