Ir para novo

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210 - Longevidade a dois

Nem sempre é fácil o convívio a dois à medida que se vai para novo.

Um dos vários problemas pouco mencionados quando se fala do celebérrimo envelhecimento da população portuguesa é a questão da longevidade a dois. Ou seja, há cada vez mais casais, no sentido lato do termo, em que ambos são longevos – e não por um ou dois anos, mas por cada vez mais.

Relembro que em 1960 a esperança de vida dos homens era de 60,7 anos e a das mulheres de 66,4 (valores que passaram, em 2020, para 77,7 e 83,4). Mais ainda, era bastante usual o marido ser mais velho do que a esposa, às vezes até com uma boa diferença de idades entre eles. Ou seja, havia poucos casais com ambos acima dos 65 anos e mesmo estes sabiam que o mais provável é que essa situação não durasse muito.

Olhando para os valores acima, vemos, também, que muitos homens nem chegavam à idade da reforma – quando a tinham, claro, lembremo-nos que não existia para todas as profissões / ocupações – não havendo, pois, muitos casos em que o marido passava a ficar em casa sem ocupação certa depois de uma vida inteira a sair para ir trabalhar.

As coisas mudaram imenso, entretanto, mas, numa sociedade em que há artigos e estudos de tudo e mais alguma coisa, não se tem dedicado muita atenção à questão da longevidade partilhada. E pode, de facto, ser um problema, sobretudo porque, como muitas outras áreas da vida pós-reforma, não foi pesada e preparada.

A questão começa bem antes da passagem ao “lazer”. Se pensarmos bem, vemos que muitos casais se vão afastando com o passar dos anos e a chegada dos filhos. Há menos tempo disponível para serem só os dois e, em muitos casos, não veem necessidade de o terem – isto apesar de filmes, livros e TV falarem muito da chamada “noite de namoro” para quem já passou essa fase, indispensável, dizem, para manter a chama acesa.

E as pessoas vão mudando com a passagem dos anos, por muito que se pretenda ter uma visão estática sobre quem somos. Os gostos mudam, às vezes radicalmente, certos aspetos do nosso feitio atenuam-se ou acentuam-se, enfim, aos 40 já não somos quem éramos aos 20 e aos 60 ou mais seremos bem mais diferentes.

Tudo isto é normalíssimo, claro, o anormal seria se não mudássemos. Mas... sim, há sempre um mas, as pessoas não mudam do mesmo modo. Por exemplo, num casal jovem que adorava sair, divertir-se e ter aventuras aos 20 ou 30 anos, aos 40 ela pode ter-se tornado bastante sedentária, sobretudo se tem filhos, e ele preferir outro tipo de diversões.

Mais uma vez, tudo isto é normal, só se torna problemático quando não há comunicação suficiente entre o casal e nem dão pelo facto de estarem a tomar caminhos diferentes na vida. É claro que as coisas se agravam quando deixa de haver o escape do emprego, para um deles ou, pior ainda, para ambos. De repente veem-se a passar o dia inteiro – ou, pelo menos, uma boa parte dele – com uma pessoa que, descobrem com surpresa, lhes é estranha.

Só não há mais divórcios / separações em casais longevos porque os seus componentes temem ficar sós e acham preferível manter a situação em que se encontram, por muito pouco boa que seja. E se surgem doenças, num deles ou em ambos, isso pode aumentar imenso a sensação de estranheza e de desconexão em que vivem.

É óbvio que o ideal para nos precavermos deste afastamento no casal é tentar evitá-lo ou, pelo menos, saná-lo o mais depressa possível. Isso passa por termos consciência da nossa evolução como pessoas, para além de estarmos atentos ao que se passa com o nosso parceiro.

Atenção, falei em “evolução”, tentar continuar a fazer as mesmas coisas e do mesmo modo durante toda a vida raramente resulta. Por exemplo, lá porque adorávamos acampar nos primeiros anos juntos isso não significa que o façamos para sempre – a menos que seja uma decisão deliberada, claro.

Basicamente, a ideia é encontrar coisas novas que gostemos de fazer juntos, sem temer ter de experimentar uma dúzia ou mais até acertarmos numa. Já fiz vários posts sobre preparar a reforma, uma vez que passarmos a dispor de todo o tempo para nós quando deixamos de trabalhar pode ser avassalador – sobretudo para os homens que, como tenho dito várias vezes, ainda veem no seu emprego a sua identidade.

Outra coisa muito importante e frequentemente descurada é passar algum tempo separados. Ou seja, o oposto do que se passava durante a chamada vida ativa em que o mais difícil era encontrar tempo a sós. É importante fazerem coisas juntos, mas é igualmente crucial arranjar um período para fazermos algo que nos agrada – ou que pensamos que nos vai agradar – e que não é bem a onda do outro elemento do casal. Passar 24 horas por dia juntos não é uma solução sustentável a médio ou longo prazo, a menos, claro, que seja por motivos de saúde – e mesmo nestes casos é importante ter umas folgas.

Acima de tudo, devemos tentar evitar uma situação, infelizmente bastante comum, em que duas pessoas partilham uma casa, passam o dia quase todo juntas e mal trocam uma palavra, ou seja, têm vidas totalmente paralelas dentro de um mesmo espaço – e para quem esqueceu a geometria, lembro que são linhas que não têm nenhum ponto em comum e nunca se encontram...

Como disse acima, o ideal é preparar a longevidade a dois muito antes de se ser longevo, comunicando, arranjando interesses e atividades comuns. Mas se não é esse o seu caso, faça um esforço agora. Pode encontrar uma barreira na outra pessoa, mas se alguém não der o primeiro passo esta nunca será quebrada.

Acima de tudo, não deixe que essa sua relação se torne tóxica – ou seja, não faz as coisas de que gosta porque o seu parceiro não as quer fazer e fica a remoer as suas queixas em vez de agir. Recordo o que disse num dos primeiros posts deste blogue, o tempo passa à mesma, quer façamos ou não coisas, por isso, aja, não fique parado à espera de que tudo mude por milagre.

Para a semana: Sejamos práticos. Algumas dicas, algumas revistas, para nos facilitar a vida ao ir para novo

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