Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

80 - Chocante!

Falemos de ajudas e similares...

Sempre me incomodou a preocupação seletiva da nossa sociedade, muito em particular dos seus setores mais “iluminados”. Passo a explicar.

Vemos, todos os anos, bandos de jovens irem alegremente para África ou outro local similar construir casas para a população, coitadinha, ou abrir poços, enfim, ajudar. Curiosamente, nunca ocorre a essas boas almas – e, atenção, são mesmo boas pessoas e querem realmente ajudar – fazer o mesmo no nosso país. Há necessidades lá fora? É claro que há. Mas devem-se, muitas vezes, à inércia de quem lá vive.

Há uns tempos vi um documentário precisamente sobre um grupo jovem – não português – que fora ajudar uma aldeia algures em África que precisava imenso de um poço. Pensei, claro, que era um daqueles casos em que a água estava a grande profundidade e era precisa maquinaria e material ocidental, digamos, para construir o poço. Pois... Qual não foi o meu espanto ao ver que, afinal, a água estava quase à superfície e que com umas simples pás e material local fizeram rapidamente a tão desejada fonte de abastecimento de água...

Ao contrário de cenas destas, que são basicamente a norma, há muitas casas de idosos país fora, sobretudo em zonas rurais, a precisarem urgentemente de obras que eles são incapazes de fazer, devido à idade. E, mesmo que as pudessem pagar, boa sorte em arranjar alguém! Não seria bom esses jovens tão beneméritos dedicarem uns dias ao bem-estar desses cidadãos do seu próprio país?

Muito francamente, acho chocante andar a ajudar quem tem bom corpo para trabalhar e nada fazer por quem precisa realmente de ajuda.

Mudando de assunto, já muito se falou das gémeas brasileiras – perdão, portuguesas aceleradas. Sei, também, que quem tem alguém nessas circunstâncias quer que se faça tudo e mais alguma coisa pelo seu ente querido. E num mundo ideal, seria possível fazê-lo e manter, ao mesmo tempo, um bom nível de cuidados médicos para toda a população.

Só que a realidade é outra, como bem sabemos. Tive, durante anos, familiares idosos a meu cargo e vi como cada vez mais medicamentos que lhes eram receitados iam perdendo a comparticipação. Felizmente podia pagá-los a totalidade, mas vi muitos idosos a não aviarem a receita toda porque a pensão não chegava. E muitas vezes nem levavam os medicamentos mais necessários por serem demasiado caros. Excelente para a sua saúde!

Ou seja, para uns há milhões para um tratamento experimental, para outros, os que trabalharam uma vida inteira, corta-se na comparticipação. Chocante!

Já agora, lembremos que o “querido” PS chumbou o ano passado uma proposta para uma comparticipação total das bombas de insulina – lembro que muitos idosos sofrem de diabetes e com consequências péssimas para o seu bem-estar geral (e não só) uma vez que, caso tenha aparecido já tarde, só dificilmente se habituam a tratar-se e o uso de uma dessas bombas seria bem mais fácil para eles. Mas tudo bem, temos seringas gratuitas para os drogados, “coitadinhos”, e abortos também gratuitos para quem, muitas vezes, engravidou porque não se deu ao trabalho de tomar as devidas precauções. Sim, é chocante!

Voltemos aos jovens, desta vez aos “climáticos”. Será que quando berram a exigir o fim dos carros não lhes ocorre pensar, mesmo por uns segundos, nos muitos idosos impossibilitados de se deslocarem a um médico ou a outro lado por variadas razões? Muitos não têm sequer um autocarro perto – ou até em toda a zona onde vivem. Outros teriam acesso a transportes públicos, mas têm imensos problemas de mobilidade que os impedem de os usarem.

E ao contrário desses filhinhos da esquerda caviar, não têm um papá em casa para lhes pagar um táxi sempre que precisam de um. Sim, sei que em teoria muitas corporações de bombeiros fornecem transporte a preços muito razoáveis a quem é sócio, só que, infelizmente, é preciso esperar que haja uma vaga. E andam esses meninos “bem” a berrar pela descarbonização? Chocante!

E já agora, que tal irem ajudar a limpar terrenos antes da época dos incêndios? É que muitos idosos já não têm forças para o fazer e não encontram quem o faça, mesmo a troco de dinheiro. Ou acham que só os carros é que dão cabo do clima e os incêndios florestais não?

Há uns anos, bastantes, li um texto que dizia, basicamente, “E se puséssemos os nossos idosos nas cadeias e os presos nos lares de terceira idade?” Adorei, mas infelizmente não o consigo encontrar – penso que era uma tradução de um pequeno texto francês.

E até é verdade. Uma pessoa é condenada por um crime e tem, durante toda a pena, cama, mesa e roupa lavada, como se costuma dizer, mais todos os medicamentos de que precisa – gratuitos, claro – e a piedade de todas as tais boas almas deste país sempre prontas a falarem nas más condições das cadeias – não deixa de ser curioso termos uma taxa de reincidência de entre 50 e 75 %. E não esqueçamos as saídas precárias para não perderem o contacto com a família e com a sociedade.

Mas um idoso que precise de um lar tem de pagar por ele, muitas vezes bem mais do que poderia fazê-lo sem um esforço da família e ninguém quer saber das condições em que vive, a menos que surjam imagens verdadeiramente chocantes e, mesmo assim, a indignação é passageira e não leva a nada. Quanto a contactos, a menos que a família os visite voluntariamente, pois bem, ficam para ali isolados sem que isso incomode os muitos movimentos disto e daquilo.

Ou seja, o tal texto tinha razão, os criminosos são melhor tratados do que os idosos. Chocante!

Para a semana: Boa disposição, precisa-se! Não é altura de ir abaixo, estamos quase na primavera...

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