Ir para novo

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09 - O tempo não é sempre o mesmo

Com tantos relógios extremamente precisos incluídos em tudo e mais alguma coisa seria de pensar que o tempo é algo que flui “mansamente” e sempre do mesmo modo. E em termos estritamente físicos, até é verdade. O problema é que o ser humano não é uma máquina e para ele esse conceito torna-se um pouco – bastante – mais complicado.


Basicamente, considera-se que há dois tipos básicos de tempo, o objetivo e o subjetivo. E ambos têm implicações no nosso bem-estar quando “vamos para novos” – e não só!


Comecemos pelo tempo objetivo que é, como o nome indica, uma grandeza física que pode ser medida.


Durante milhares de anos, o tempo objetivo era um conceito vago, sem grande precisão uma vez que os instrumentos que a mediam também não a tinham. Mas com a sua melhoria, fomo-nos tornando cada vez mais “escravos” de todo o tipo de horários. Pode-se até dizer que toda a nossa vida está espartilhada por horas de trabalho, horários de transportes, etc. Até os nossos períodos de lazer têm, com demasiada frequência, horários rígidos.


E isso torna-se um enorme problema para quem se reforma. Subitamente, aquele dia totalmente dividido em períodos rígidos para tudo e mais alguma coisa fica vazio. Deixa-se, até, de distinguir claramente os chamados dias úteis dos fins de semana.


Mas não é este o único problema. Um outro fator que afeta muitos dos que “vão para novos” tem a ver com a sua visão do tempo. Mais concretamente, uma frase muito ouvida é, “Não vale a pena, para o tempo que me resta viver...”


Vou exemplificar. Suponhamos que temos um idoso de 65 anos que sempre quis estudar filosofia. Agora que tem o dia todo por sua conta, podia muito bem inscrever-se num curso universitário. Só que não o faz porque, “quando acabar já terei 70!” Pois, só que chegará à mesma a essa idade e sem ter feito “o gostinho ao dedo” estudando ou fazendo algo que sempre desejou.


É que no tempo objetivo está contido o conceito de passado, presente e futuro e, à medida que os anos se vão somando, temos tendência a ver o futuro como uma parcela cada vez mais reduzida da “fita” que é a nossa vida em vez de o vermos, muito simplesmente, como algo que ainda está para vir e de que desconhecemos a duração.


Ou seja, em vez de vivermos em pleno, deixamo-nos apenas “ir na onda” porque o futuro será curto.


Mas como se isto não chegasse, temos também o tempo subjetivo.


Como o próprio nome indica, não é uma grandeza física nem é suscetível de medição. O exemplo clássico é a passagem de 5 minutos para uma pessoa que cai à água e não sabe nadar – parece uma eternidade – e para alguém que está num café tomar uma cerveja.


Mais ainda, já todos nós constatámos que quando nos estamos a divertir o tempo parece que passa a correr. Mas se estamos aborrecidos...


E sabem que mais? Há uma base científica para isso!


Um recente estudo pioneiro da Fundação Champalimaud feito em ratos prova que a dopamina influencia a perceção da passagem do tempo. Se os chamados neurónios dopaminérgicos libertam muita dopamina, subestimamos o tempo que passou – ou seja, achamos que passa mais rapidamente. E vice-versa, claro. Estes níveis não são constantes, por exemplo, algo que nos traz satisfação fá-lo aumentar.


Ora acontece que com o passar dos anos a quantidade de dopamina libertada normalmente no nosso cérebro vai diminuindo, até 50 %. Sendo assim, e caso o estudo Champalimaud seja válido para os humanos, à medida que envelhecemos temos cada vez mais a sensação de que o tempo se arrasta.


Junte-se a isso a falta de horários a cumprir e temos a chamada tempestade perfeita nesta conjugação de tempo objetivo e subjetivo.


O que fazer, então, para evitar o surgimento deste tédio que pode, muito facilmente, converter-se em depressão profunda?


Bom, para começar, evitar a todo o custo uma desocupação total. Sim, não há nada de mal em passar umas semanas “à boa vida” quando nos reformamos, para muitos é a primeira vez que o podem fazer em várias décadas. Mas lá diz o ditado, “o que é demais enjoa” e esta verdade também se aplica aqui.


Convém, pois, criar algumas ocupações rotineiras que podem ser tão simples como estabelecer um horário de limpeza da casa, o chamado passeio higiénico, ler o jornal, etc. O importante é não acordar e ver pela frente uma imensidade de horas sem qualquer ocupação definida – e lembro que devido ao que disse acima sobre a dopamina, esse tempo parece ainda mais longo.


Se possível, tentar fazer coisas diferentes ao fim de semana, para marcar a passagem do tempo – já agora, que tal inventar o próprio fim de semana, terça e quarta, por exemplo? O importante aqui é não ter 7 dias iguais durante 52 longas semanas (e depois mais 52 e mais outras e...).


Ainda mais importante é não pensar na vida como estando no fim. Muito francamente, nenhum de nós sabe quantos anos irá viver e tenho um caso na família em que aos 60 começou com o “não vale a pena, para o que hei de viver”. Pois bem, chegou quase aos 99!


Ou seja, avançar com projetos, com planos, sem ter em conta o tempo que estes levarão. É que o tempo passará à mesma, quer se faça ou não alguma dessas coisas. E não será preferível chegar ao fim de, digamos, 10 anos, e ter vivido em pleno, ter feito algo que nos agradou, em vez de ter apenas “sobrevivido”?


Resumindo: tentar ocupar uma parte do dia com “obrigações” e não desistir de projetos por achar que se é velho demais para os concluir.


Para a semana: Sejamos ativos –  Há cada vez mais atividades viradas para os “não muito novos”, sobretudo nas grandes cidades

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