Ir para novo

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92 - Os avós já não são o que eram

Uns fazem de pais, outros são postos de parte, há até os que são mesmo pais numa idade avançada...

Já falei sobre avós no Dia da Mãe do ano passado, mais precisamente em Avós e netos. Se este assunto lhe interessa, talvez seja bom ler – ou reler – esse post em que falo, essencialmente, da evolução do papel dos avós na sociedade e de “pequenas” coisas que gostaria de ver na nossa sociedade uma vez que estes familiares são, atualmente, muitas vezes os principais cuidadores das crianças, pelo menos de segunda a sexta.

Um detalhe, digamos, a que não dei relevo no artigo anterior tem a ver, precisamente, com o aumento da esperança de vida dos homens. Como esta era, há 50 anos, de 64,8 anos para os homens e de 71,4 para as mulheres, havia muito mais probabilidades, na maior parte das famílias, de as crianças conviverem com uma avó mas não com um avô.

Ora como esses valores passaram para 78,1 anos para os homens – um aumento muito considerável! – e de 83,5 para as mulheres, há agora muito mais hipóteses de as ditas crianças terem os avós todos vivos, o que também altera um pouco a situação.

Como disse então, era bastante normal a avó viúva fazer parte da família, quer na sua casa, quer na de um dos filhos, quase sempre uma filha, diga-se de passagem. Mas com ambos os cônjuges vivos, isso torna-se mais complicado e, na maioria dos casos, indesejado, até, por parte do casal “menos novo”.

É que as mulheres adaptam-se melhor a mudanças nas suas vidas e por muito que chorem pela “sua casinha” essa perda é compensada pela presença dos netos e por estarem ocupadas a ajudar na casa. Já os homens são mais rígidos e custa-lhes muito mais largar as suas rotinas e hábitos, sobretudo se passam para um ambiente em que sentem não ter utilidade, o que também contribui para a dificuldade maior que têm de apreciar devidamente a reforma.

Lembro, também, que cada vez mais os casais reformados mantêm uma vida mais ou menos independente até tarde, sendo, muitas vezes e como também referi, o grande apoio nos cuidados com os netos, mas na sua própria casa.

Há ainda um outro pormenor, digamos, que tem a ver com a idade média em que as mulheres portuguesas têm o primeiro filho. Antigamente, há mais de 50 anos, as mulheres casavam cedo, muitas vezes com homens bem mais velhos, e tinham logo filhos. O ciclo repetia-se com as filhas e tínhamos, pois, avós bastante novas em termos etários, embora muitas não o fossem em termos físicos.

Isso foi-se alterando aos poucos e em 1960, o primeiro ano de que há dados Pordata, a idade média para o primeiro filho era de 25 anos, mantendo-se quase estável, com pequenos altos e baixos, até finais dos anos 90, altura em que voltou a subir estando agora nos 30,8 anos. E tem, também, aumentado bastante o número de mulheres que são mães depois dos 40, ou seja, numa idade em que outrora já eram avós!

Resumindo, é-se avô cada vez mais tarde, uma situação que, claro está, os usuais “arautos da desgraça” consideram ser um drama. Só que, como tenho dito inúmeras vezes neste blogue, ser idoso já não é o que era ainda há bem pouco tempo e muitos avós de 70 e muitos têm energia mais do que suficiente para o serem, ao contrário do que muitos apregoam.

O que me leva ao ponto principal deste post – finalmente! É que a fazer fé no que se passa atualmente em países que entraram nesta jornada do envelhecimento da população antes de nós, vem aí uma nova revolução na relação entre avós e netos.

Olhando para a situação atual, muitas famílias contam com os avós para os ajudarem a lidar com o dia-a-dia. Refiro-me, claro está, a ficarem com os netos depois das aulas ou quando não as há por razões diversas, como as inúmeras greves, ficarem também com eles nos períodos de férias que não coincidem com os dos pais, encarregarem-se deles umas noites ou fins de semana para os pais poderem ter uma “folga”, enfim, estarem presentes sempre que seja preciso.

E, muito francamente, isso é quase visto como um dado adquirido, ninguém duvida que os ditos avós adoram passar esse tempo todo com os seus netinhos. E se calhar até gostam, para além do facto de que toda a sua educação os levar a sentirem-se um bocadinho egoístas se acharem que essa usurpação do seu tempo – sim, é o termo certo – é excessiva.

Curiosamente, a mesma sociedade que acha que alguém mais idoso é um inútil e um peso morto, financeiramente falando, considera perfeitamente normal este contributo fortíssimo – e não pago – dado por essas pessoas...

Só que, com o tal facto de os “velhinhos, coitadinhos” o serem cada vez menos, vemos já, em muitos países, uma situação totalmente diferente. São cada vez mais numerosas as pessoas acima dos 65 anos – ou dos 70 e 80 – a manterem um elevado nível de atividade, criando empresas, sendo voluntárias, estudando, viajando, enfim, um sem número de coisas. Gostam à mesma dos filhos e dos netos, mas não centram a sua vida neles, a ideia nem sequer lhes ocorre.

Por exemplo, os cada vez mais numerosos casais idosos nos EUA e Austrália que vendem a casa, se a tiverem, e investem numa caravana para percorrer o respetivo país. Afirmam que podem, assim, ir visitando os filhos (e netos) dispersos, mas isso é apenas uma pequena parte, passam, isso sim, muito do seu tempo a ver coisas novas e a conviver com amigos que vão criando um pouco por todo o lado.

Mesmo os que se mantêm no seu lar deixaram de estar permanentemente disponíveis para cuidar dos netos, fazem-no, apenas, em circunstâncias específicas e não como rotina. É que, à semelhança de camadas etárias mais novas, começaram a considerar o seu tempo demasiado precioso e acham, acima de tudo, que têm direito a ter vida própria.

Pois é, preparem-se, é o que nos irá acontecer, se calhar bem mais depressa do que muitos imaginem.

E bom Dia da Mãe (e da Avó)!

Para a semana: Cuidados pessoais. Vale a pena voltar a este tema.

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