A inspiração vem muitas vezes de onde menos se espera e o post desta semana é um bom exemplo disso. Por incrível que parece, a fonte é uma série da natureza em quatro episódios com que tive contacto por razões profissionais, intitulada "The Savannah: Wild Happiness (A Savana: Felicidade Selvagem)" – os títulos destas séries ficam muitas vezes em inglês e esta tradução aqui é minha, pode, pois, vir a ter um outro nome em português.
A ideia básica da dita série é que a felicidade dos animais da savana africana, uma zona bastante inóspita, tanto para presas como para predadores, assenta em quatro pilares: viver com paixão, viver sem medo, viver com amor e viver no presente. Cada episódio é dedicado a um destes pilares, através de várias histórias interessantes e de imagens belíssimas.
Ao ler isto, achei de imediato que esta noção se adapta perfeitamente aos humanos, a todos, claro, mas especialmente aos longevos, que têm uma certa tendência, uns mais do que outros, a verem o copo meio vazio – ou, até, totalmente vazio e desde há muito tempo. Irei tratar destes quatro pilares em dois posts separados, dois em cada um deles.
E à semelhança da série, começarei pelo primeiro, viver com paixão.
Aqui, a palavra “paixão” não se refere, necessariamente, a vida amorosa, a viver uma grande paixão – bom, se tiver uma na sua vida, tanto melhor. Não, a ideia é fazermos com paixão as mil e uma coisas que temos de fazer na nossa vida diária ou, pelo menos, algumas delas.
Bem sei que é mais fácil dizê-lo do que fazê-lo e que, se temos uma vida rotineira, como a maioria de nós, é capaz de ser bastante difícil despertar algum interesse, muito menos paixão, pelo que fazemos. Vem logo a ideia de que isso exigiria uma mudança radical de vida, algo francamente impossível para quase todos.
Pior ainda, ao fim de algum tempo, pouco ou muito consoante as novas circunstâncias, cairíamos de novo na rotina, no fazer as coisas sem pensar nelas, apenas porque têm de ser feitas, enfim, para falar bom português, “por frete”.
Não, se queremos injetar paixão na nossa vida temos é de mudar o modo como vemos as coisas, ou seja, a nossa atitude perante elas. Em vez de suspirar, revirar os olhos, resmungar ou algo similar quando tem de fazer a mesma tarefa pela milionésima vez, experimente enfrentá-la com toda a sua energia e sim, paixão. Seria, claro, muito mais fácil viver com paixão se tivéssemos uma vida cheia de acontecimentos emocionantes. Mas, aqui para nós que ninguém nos ouve, quais são as probabilidades de isso acontecer?
E lembre-se, há coisas que têm de ser feitas à mesma, quer gostemos quer não, mais vale, pois, fazê-las com paixão.
Passemos ao segundo pilar, viver sem medo.
Sei que já falei várias vezes em cuidados a ter em casa e fora dela para evitar quedas e outros problemas, fraudes de diversos tipos e até botões de pânico e similares. Mas a ideia por detrás de tudo isso é tomar precauções para evitar certos problemas, algo bem diferente de viver com medo.
Bem sei que a nossa sociedade está cada vez mais violenta – e não, não se trata de uma mera perceção – e que os que vão para novos são muitas vezes as vítimas de eleição, mesmo por parte de quem devia cuidar deles. Vejam-se os casos crescentes de violência cometida por familiares, lares que são autênticas câmaras de tortura, infelizmente não faltam exemplos.
Mas a questão aqui é não viver tolhido pelo medo do que pode acontecer, seja uma doença ou outra coisa. Curiosamente, o medo é uma emoção muito útil para a nossa sobrevivência como espécie, impele-nos a reagir perante situações de perigo, o célebre “lutar ou fugir”. Infelizmente, quanto mais civilizada é uma sociedade maior tendência há para que instintos básicos se convertam num obstáculo.
Todos conhecemos pessoas, não necessariamente hipocondríacas, que vivem obcecadas com o menor sintoma que têm, real ou ampliado pelos seus temores, imaginando serem vítimas de todo o tipo de doenças. Quantos não gozam de alguns prazeres porque “isso faz mal”. É claro, que faz, se for em excesso ou se já tivermos algum problema. E quando ouço isso, lembro-me sempre da Jackie Onassis, que passou a vida a comer saladas sem tempero e peixe grelhado para se manter saudável, apesar de adorar doces e petiscos, e acabou por morrer em meses de cancro no pâncreas.
Ou as que nunca saem de casa ou fazem-no só quando não arranjam alternativa porque temem ser roubadas ou atacadas. Ou as que não fazem certas coisas, não iniciam uma atividade, não mudam a sua vida na direção que sempre quiseram, porque “pode correr mal”. E sim, pode, daí ser necessário analisar devidamente as situações, tomar as precauções possíveis... mas depois, é hora de agir!
Há uma frase do livro Duna de Frank Herbert que se tornou muito famosa, “Fear is the mind killer”, que costuma ser traduzida como “O medo é o assassino da mente” mas também “O medo destrói a mente”. O seu significado nesta obra é que o medo altera a nossa capacidade de raciocinar e de tomar decisões adequadas, dentro do contexto de guerra desse universo. Mas aplica-se também a quem não vive nas condições extremas desse planeta.
Ou seja, não deixe que o medo o paralise e se interponha entre si e coisas que lhe podiam dar algum prazer, alguma felicidade. Basicamente, que o force a uma meia vida ou menos ainda para evitar problemas que, muito provavelmente, nem aconteceriam.
Para a semana: Pilares da felicidade 2. Os últimos dois pilares, viver com amor e viver no presente