Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

98 - Não há woke para idosos?

Livros e filmes são alterados para não “ofender” estes e aqueles... exceto idosos, claro está!

Para que não haja mal entendidos sobre o que aqui irei expor começo por dizer que sou ferozmente contra qualquer tipo de alteração a livros, filmes, etc. com o pretexto de que algum do seu conteúdo pode ofender a, b ou c. Para mim, tudo isso não passa de censura pura e crua, nem sequer encapotada, e bem pior do que a praticada por regimes ditatoriais de direita – sim, porque nos de esquerda tudo isso é feito “para bem do povo”. É que nessas ditaduras há regras e sabe-se, com bastante precisão, até onde se pode ir, mas com estas novas censuras estão sempre a surgir novas “ofensas”.

Esclarecida a situação, passemos ao miolo deste post.

Há uma coisa que sempre me intrigou neste afã tão woke de evitar ofender tudo e mais alguma coisa e que é, muito simplesmente, isto: os idosos ficam de fora de todos esses choros e bramidos “virtuosos”. Sobretudo as mulheres... pois, curioso, atendendo a que esses mesmos novos “censores” também passam a vida a berrar pela igualdade de género, cotas para mulheres e todo esse folclore.

Veja-se o que se passa com os chamados contos de fadas tradicionais e que têm sido afastados das criancinhas com diversos pretextos. Por exemplo, a história da Bela Adormecida deve ser proibida porque o príncipe beijou-a sem lhe pedir antes o seu consentimento – sem falar que os anões devem ser omitidos porque essa referência pode ofender quem o é (bom, francamente, não sei qual é o termo “correto” em português). A Bela e o Monstro embeleza uma situação de detenção de uma mulher contra a sua vontade, uma vez que só foi para o palácio do monstro para salvar o pai. E a maior parte dessas histórias perpetuam a ideia de que as mulheres são vítimas à espera que um “príncipe encantado” as salve ou que tudo fazem para lhe agradar (A Sereiazinha).

Mas... já repararam que as bruxas más são sempre mulheres idosas e feias? E os contos em que a heroína, digamos, é premiada porque ajuda uma velhota feia – pois, são sempre horrorosas – ou é, simplesmente, simpática para com ela? Tudo isto não perpetua estereótipos sobre mulheres idosas? Pior ainda, não mostra, claramente, que tratá-las como pessoas, ajudá-las, é uma exceção tão exceção que merece uma recompensa absolutamente desproporcionada em relação ao ato que lhe deu origem?

Mas tudo bem, nada disto incomoda os Donos da Verdade (DDV).

Reparem, ainda, que quando há homens idosos nesses contos são muitas vezes feiticeiros poderosos ou sábios que devem ser ouvidos e acatados. Ou seja, dupla discriminação!

Passemos a livros, sim, os tais que devem ser proibidos ou “limpos” porque chamam gordo a alguém ou dizem “negro” ao falar de um “africano”. Também aqui as mulheres de uma certa idade saem-se muito mal. Ou são ditadoras ferozes que fazem a vida negra às filhas ou sofrem de graves perturbações mentais devido a um desgosto de amor. Ou uma mistura de ambos.

Assim, de repente, não me lembro de muitas figuras positivas, há, claro está, a Miss Marple e uma ou outra figura similar em livros desse género de meados do século 20, mas em literatura “a sério”, não... e olhem que leio muito.

E nesta área, também os homens idosos não são lá muito bem tratados, são quase sempre ou figuras patéticas ou ditadores de trazer por casa, pessoas retrógradas incapazes de aceitar mudanças ou até algo que não esteja na sua muito estreita visão do mundo.

É claro que o enfoque dos DDV está todo em dar às criancinhas leituras que falem do pessoal do alfabeto (sabem, os LBGTQIA+), que não sejam racistas – tradução, onde os maus sejam brancos e todas as outras raças sejam espetaculares – e que não tenham qualquer referência ao cristianismo, a menos que seja em termos negativos.

Sim, há idosos nessas histórias, mas são apenas avós sem vida própria para além de aparecerem quando é preciso cuidar dos netos ou dar-lhes conselhos de pacotilha. Onde estão as muitas pessoas com mais de 65 anos que têm uma bela carreira, que são ativas em inúmeras áreas, incluindo a artística, ou que, muito simplesmente, vivem a vida em pleno, muitas delas até pela primeira vez?

E no cinema e televisão as coisas também não são diferentes. Há, hoje em dia, cotas para tudo e mais alguma coisa relativas a esse setor. A Academia do Cinema tem, até, uma regra que diz que um filme só pode ser nomeado para um Óscar se seguir regras de “diversidade”: um dos atores principais ou secundários importantes tem de ser de um grupo racial ou étnico minoritário, 30 % dos atores secundários têm de pertencer a grupos sub-representados (mulheres, não brancos, pessoal do alfabeto, deficientes) e a história principal tem de se centrar num desses quatro grupos”!

Pois, isso explica a pobreza da maior parte dos argumentos e o tipo de interpretações que nos levam a pensar, “Quem lhe terá dito que é ator?”

Mas reparem que não há a menor referência a maiores de 65 anos – ou até de 50... Ora se há um grupo sub-representado é precisamente este, sobretudo no que diz respeito às mulheres. Mesmo atrizes consagradas veem-se relegadas para papéis mais do que secundários, isto quando os arranjam.

Mas tudo bem, a indignação só surge em relação ao que os DDV consideram uma “verdadeira” falta de diversidade, sobretudo em termos de raça e sexualidade – repararam que na série 911 Buck, que foi sempre um mulherengo, descobre subitamente que é, afinal, homossexual? Mas nesta série os únicos idosos ou são vítimas salvas pelos bombeiros (e não só) ou as duas mães, negras, claro, de duas das personagens principais que surgem quando é preciso um embate emocional ou de vontades.

Como disse logo no início, sou contra todo o tipo de censura, mas não deixa de me incomodar a hipocrisia e falta de coerência de todo esse pessoal woke – bom, se calhar a culpa até é minha por achar que são capazes de um pensamento racional...

Para a semana: Fraudes “eletrónicas” Pelo telefone ou internet, há cada vez mais tentativas de fraude viradas para idosos

0