Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

212 - É bom ser longevo

Pôr de parte ideias e estereótipos que já nada têm a ver com os novos longevos.

Não é a primeira vez que falo deste assunto, fi-lo em É tão bom já não ser novo em que indiquei uma série de vantagens que surgem à medida que avançamos na vida. Aliás, a ideia subjacente a este blogue, para além de dar indicações mais práticas para quem vai para novo, é tentar alterar a ideia ainda muito prevalecente de que envelhecer é uma tragédia e que devemos fazer tudo para nos mantermos novos – bom, na realidade, o que querem dizer é manter um aspeto mais novo, como o provam os milhentos produtos de beleza no mercado.

Como também já tenho referido, muita coisa mudou nos últimos anos, mas continua a olhar-se para esse processo tão natural, envelhecer, como se ainda estivesse tudo na mesma. Aliás, muitas das atitudes atuais vêm de há bem mais tempo, quando ter 50 anos era praticamente uma exceção e, graças às condições duríssimas da vida de então, envelhecia-se, no sentido biológico, numa idade extremamente precoce.

Basicamente, temos dois modos de encarar o nosso envelhecimento: pela negativa ou pela positiva. Mas tendo sempre em mente de que irá acontecer, quer queiramos, quer não – bom, há sempre a alternativa... Quem me costuma ler sabe, certamente, que não sou fã da primeira opção, a negativa, falemos, pois, um pouco mais da outra.

Uma das grandes vantagens de ser longevo é deixarmos de ter determinadas obrigações, como o emprego. É claro que em muitos casos isto pode implicar uma forte descida no rendimento devido ao fraco valor da reforma auferida, sobretudo no nosso país onde até há uns anos nem todos podiam descontar para uma. Mas, de um modo geral, larga-se o emprego, mesmo que não se queira.

Isto pode ser visto de dois modos: como sinal de que passámos a ser inúteis para a sociedade ou como uma oportunidade. Já falei várias vezes do primeiro, vou focar-me, agora, no segundo.

Sim, a reforma pode ser vista como uma oportunidade sob vários pontos de vista. Por exemplo, a hipótese de ter, finalmente, algum lazer e deixar para trás horas fixas de acordar, ter de sair mesmo com tempo mau, engarrafamentos a caminho do trabalho, tarefas aborrecidas que só se faziam porque a alternativa era o desemprego, enfim, passar a ter as famosas “sopas e pantufas”.

Mas pode ser também uma boa ocasião para mudarmos de profissão ou para nos dedicarmos a sério a um passatempo para que nunca havia tempo. Ou seja, trocar uma obrigação por algo que nos dá prazer. Já agora, se gostava mesmo do que fazia profissionalmente, porque não avaliar modos de o continuar a fazer de um modo mais calmo? Como voluntário, por exemplo.

No post acima citado falei na vantagem de termos assistido a muitos eventos importantes, em vez de apenas os conhecermos através de livros (ou da TV). Mas há outra. Não sei se repararam mas há uma certa tendência para achar que, se uma pessoa estava viva aquando de um acontecimento antigo, o que diz sobre ele deve ser escutado. Ou seja, os longevos, e apenas porque o são, passam a ser vistos como autoridades sobre a sua época!

Passemos, agora, à parte física. Como muitos longevos bem sabem, acima de uma certa idade passamos a ser praticamente invisíveis para as pessoas com quem nos cruzamos. Mais uma vez, isto pode ser visto pela negativa, mas que tal apreciar as vantagens? Já referi que podemos passar a escolher roupa e calçado tendo em conta, apenas, o nosso conforto e não o que se usa, por muito absurdo que seja. Mas podemos aplicar a mesma ideia à nossa forma física.

Ou seja, em vez de fazer exercício porque vem aí o verão, que horror, tenho de melhorar o meu aspeto para o fato de banho, podemos ter atividade física que beneficie o nosso bem-estar e mobilidade, sem pressas, sem prazos. Mais ainda, estamos à vontade para escolher o que mais nos agrada e não aquilo que irá produzir resultados mais rapidamente.

Mesmo algumas incapacidades podem ser vistas de um modo menos negativo. A perda da audição, por exemplo. Sim, deixamos de ouvir como deve ser música ou programas de TV, mas escapamos também a muitas conversas de chacha. E não só. Em reuniões familiares, por exemplo, em que há sempre quem remoa pela milésima vez quezílias e ofensas antigas, ter alguns problemas auditivos é, definitivamente, uma bênção!

Já agora, pode conseguir o mesmo resultado mesmo que ouça bem, basta recusar-se a participar em conversas que não lhe interessam. Num não longevo, isso é visto como falta de educação, “peneiras”, etc. Mas num longevo, bom, há sempre o grande argumento do “é da idade”, sobretudo se insistir na tecla do “já não tenho paciência para isto” – o equivalente da célebre frase dos Filmes Arma Mortífera, “estou demasiado velho para esta...”.

E, acredite, se aproveitar ao máximo para seu benefício a ideia generalizada de que “os velhos não contam”, verá que tem muito menos stress na sua vida e que deixa de desperdiçar horas com conversas, atividades ou pessoas que não lhe interessam e que só mantinha para “encaixar” ou porque pareceria mal se não o fizesse.

O cerne disto tudo é que, sendo longevos, temos o direito de pensar mais em nós, no que nos dá conforto ou agrada ou, no mínimo, não nos desagrada. Ou seja, transformar em algo positivo a nosso favor as atitudes negativas da sociedade em relação a quem está acima de uma certa idade.

Por exemplo, a ideia de que os longevos estão totalmente desatualizados e nada sabem sobre muitas coisas. Em vez de tentar contrariar isso, tarefa quase impossível, recoste-se e limite-se a escutar sem reagir. Acredite, assistirá, inúmeras vezes, a um autêntico festival de disparates ditos precisamente pelos “génios” que têm essa opinião, alguns deles engraçadíssimos para quem sabe, de facto, do assunto.

Resumindo, pegue nos limões do idadismo da nossa sociedade e faça uma bela limonada para seu deleite.

Para a semana: Voltemos à saúde. Alguns sinais a que estar atento e cuidados preventivos para se viver melhor

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