Neste post não irei falar em saúde nem em preparação financeira, sim, são fatores importantíssimos mas também os que mais nos vêm à mente quando pensamos em como irá ser a nossa velhice. Bom... não exatamente, a maioria limita-se a um “desde que haja saúde”, sem nada fazer para a manter ou melhorar, e, com muitos a terem agora uma reforma, qualquer outra decisão nessa área, mesmo quando sabem que será um montante pequeno, vai sendo adiada “porque ainda falta muito”.
É claro que falarei também destes assuntos, nem outra coisa seria de esperar. Mas hoje vou dedicar-me a uma faceta a que poucos prestam atenção, a passagem abrupta de trabalhador a reformado.
Já agora, uma pequena nota, este post é mais para quem tem emprego ou para casais em que um dos membros trabalha fora e o outro fica em casa.
No sistema atual, num dia estamos a cumprir o horário laboral completo e no dia seguinte estamos, literalmente, cem por cento desocupados. Ora o ser humano não lida muito bem com estas passagens súbitas dos 0 aos 100.
Se pensarmos um pouco, vemos que a única transição brusca desse género foi a entrada na pré-primária para crianças que tinham estado em casa até aí. A partir dessa idade, há apenas transições entre atividades, por exemplo, do estudo para o trabalho. Mas nada que se aproxime, sequer, desta mudança radical.
Ouvimos muitas pessoas ansiarem pela reforma porque poderão, finalmente, dedicar-se a isto ou àquilo, viajar, pintar, escrever, enfim, um nunca acabar de projetos que têm, infelizmente, todos uma característica em comum: a falta de um plano concreto.
E é por isso que também se veem muitos reformados a entrarem em depressão porque se sentem inúteis ou porque não sabem como ocupar as horas de um dia que subitamente lhes parece longuíssimo e sem nada que o distinga dos anteriores ou dos seguintes.
As mulheres saem-se um pouco melhor, sempre têm a lida doméstica que muitas já faziam em complemento do seu trabalho. Mas, muito francamente, há um limite para o tempo que se consegue dedicar a limpar, cozinhar, etc.
E qual é o grande problema subjacente a tudo isto? A falta de preparação para o lazer.
É muito bonito dizer, em jovem adorava pintar, deixei-me disso por falta de tempo, quando me reformar voltarei a fazê-lo. Hum... Garanto que não irá acontecer. Para começar, perdeu-se o hábito e a destreza, está-se praticamente a começar do zero e isso, que é difícil em qualquer idade, é-o ainda mais quando já estamos a “ir para novos”.
E quem diz pintar diz outras coisas, quer as tenhamos feito em novos ou estejamos à espera para as vir a fazer “um dia”.
E esta também é uma expressão muito usada, “um dia, quando já não trabalhar, farei isto ou aquilo”. Pois é, lamento informar-vos mas ao dizerem isto estão, muito provavelmente, a adiar para o dia de São Nunca algo que pensam que gostariam de fazer mais tarde.
E porque é que digo “pensam que gostariam”? É que a nossa personalidade e interesses vão mudando ao longo dos anos, evoluindo, digamos, e aquilo que adorávamos fazer aos 20 não é necessariamente o que nos agrada aos 60. Se não concordam, pensem no tipo de livros ou de filmes que preferiam em novos e os que preferem agora.
Há ainda uma outra questão. Para muitos, a maior parte das pessoas com quem convivem são os colegas de trabalho. Precisamente por falta de tempo e / ou de disponibilidade, não se criam amizades externas e a própria família é muitas vezes posta um tanto de parte.
O problema é que esses colegas com quem se convive, almoça, etc. não são exatamente amigos, salvo raras exceções, claro. E, chegada a reforma, acaba por se perder totalmente o contacto. Sim, de início ainda pode haver alguns telefonemas, mensagens ou saídas, mas sejamos sinceros: muitas vezes a única coisa que têm em comum é precisamente o trabalho e os restantes colegas (que belas sessõezinhas de “cortar na casaca”!).
Mesmo quando vários se reformam ao mesmo tempo, o que é muito pouco provável, deixam de ter um local comum para se verem. Muitas vezes vivem até em zonas muito afastadas uns dos outros e acabam por sentir que organizar uma saída juntos dá mais trabalho do que vale, precisamente porque no fundo pouco têm em comum.
Se nada do que disse acima se aplica a si, ou seja, se tem passatempos que se limitará a alargar depois da reforma e amigos que nada têm a ver com o seu emprego ou colegas de trabalho com quem tem relações de amizade fora dele, parabéns! É um dos poucos felizardos.
Para os outros, a maioria, que tal irem preparando as coisas para não terem de passar pela tal transição abrupta?
E nem é preciso muito.
Atividades, por exemplo. Sim, temos vidas muito ocupadas e pouquíssimo tempo livre, mas, como se diz, “nem só de trabalho vive o homem”. Nem que seja uma vez por semana, tente dedicar-se a um passatempo. Pode ser algo que fez em novo, por exemplo. Isso terá a vantagem adicional de ver se ainda adora fazê-loou se é altura de experimentar algo novo.
E a ênfase aqui deve estar em “testar as águas”. É que muitos de nós nunca tivemos uma paixão, digamos, que se possa converter primeiro em passatempo e depois em ocupação plena da reforma. Mas não tem de ser assim. Nesta era da Internet e, sobretudo, do YouTube, não faltam coisas que podemos tentar para ver se gostamos. Parecia ótimo, mas afinal não nos diz nada? Tudo bem, passa-se ao seguinte.
E, acreditem, com milhentas coisas por aí, há de certeza alguma a nosso gosto!
Já agora, se é dos que dizem, “quando me reformar passarei a viajar”, não se limite a dizê-lo. Vá fazendo uma lista de sítios que quer visitar, de coisas que gostaria de ver, procure detalhes, pesquise, enfim, prepare viagens “no papel”. É que quando chegar a tal época em que o pode fazer, não partirá do zero e será muito mais fácil vencer a inércia se já tiver alguns planos preparados ou, no mínimo, alinhavados, uma vez que, também aqui, algo que planeou há uns anos pode já não ser tão apelativo ou as circunstâncias podem ter mudado.
Também em relação ao convívio, comece a prepará-lo com antecedência. Tente criar algumas amizades fora do emprego ou, melhor ainda, tente manter ou retomar as que teve em mais novo. Quanto à família, caso não lhe seja chegado, dê uma olhadela periódica aos seus membros, há sempre mudanças no número de pessoas e no que são, tal como as há em si. E alguém que odiava ou desprezava em miúdo ou adolescente poderá ser agora uma pessoa interessante.
Tudo isto é importante para todos, mas sobretudo para os chamados casais “mistos” – um tem emprego, o outro não. É que a passagem ao lazer total de quem passava a maior parte do tempo fora de casa pode ter consequências péssimas para a vida do casal, exigindo adaptações mútuas que nem sempre estão dispostos a fazer – ou nem têm capacidade para tal.
E se já está reformado, nunca é tarde demais para começar a ocupar as muitas horas livres que tem agora.
Resumindo, não se deixe apanhar pela reforma, prepare-a!
Para a semana: Manter ou melhorar a saúde – Agora que se vive mais tempo, é cada vez mais importante fazê-lo em bom estado de saúde.