Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

28 - Falemos da reforma

Tenho assistido, estupefacta, às manifestações em França quanto ao aumento da idade da reforma dos 62 para os 64 anos. Nesta época de longevidade a disparar, acho, no mínimo, ridículo estes protestos. A menos que, à imagem do seu famoso rei Luís XIV, sejam adeptos do “depois de mim o dilúvio”. Só que, infelizmente, a reação é a mesma em Portugal quando se tenta “reformar a reforma”, acho, até, que se trata muito simplesmente de uma reação automática, sem análise dos factos.


E quais são estes? Vamos por partes. Já agora, falarei só do nosso caso.


O primeiro é, claro, o aumento da longevidade. Já falei nisso no primeiro post deste blog, Somos pioneiros, mas nunca é demais repeti-lo. É que em 1960, a esperança média de vida dos homens era de 60,7 anos (bem abaixo da idade da reforma) e a das mulheres 66,4. Ora em 2020 esses valores passaram para 77,7 e 83,4, respetivamente!


Mas há mais. Até bastante recentemente em Portugal, entrava-se bem cedo no mercado do trabalho, por volta dos 14-16 anos, exceto a minoria que ia para a universidade. Lembremo-nos de que a primária ou o ciclo chegavam para muitas profissões que exigem agora o 10º ano. Ou seja, aos 65 anos, muitos já tinham trabalhado mais de 45.


Ora agora começa-se a trabalhar cada vez mais tarde, devido aos estudos, sobretudo, mas a idade da reforma vai-se mantendo, apenas com pequeníssimos ajustes, mesmo assim muito contestados.


Isto traz, claro, problemas de sustentabilidade financeira para manter os valores pagos, sobretudo porque a sua aplicação se alargou imenso.


Mas nem é esta a questão que mais me incomoda. A sério.


Não, o que realmente me faz confusão é ver os mesmos que até querem baixar a idade da reforma virem depois dizer “põem-nos de lado como se já não valêssemos nada”. E “aqui estamos sem nada para fazer, só à espera da morte”. Bom, em que é que ficamos?


É que com os números que dei acima, muitos já “gozam” atualmente de 20 ou mais anos como reformados e esse número está sempre a aumentar. Ora, infelizmente, não somos um país em que seja hábito ter passatempos, atividade física, enfim, algo para ocupar esses longos anos que dizem ser de merecido descanso, como referi num outro post antigo, Preparar o “ir para novo”.


Não admira, pois, que muitos idosos sofram de depressão e do sentimento de estarem a mais no mundo, de serem um peso morto na sociedade a que pertencem, sobretudo porque estão continuamente a ouvir queixumes sobre o envelhecimento da população.


Já agora, que tal alterar os atuais escalões etários? É que, com a atual esperança de vida, que, repito, está sempre a aumentar, chamar idoso a alguém com 60 anos é o mesmo que chamar bebés a jovens de até 25 anos...


Perante tudo isto, não acham que é mais do que altura de repensar totalmente o sistema de reformas? Mais ainda, o próprio conceito básico que lhe está subjacente? É que, atendendo à enorme melhoria no estado físico e mental com que muitos chegam agora aos tais 66 anos – outro  fator importantíssimo e não levado em conta por quem quer manter a situação atual – porquê parar de trabalhar? Que tal deixar isso ao critério de cada um, passando a idade da reforma a ser, apenas, uma altura a partir da qual se podia deixar de o fazer?


Mais ainda, porque não criar ocupações, pagas ou voluntárias, para quem já está reformado? Com ou sem aprendizagem, dependendo da pessoa e do serviço em questão. É que com os atuais 182 idosos por cada 100 jovens, alguma coisa vai ter de ceder. E não faltam tarefas que vão ficando para trás porque “não há pessoal suficiente”.


Um exemplo? A triagem nas Urgências, que podia muito bem ser feita por médicos já reformados que fossem fazer ali umas horitas, libertando os colegas no ativo para o atendimento. Ou o apoio a alunos com dificuldades em certas cadeiras, que podia ser dado por professores reformados na própria escola.


Recordo, também, que a ideia de reforma aplicável a todos é bastante recente no nosso país, até aos anos 70 só abrangia funcionários públicos, o resto da população lá ia trabalhando enquanto podia, muitas vezes com um esforço enorme, a menos que tivesse bons rendimentos ou alguém que os sustentasse. E ainda agora, em zonas rurais muitos “jovens” de 70 ou mais trabalham na agricultura, pelo menos na de subsistência. Curioso, não têm reforma  (só a monetária...).


Repito, para mim, o mais importante não é a parte económica. É, isso sim, o tremendo desperdício que representa pôr inativa uma fatia cada vez maior da nossa população apenas porque atingiu uma idade que já há muito deixou de fazer sentido.


É que assim como se exige que os salários sejam ajustados de acordo com a inflação, que tal fazer o mesmo à idade da reforma face à “inflação” galopante da esperança de vida?


Como sou uma otimista nata, ainda não perdi a esperança de um dia ver manifestações a exigir exatamente o contrário dos protestos com que iniciei este post. Pois...


Para a semana: Exercício no inverno. Quando só apetece estar no quente...

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