Começo por dizer que este título nada tem a ver com o muito premiado filme dos irmãos Coen “Este país não é para velhos” – já agora, esta frase vem de um poema do poeta irlandês William Butler Yeats, “Velejando para Bizâncio”, onde surge como “Aquela não é terra para velhos”, que pode ler aqui numa tradução do escritor brasileiro Augusto de Campos. É apenas uma constatação de factos perante o que se passa atualmente em cada vez mais setores da nossa sociedade.
Refiro-me à informatização crescente de tudo e mais alguma coisa, muitas vezes sem alternativas ou, quando as há, não facilmente disponíveis. Pedido de receitas, marcação de consultas, impostos, enfim, um sem número de assuntos que agora só se tratam online – sim, há sempre o recurso de ir pessoalmente, mas muitos desses locais só atendem com marcação prévia feita... online.
Atenção, sou toda a favor de ciência e tecnologia e em vários posts anteriores tenho frisado como é importante os longevos aprenderem a lidar com as chamadas novas tecnologias, nomeadamente um smartphone para terem, mais facilmente, um contacto mais em direto com familiares e amigos distantes. Aliás este blogue é um exemplo disso, sim, é possível que o leiam por interposta pessoa mas o mais provável é fazerem-no num telemóvel, tablet ou computador.
Além disso, quanto menos coisas impressas melhor, poupa-se papel, abatem-se menos árvores, consome-me menos eletricidade e água, ou seja, é bom para o ambiente.
O problema é que nós entrámos nesta nova era com uma grande desvantagem em relação a muitos dos países europeus, desvantagem essa que afeta, sobretudo, as pessoas de mais idade: a nossa elevada taxa de analfabetismo.
Em 1974, ou seja, aquando do 25 de abril, a taxa era 25 a 26 % da população com mais de 15 anos – e 64 % para as mulheres. Mesmo assim, tinha melhorado imenso desde 1926 – data do golpe militar que levou à implementação do Estado Novo – quando esses valores eram de 75 % e 80 %, respetivamente.
E lembro que em ambas as datas a escolaridade obrigatória era apenas a 4ª classe e que muitos do que a tinham concluído com êxito perdiam, a seguir, qualquer contacto com a leitura devido, sobretudo, à atividade económica que praticavam – lembro que em 1974 o setor primário representava 11 % do PIB e o secundário (indústria) 40 %, setores esses em que ter estudado não era exatamente uma exigência.
Ou seja, muitos dos atuais longevos têm pouca (ou nenhuma) literacia no significado oficial do termo e ainda menos o hábito de aprender “coisas intelectuais”. E sem esquecer o ainda muito popular “já estou velho para essas coisas” ou “com a minha idade querem pôr-me a fazer isso?”
É claro que com o passar dos anos as coisas vão mudando e a um ritmo cada vez mais acelerado, com a entrada na categoria “longeva” de pessoas que estão perfeitamente à vontade com o uso do telemóvel e da Internet e para quem tratar de assuntos online é mais do que corriqueiro.
O problema é que, na ânsia de informatizar o país, não se pensou em soluções práticas para quem não se sente à vontade nesse mundo e que entra em pânico ao ouvir termos como “online”, que nem sabe muito bem o que é, diga-se de passagem.
Sei que estou sempre a falar em Juntas de Freguesia, mas quando berram contra a extinção de algumas o argumento é sempre o mesmo, a proximidade à população ali residente. Que tal porem essa teoria em prática e terem alguém ali que ajudasse os longevos da zona a preencherem declarações, a fazerem pedidos e marcações, etc.?
E se muitas escolas do Ensino Básico têm “mediadores culturais” por causa dos filhos dos chamados imigrantes, porque não criar algo similar e de acesso fácil para quem nasceu noutros tempos e se sente num país estrangeiro na sociedade moderna?
Temos, também, o atual sistema de triagem para se ir às Urgências de um hospital, com a obrigação de ligar previamente para a linha SNS 24 a menos que seja algo mesmo muito grave. Sim, o número até é fácil – 808 24 24 24, caso não saibam... Mas imaginem uma pessoa já com uns bons aninhos em cima, sozinha e com sintomas que a preocupem mas que o 112 acha não serem uma emergência – vai-se lembrar de tudo isto?
Sem contar que para quem já tem uma certa idade, coisas que seriam ignoradas uns anos antes assumem agora proporções enormes quando lhes acontecem ou, pior ainda, a um familiar da mesma faixa etária com quem vivem ou com quem estão de momento.
Já anteriormente sugeri a criação de um novo número de três algarismos precisamente para esta triagem. Bem escolhido, seria muito fácil de memorizar e, acima de tudo, de marcar.
Finalmente, os transportes.
Da próxima vez que andem de autocarro imaginem o esforço que alguém longevo tem de fazer para subir ou descer - sim, já vi em autocarros novos um botão com a indicação de cadeira de rodas, mas não é a mesma coisa. Vi, em tempos, autocarros de uma cidade europeia – infelizmente, não me lembro de qual – em que, ao pararem, saía um pequeno degrau de debaixo da carroçaria para, assim, o esforço ser menor.
Pior ainda, os comboios – o ano passado fui ao Porto e foi-me difícil usar os degraus, sobretudo para sair, devido ao espaço entre os degraus e o cais, que, francamente, assusta quem já não tem a mobilidade toda.
E sabem que ainda há estações de Metro sem elevador, como o Cais do Sodré para quem embarca? Bom, para quem desembarca, existe, mas, como em muitas outras, costuma estar avariado...
Ou seja, temos passes baratos – em Lisboa fica por 20 euros e abrange todos os 18 concelhos, uma área enorme – mas depois surgem estes problemas que desencorajam muita gente de sair, passear, enfim, “arejar”.
Para a semana: E estamos nas férias. Para muitos longevos, esta é a única altura em que veem a família... mas pode ser também um período de solidão