Sabiam que pouquíssimos animais selvagens envelhecem? Ou seja, que não sofrem, pelo menos durante muito tempo, das mazelas que nos afetam quando envelhecemos?
Bom, antes de se deixarem invadir pela inveja e começarem a planear um “regresso à natureza”, parem um pouco e respondam a esta perguntinha: “Qual é a alternativa a envelhecer?”
Pois, já não soa tão bem, pois não?
Não é que esses animais não tenham a capacidade de envelhecer, se forem domesticados ou postos em zoos ou situações similares envelhecem como todos nós e ficam sujeitos a muitos dos achaques de que sofremos.
Isto leva-nos uma das teorias mais usadas para explicar o envelhecimento, o simples facto de que, quando um animal – sim, incluindo o ser humano – passa a idade ótima para a reprodução, a natureza perde o interesse em manter o processo de reparação do corpo. Ou seja, tendo realizado os vários milagres que nos levam da conceção à idade adulta, ou antes, à capacidade de nos reproduzirmos, a dita natureza torna-se incapaz de manter esses processos para sempre.
Voltando à frase inicial, de que poucos animais selvagens envelhecem, não seria produtivo criar um programa genético que continuasse a manter e a renovar o corpo uma vez passada a idade ideal para o sucesso reprodutivo. Ou seja, a ênfase está em dar ao animal o máximo de estratégias de sobrevivência para que possa sobreviver e reproduzir-se, perpetuando assim a espécie.
De um modo geral, sabemos que quanto pequeno é um animal e mais hostil o ambiente em que vive, maior é a pressa em reproduzir-se antes que lhe aconteça algo fatal. Compare-se a longevidade de um rato com a de um elefante, por exemplo. E temos também o tubarão da Gronelândia que pode viver de 200 a 500 anos, mas só atinge a idade da reprodução aos 140.
Um outro fator que contribui para a popularidade desta teoria entre cientistas é o facto de algumas espécies – algumas nem muito pequenas, como o polvo gigante do Pacífico – morrerem logo após a reprodução. Ou seja, tarefa cumprida, podem “partir”.
Dito isto, temos o processo de envelhecimento em si.
Também aqui há várias teorias e a resposta certa, digamos, deverá ser, muito provavelmente, uma combinação delas.
Há, certamente, uma componente genética, todos sabemos de famílias em que, aparte um acidente, sempre possível, todos tendem a viver até uma idade bem avançada.
Mas, basicamente, tem tudo a ver com erros e degeneração das nossas células. Em 1997, um cientista, Sedivy, estudou um gene que contém a proteína p21, que influencia a subdivisão das células. Ora sempre que esta acontece, existe uma possibilidade de acontecer um erro. E, claro, este será amplificado por erros posteriores na subdivisão da mesma célula.
Paralelamente a isto, o nosso corpo, para funcionar, precisa de inúmeros processos bioquímicos que, como qualquer processo, geram subprodutos que, ao acumularem-se, vão degradando as nossas células e órgãos.
Mas não pretendo escrever um post cheio de coisas científicas, basta dizer que há todo um número de causas biológicas do envelhecimento, infelizmente ainda muito mal compreendidas.
E porque não sabemos mais sobre o assunto?
Bom, para além destas causas biológicas, há também fatores externos, tanto de estilo de vida como ambientais. Ora com a melhoria das condições de vida e, sobretudo, das sanitárias, no Ocidente, temos finalmente uma percentagem grande de população envelhecida que pode ser estudada.
Ou seja, o que eram casos raros e isolados, são agora a norma – recordo o tremendo aumento da esperança média de vida de 60,7 anos em 1970 para 80,7 em 2020, uma subida média de 20 anos!
Daí termos, agora, uma nova ciência, a gerontobiologia ou biologia do envelhecimento, cada vez mais popular.
Mas será que podemos parar o envelhecimento? Bom, infelizmente, não. Até Robert Heinlein, nos vários livros em que surge a família Howard e, sobretudo, Lazarus Long, foi forçado a recorrer a “clínicas de rejuvenescimento” para prolongar durante umas boas décadas a vida dos membros dessa família já de si propensa a uma vida longa – mas com limites para o número de repetições.
O que podemos – e devemos – fazer é prolongar o número de anos de vida ativa e saudável. E para isso não precisamos de coisas esotéricas, para já basta tentar ter uma alimentação saudável, exercício regular, diminuição do stress e outras coisinhas que citei num post anterior – mas tudo sem exageros, que podem, até, ter o efeito contrário.
Ou seja, em vez de uma obsessão por não envelhecer, o resultado seria bem melhor se nos preocupássemos mais com o modo como envelhecemos. É que envelhecer é inevitável – bom, há sempre a alternativa... Mas, com um pequenino esforço, podemos adiar imenso os seus inconvenientes. É que, francamente, não adianta muito viver até aos 100 se passarmos mais de 30 anos em sofrimento e sem o pleno uso do nosso corpo e, sobretudo, da nossa mente.
E lembrem-se, quanto mais cedo começarmos a preparar o “ir para novo” melhor serão os resultados. Mas se, por acaso, já passaram há muito essa fase, não desesperem, está-se sempre a tempo de melhorar a nossa qualidade de vida e o nosso bem-estar físico, psicológico e mental.
Só um pequeno detalhe. Se conseguirem chegar aos 105 anos, a partir daí as regras parecem mudar. A probabilidade de morrermos aumenta com a idade. Por exemplo, ais 50 anos, é o triplo da que era quando tínhamos 30. A partir dos 60, essa probabilidade duplica a cada 8 anos. Chegados aos 100, a probabilidade de atingir os 101 está reduzida a 60 %.
Mas a partir dos 105 anos, esse valor estabiliza. Basicamente, uma pessoa de 106 anos tem a mesma probabilidade de chegar aos 107 que uma de 114 de chegar aos 115. É o chamado planalto de mortalidade, também presente em outros animais (de laboratório) – a ideia é que a partir dessa idade já só sobrevivem os mais fortes...
O que leva a crer que ainda estamos longe de atingir o limite máximo para uma vida humana!
Para a semana: Comer bem vale a pena – Falarei sobretudo do “só para mim não vale a pena” que afeta fortemente sobretudo a população idosa feminina.