Para a maioria de quem está nesta inevitável jornada de “ir para a novo” a sua grande preocupação é a deterioração física e não a mental, até porque esta começa normalmente muito mais tarde.
E por deterioração física não me refiro a falta de força, à impossibilidade de fazer coisas que antes eram facílimas, aos pequenos achaques que surgem sem que se saibam bem porquê, enfim, a um sem número de sinais de que o nosso corpo está a abrandar.
Não, refiro-me pura e simplesmente ao aspeto visual, tanto da cara como do corpo. Ao fim e ao cabo, é de facto a primeira coisa que muda marcadamente, nalguns mais do que noutros.
Até há uns anos, esta era quase exclusivamente uma preocupação feminina mas, atualmente, há cada vez mais homens preocupados com o seu aspeto. E isso é bom mas também é mau. É bom porque é sinal de que se veem como pessoas inseridas numa sociedade e que têm, digamos, a “obrigação” de cuidar de si para se apresentarem o melhor possível. E mau pelas razões que exponho a seguir e que abrangem todos.
Como todos sabemos, o aspeto que temos aos vinte não é o mesmo dos quarenta nem este o dos sessenta. É uma progressão natural, tal como o foi durante a infância e adolescência. Infelizmente, não é sentida assim por muitos, em vez de evolução veem muito simplesmente decadência.
E abre-se aqui uma nova dicotomia entre quem vai para novo e os que o rodeiam. Esse “idoso”, quando se observa, vê apenas que já não é fisicamente a pessoa que era e, pior ainda, não vê o que é realmente agora. Mas se falarmos com os que o rodeiam, os comentários centram-se quase sempre na sua acuidade mental, por exemplo, “ainda está esperto como tudo” ou “lembra-se de tudo”.
Ora esta atitude de ver só o passado é altamente nociva. Sim, já não é a carinha laroca dos vinte anos nem o corpinho jeitoso dessa época, mas quem diz que é pior?
Vou dar-vos um exemplo. Lembram-se da Angela Lansbury, a atriz da série Crime, disse ela? Olhando-a, vemos uma mulher interessante, cheia de personalidade. Sim, já tem alguma idade e não a esconde, mas tem qualquer coisa de muito apelativo – como o disse, montes de personalidade. Agora tentem encontrar uma foto dela do filme Sansão e Dalila (esta, por exemplo: https://www.pinterest.pt/pin/143200463126435929/). Sim, é bonitinha, mas igual a tantas outras da mesma época. E, aqui para nós, sempre a achei um pouco “pãozinho sem sal” para o papel de Dalila. Pois bem, a idade melhorou-a e de que maneira! Ou, um exemplo mais caseiro, procurem fotos da Eunice Muñoz ao longo da sua carreira.
Ora é isso que eu acho que devíamos incentivar quem vai para novo a fazer. Deixem de lado o que foram, pensem, isso sim, no que são agora. Também já foram bebés, querem voltar a ter esse aspeto? Ou adolescentes mais ou menos desengonçadas?
Para além de prejudicial sob o ponto de vista psicológico, há, também, muito frequentemente um outro problema associado a esta obsessão pelo passado. Como já não são o que foram outrora, caem no extremo oposto, pensam “não vale a pena” e deixam-se ir completamente, deixam de cuidar de si, entrando num círculo vicioso: quanto menos se cuidam, pior o aspeto e quanto pior o visual, menos se cuidam.
Felizmente, talvez por razões económicas, a cirurgia plástica ainda não é muito usada para “manter a juventude”. Deve haver casos de êxito – não em repor o aspeto antigo, entenda-se, mas em criar um visual atraente – mas, infelizmente, a norma é um resultado que não deixa dúvidas de que houve uma plástica ou, pior ainda, uma autêntica catástrofe. Veja-se o que aconteceu a Meg Ryan na busca pela juventude eterna (https://www.pinterest.pt/pin/143200463126435929/).
Pois, precisamos é de começar a acreditar que cada idade tem a sua própria beleza. Sim, é um cliché, mas como disse alguém, os clichés só existem porque são verdade em muitos casos.
Em vez de chorarmos a juventude perdida, que tal tentarmos otimizar o que somos agora? É que, como demonstrou fisicamente Stephen Hawkins, a seta do tempo tem apenas uma direção, do passado para o futuro. Mas quem disse que o passado é a melhor parte?
A idade traz-nos conhecimentos, experiência da vida, todo um saber viver que a “brasa” (ou o “brasa”) de vinte e tal anos não tinham. Isso permite-nos apreciar coisas de outro modo. Veja-se o que acontece com os livros. Se relerem um de que gostaram quando eram novos, descobrem-lhe outros sentidos, outros prazeres. E se daqui a uns anos o voltarem a reler, pois bem, será mais uma vez quase um novo livro.
Ora a vida também devia ser assim, apreciada com o que somos e não com o que fomos.
Há ainda a ideia de que cuidar do visual é uma vaidade que pertence aos novos e de que, com o passar dos anos, devíamos deixar de pensar no físico e concentrarmo-nos apenas no espiritual e / ou intelectual. Ora isso sempre me fez confusão, é que a decadência física não traz, só por si, milagrosamente, maior acuidade intelectual ou mais espiritualidade. Como em muitas outras coisas, a virtude está no equilíbrio.
Ou seja, não tentam reproduzir à força uma imagem física que desapareceu para sempre, tentem sim criar agora, neste momento, o vosso melhor visual.
E, acreditem, esta mudança de enfoque, do passado para o presente e futuro, acarretará inúmeras benesses em muitas áreas da vossa vida. Esqueçam pois as plásticas, as dietas loucas para voltar ao corpinho de outrora, o cabelo a tapar a careca (não tapa...), enfim, todas essas muletas. Tentem, isso sim, aproveitar ao máximo o que têm e o que são, com a ajuda de esteticistas ou outros especialistas, se for preciso, mas sem loucuras à Meg Ryan e a muitas outras (procurem “botched plastic surgeries” no Google e é de chorar e arrepelar cabelos).
Para a semana: Como a sociedade vê os idosos – O papel dos idosos tem mudado muito ao longo dos séculos e está outra vez a mudar. Compete-nos garantir que muda para melhor.