Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

146 - Relaxar é preciso

Muitos associam o período pós-reforma a um relaxe total. E se relaxar fosse sinónimo de tempo totalmente livre, bom, então até teriam razão. Só que não ter ocupações fixas à medida que vamos para novos não significa que não se tenha stress, muito pelo contrário. Há quem o tenha, até, em maior grau do que quando pertencia ao chamado setor ativo da população. Parece paradoxal? Se pensarmos um bocadinho, vemos que até nem o é.


As preocupações financeiras, por exemplo. Fala-se muito nos problemas dos jovens em arranjarem emprego, casa, etc., ou nas dificuldades que muitos casais passam para equilibrar as contas. Só que, quando se é mais novo, é mais fácil acreditar que as coisas irão melhorar. Após a reforma, bom, o seu valor pouco ou nada aumenta para muitos portugueses, mas o custo de vida sobe e de que maneira. Pior ainda, a menos que se tente arranjar um emprego nem que seja a tempo parcial, sabemos que a situação só irá pior.


Há ainda a saúde. Mesmo que não haja problemas de momento, à medida que os anos pesam cresce a preocupação com o que poderá acontecer, física ou, em muitos casos, mentalmente. Sem esquecer o espetro sempre presente do que irá ser quando já não pudermos viver em segurança na nossa própria casa.


Perante tudo isto – e só abordei as coisas pela rama – penso que não restam dúvidas de que relaxar é mesmo uma necessidade para quem vai para novo, sobretudo porque, com raras exceções, poucos aprenderam a fazê-lo em mais jovens.


A triste notícia é que não há uma técnica infalível para relaxar, cada caso é um caso. Ou seja, vá experimentando até encontrar uma que resulte consigo. Mais ainda, o que funciona numa altura pode não funcionar noutra. Por exemplo, há pessoas que se sentem mais stressadas quando o tempo está mau e o que fazem habitualmente não resulta nessas ocasiões.


Já agora, quando digo “experimente” não me refiro a tentar uma vez e, caso não der resultado – e aqui para nós, raras vezes dá à primeira – passar logo a outra técnica. Não, dê-lhe algum tempo antes de mudar. Mais ainda, vá fazendo adaptações de acordo com o seu feitio e gostos pessoais.


Vamos, então, a algumas técnicas de relaxe. Pequeno detalhe, não irei falar de coisas consagradas como ioga ou meditação, uma vez que podem ser intimidantes para quem nunca as praticou – isso não quer dizer, claro, que não se inicie nelas, poderá, até, descobrir que são bem mais fáceis do que pensava e que resultam lindamente consigo.


Relaxe físico. Digo sempre que em termos de relaxe físico temos muito a aprender com os gatos. E quem já viu as posições em que muitos dormem concorda certamente comigo. Não temos a mesma constituição física, claro, mas há algumas coisas que podemos tentar.


Por exemplo, ao levantarmo-nos ou ao deitarmo-nos esticar os membros e não só, basicamente, espreguiçar-nos. Depois, deitados de costas e de pernas e braços ligeiramente afastados, tentar relaxar os vários músculos, um a um. Já agora, este é um exercício atualmente muito popular. Limpe a mente o mais possível enquanto o faz, ou seja, deixe de lado as coisas que o preocupem e não pense, também, que tem de se levantar (ou dormir) daí a nada.


Relaxe mental. Pode conjugá-lo com o anterior ou fazê-lo separadamente, o que melhor resultar consigo. O ideal seria praticá-lo mais ou menos à mesma hora, tornar-se-ia uma rotina e, mais ainda, verá que ao fim de algum tempo ansiará, até, por essa fatia do seu dia.


E apesar de não ser meditação, assemelha-se-lhe de certo modo. Basicamente, arranje um cantinho da sua casa onde o possa praticar, nada de especial, basta um cadeirão / cadeira confortável, um apoio para os pés, enfim, o necessário para se poder sentar um bocado sem incómodo. Para ajudar a relaxar a mente, use música, mas dê preferência a sons da natureza, por exemplo, não faltam gravações à venda ou na internet. E luz suave, claro.


Se gosta desse tipo de coisas – ou se nunca experimentou, faça-o... – acenda velas perfumadas, use um difusor de óleos essenciais, queime incenso, enfim, envolva mais um dos seus sentidos. Escolha, claro, um aroma do seu agrado, mas dê preferência aos que são tradicionalmente associados a relaxe, como alfazema, por exemplo.


E pode também usar este período para beber um chazinho relaxante, quente ou frio, vá experimentando. A ideia é passar algum tempo sem pensar em nada, focando-se nos sons, cheiros e sabores que a rodeiam. Poderá custar um pouco ao início, mas persevere, verá que resulta para muitos.


Atividade. Pode parecer contraditório, fazer uma atividade para relaxar, mas depende da pessoa. Há quem relaxe jardinando, por exemplo. Ou fazendo bolos ou pão. Ou pintando. Ou mil e outras coisas diversas. E se quer saber se é o seu caso, em vez de começar a experimentar à toa pense um pouco: em que ocasiões se sente mais descontraída? O que a faz sentir-se bem, mesmo em alturas de grande ansiedade? Uma vez descoberto o “truque” que resulta consigo, aplique-o conscientemente quando se sente mais stressada ou regularmente.


Há, também, quem relaxe dando um passeio a pé, andando sem destino, ou passando alguns momentos na natureza, seja um parque, um jardim ou algo similar. Como disse, cada caso é um caso, mais ainda, porque não ir variando e tentando coisas diferentes?


Opostos. Finalmente, algo bem diferente e que se baseia em relaxar num ambiente oposto ao que a rodeia usualmente. Por exemplo, se vive no meio de muita gente e muita confusão, tente arranjar um período calmo só para si, nem que tenha de ser antes de todos se levantarem ou depois de se deitarem. Se, pelo contrário, está sempre em casa sozinha e sem fazer grande coisa, um período de atividade, e de convívio pode ser muito relaxante, à semelhança do conto de Saki “A cura do desassossego”, que encontra aqui numa versão do Brasil (uma opção extrema, mas a ideia básica tem mérito).


Resumindo, relaxar é bem mais do que ficar sem fazer nada, exige, isso sim, um esforço consciente da nossa parte. Mas a recompensa vale bem a pena.


Para a semana: Preparar o ir para novo. Se queremos ser a nova geração de “avós”, quanto mais cedo começarmos melhor será.

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