Falei um pouco sobre este assunto em Doenças, mas, devido ao seu peso nesta faixa etária e ao facto de ser muitas vezes menosprezada, até pelo setor médico, vale a pena voltar ao assunto.
Há um pouco a ideia generalizada de que estes casos de depressão têm aumentado muito nos últimos tempos. O problema é que não temos um modo real de fazer essa comparação, como tenho dito, repetidamente, a esperança média de vida disparou e com ela o número de pessoas acima dos 65 anos. Ou seja, até há bem pouco tempo não se podia exatamente falar de depressão nos menos novos...
E também graças a esse disparo, temos, agora, cada vez mais reformados e isso faz aumentar os casos de depressão. É que muitos identificam-se com o seu trabalho, com a posição que ocupam, por muito modesta que seja, e quando se veem subitamente em casa, sem quaisquer obrigações, é inevitável que se comecem a sentir inúteis.
Como também disse anteriormente, há ainda o problema de muitos dos amigos que têm serem apenas colegas de trabalho. Chegada a reforma, a perda de contacto é quase inevitável, levando a uma cada vez maior sensação de solidão e de isolamento.
Outro fator a ter em conta são as enormes mudanças que sofreu o agregado familiar típico. De casas multigeracionais passou-se, cada vez mais, ao conceito de “cada um no seu cantinho”. Ou seja, a ideia é os filhos adultos viverem separados dos pais mais idosos, quer estes continuem no seu próprio lar ou se mudem, voluntariamente ou não, para uma instituição.
É precisamente por causa destes sentimentos de inutilidade e de solidão que eu tenho insistido, repetidamente, na necessidade de desenvolver passatempos, de tentar multiplicar situações de convívio, enfim, de criar uma outra vida após a famigerada reforma – sim, há mesmo vida depois dela e é cada vez mais extensa, por isso mais vale tentar aproveitá-la ao máximo.
Outras causas da depressão podem ter a ver com a súbita consciencialização da proximidade da morte, mesmo que, estatisticamente falando, esta esteja ainda bem longe. É mais forte, sobretudo, em pessoas que foram adiando os seus sonhos e projetos “para um dia” e que descobrem, de repente, que os anos foram passando e não fizeram nada do que pretendiam.
Este sentimento da própria mortalidade pode vir, também, de mortes repetidas de amigos e conhecidos da mesma idade ou do falecimento de um cônjuge.
Um dos problemas da depressão nos não muito novos está no facto de muitos dos seus sintomas poderem ter outras causas, de medicamentos a doenças variadas. Mais ainda, muitos médicos de família concentram-se apenas na saúde física dos seus utentes, ignorando ou menosprezando outras facetas. Junte-se a isso a relutância de muitos idosos em confessarem que se sentem deprimidos, ou por serem de uma geração em que não havia estas “modernices” ou por temerem serem postos numa instituição caso não “funcionem a 100 %”.
Há, no entanto, alguns sintomas a que convém estar atento, em si ou noutras pessoas que conheça, sejam amigos ou familiares. Os mais comuns são os seguintes:
- fadiga generalizada sem razão
- insónia
- irritabilidade súbita
- perda de interesse por atividades ou coisas que antes despertavam muito interesse
- passar a comer muito mais ou muito menos
- perda de sociabilidade
- desprezo pela higiene pessoal e por se arranjar
A ênfase aqui está numa mudança de comportamentos. Se a pessoa foi sempre muito irritável, bom, pode ser apenas “mais do mesmo”. Ou se era uma pessoa muito dada, sempre pronta a sair e a conviver, e agora não lhe apetece fazer nada nem ver ninguém, cuidado!
Para complicar mais as coisas, uma depressão não tratada em idosos pode transparecer como perda de concentração e outros sintomas que se atribuem, cada vez mais, a doenças do tipo demência.
Resumindo, apesar de os sintomas serem confusos, uma vez que não indicam, necessariamente, depressão, convém estar atento a eles e, acima de tudo, não temer falar dos seus receios e sentimentos, seja com um familiar, um amigo ou o seu médico.
É claro que quando uma pessoa se sente deprimida, a primeira reação é pensar logo em tomar “alguma coisinha”. E, sim, os antidepressivos podem ser muito úteis, mas antes de lá chegar há algumas pequenas modificações no estilo de vida que podem ajudar imenso a evitar a depressão ou a minorá-la:
- Aumento da atividade física. Como tenho dito, não é preciso ir a correr inscrever-se num ginásio, a menos que seja isso que realmente deseja. Mas uma pequena caminhada diária pode ajudar muito, sobretudo se tem levado uma vida muito sedentária.
- Dieta saudável e equilibrada. Já escrevi vários posts sobre alimentação e nutrição, se os leu sabe que não sou partidária do “nunca”, sempre achei que se pode comer de tudo, com moderação – a menos que haja causas médicas para não o fazer.
- Se abusa de álcool ou, até, de drogas, pense em moderar – ou eliminar – o seu consumo. É que podem ser uma causa da sua depressão.
- Fazer os possíveis por dormir melhor. Falei disso em Dormir bem é preciso.
- Esforçar-se por arranjar um passatempo ou algum interesse que lhe ocupe o tempo e o faça “sair da sua cabeça”. Tenho dado várias sugestões, depende dos gostos de cada um.
- Se não convive regularmente com a família ou amigos, tente reforçar esses contactos. E se não resultar, não caia na ideia de “ninguém gosta de mim”, ponha-se em campo, não faltam locais de convívio para todos os gostos – e, quem sabe, o seu próximo grande amigo pode estar mesmo ao virar da esquina!
Quanto à ideia da morte e do “nunca fiz nada”, acha mesmo boa ideia passar os próximos anos a remoer essa ideia em vez de meter mãos à obra e fazer alguma coisa? E a morte, bom, ao contrário dos produtos alimentares não nascemos com uma etiqueta com o prazo de validade, por isso de que serve pensar nisso? E tem alguma garantia de que os seus conhecidos ou familiares mais novos não irão morrer antes de si?
Para a semana: Vem aí o verão. Pois, estamos naquela época do ano em que se começa a olhar para o espelho...