Este será o último post mais genérico, digamos, dedicado aos idosos, a partir do próximo começarei a lidar com temas, bom, mais “práticos”. Aqui vai.
Durante uma boa parte da história da humanidade, a posição ocupada pelos seus membros bem idosos era bem clara. Com mudanças técnicas e sociais muitíssimo lentas, quando as havia, os mais velhos eram claramente os únicos depositários da sabedoria então vigente e as pessoas a quem recorrer para obter conselhos ou soluções para problemas que não surgiam há já algum tempo.
Não devemos, claro, olhar para esta situação com óculos cor-de-rosa, a vida dos idosos não era nada fácil, pelo menos a dos com menos recursos. É que se esperava que todos contribuíssem para a economia doméstica e um membro incapacitado, qualquer que fosse a idade, tinha um fim, digamos, um tanto ou quanto apressado – pois, não somos pioneiros na eutanásia.
Esta situação manteve-se até meados do século XX, um pouco antes para outros. E ainda há países em que, apesar dos tremendos avanços tecnológicos, ainda vemos este respeito pelas pessoas de mais idade, como o Japão, mas isto deve-se, basicamente, a não terem ainda passado pela enormíssima revolução de costumes como a que se verificou na Europa e Estados Unidos, por exemplo.
Mas não tenhamos ilusões, esse respeito de outrora pelos conhecimentos e sabedoria dos idosos não existia por “bondade”, baseava-se, sim, na realidade, no facto de que para muitos eles eram de facto a única fonte de consulta disponível e também porque o que sabiam se podia aplicar com poucas ou nenhumas alterações ao problema que levara a esse contacto.
Ora a revolução tecnológica posterior aos anos 60 criou um abismo entre gerações. Subitamente, os conhecimentos dos mais velhos deixavam de ser aplicáveis, pior ainda, havia a sensação nítida de que nem entendiam os novos problemas, as novas técnicas. Para agravar ainda mais esta separação, começaram a ser aceites, ou até procurados, comportamentos que eram anátema para eles. Sim, a frase “os meus pais não me entendem” passou mesmo a ser verdade!
Infelizmente, em vez de se tentar ver e trabalhar o que essas duas gerações tinham em comum, a opinião generalizada, bem expressa em livros e filmes, por exemplo – lembrem-se de Rebelde sem Causa – era de que era irremediável e o melhor era seguirem caminhos separados.
Não vale a pena lamentar erros do passado, não há máquinas do tempo, direi apenas que o não conhecimento de uma tecnologia não invalida outros conselhos ou experiências de vida, compete, sim, aos mais novos tentarem tirar ilações que se adaptem à sua vida e a esta sociedade tão moderna.
Lamentavelmente, à indiferença ou má vontade de uns em ouvirem embate em “sermões” e a repetição contínua de “no meu tempo...”, em vez de no relato de histórias de vida que, essas sim, poderiam ser úteis.
O problema agravou-se ainda mais devido ao tão badalado envelhecimento da população. É que temos agora três gerações, todas elas com peso forte na população e que, inevitavelmente, geram três abismos: entre filhos e pais, entre estes e os respetivos pais e entre netos e avós.
É que os mais novos desprezam ainda mais a “sabedoria” e conhecimentos dos seus pais do que estes desprezavam os dos seus.
E em termos puramente de conhecimentos tecnológicos e não só, até têm razão, as alterações dos últimos vinte anos foram tremendas comparadas com as dos vinte anteriores. Mas, mais uma vez, a vida não se resume a coisas práticas e seria bom que as gerações mais novas se lembrassem que as mudanças não param e que, tal como os seus pais e avós se sentem totalmente “à nora” com certos assuntos, eles virão a passar pelo mesmo e se calhar bem mais depressa do que agora imaginam!
É claro que tudo isto de nada vale se não tentarmos arranjar soluções que, no mínimo, reduzam estes abismos a meras frinchas. E muito francamente, a ênfase dada atualmente aos problemas financeiros criados pelo facto de termos passado de um índice de envelhecimento de 27,3 % em 1960 para 182 % em 2021 (ou seja, há 181 idosos para cada 100 jovens) não ajuda nada. Estamos a dar aos jovens a ideia de que os idosos, para além de “ignorantes”, são um peso morto na sociedade e que os impostos que eles pagam, ou irão pagar, servirão apenas para os sustentar.
Como digo em Os velhos não são lixo! (https://luisaopina.blogs.sapo.pt/45-velhos-nao-sao-lixo-23522) do meu outro blogue, Luísa Opina, isto não é nada bom e, acima de tudo, podia ser evitado se olhássemos para a idade da reforma como algo que está totalmente desadequado ao que são muitos idosos atualmente e aos muitos anos que ainda se vive depois da reforma.
Outro aspeto que mudou imenso na posição dos idosos na sociedade é o que se espera deles. Ou seja, nas tais sociedades que citei no início e na nossa até bem recentemente, esperava-se que um idoso – e sobretudo uma idosa – se vestisse com sobriedade, por exemplo. Havia até códigos não escritos que lhes diziam o que podiam ou não usar e, mais importante ainda, o que deviam vestir ou pôr.
Havia também comportamentos esperados. A menos que fossem a única companhia de uma neta ou outra familiar, havia limites a saídas e diversões – falo, claro, de quem tinha mais posses, para os mais pobres a vida continuava na mesma, qualquer que fosse a idade. Os homens tinham, como sempre, mais margem de manobra e ninguém estranhava se andassem na farra e tivessem comportamentos menos próprios.
Curiosamente, com tantas mudanças que tem havido, permanece a ideia subconsciente sobre como uma idosa – sim, isto abrange mais as mulheres – se deve vestir e comportar. Já todos ouvimos a expressão “uma velha gaiteira” para referir uma mulher que gosta de se divertir ou que se veste com roupas “nada adequadas à idade”.
Será tema de outro post, limitar-me-ei a dizer que sempre achei isto bastante hipócrita, por um lado lamentamos a “incapacidade” dos idosos, mas ao mesmo tempo protestamos se eles têm prazer em viver e são ativos.
Será que o que realmente queremos é que os idosos fiquem quietinhos no seu canto, sem perturbarem as nossas vidinhas e sem incomodarem ninguém, para serem trazidos à cena, quando o são, no Natal e ocasiões similares? Não tanto “longe da vista, longe do coração” mas mais “arreda-te da minha vista, estás-me no coração”?
Para a semana: Preparar o “ir para novo” – Algumas medidas que podemos ir tomando enquanto ainda estamos neste percurso (e não só).