Passámos a campanha eleitoral praticamente sem referências aos idosos, como referi num post recente, Voltemos ao idadismo. Só foram mencionados, e muito indiretamente, com a questão das pensões e as promessas, mais ou menos alucinatórias, de aumentos que, como todos muito bem sabemos, não são para cumprir.
E, sim, o dinheiro é importante, claro, para quem tem pensões baixíssimas, infelizmente não resolve diversas situações, como as que passo a citar.
Voltámos a ter idosos encontrados mortos em casa ao fim de horas ou, até dias. Mas o caso que mais me chocou foi o do idoso de 65 anos que foi encontrado morto em casa 33 horas depois de ter ligado 3 vezes para o 112 sem que tivesse sido socorrido. O argumento desse suposto serviço de apoio é que tentaram ligar de volta e ninguém respondeu. A sério?
Ou seja, uma pessoa sente-se mal, liga para o 112 a pedir ajuda, perde, entretanto a consciência ou fica incapacitada e não se faz nada porque não atende o telefone? Em que universo paralelo é que isto faz sentido?
Tenho experiência pessoal com o 112, liguei algumas vezes por causa dos meus pais e, francamente, com a tremenda quantidade de perguntas que fazem uma pessoa tem mais do que tempo de morrer antes que enviem ajuda – isto se a houver disponível!
Sim, porque esta semana houve pelo menos o caso de um homem de 95 anos que se sentiu mal e esteve hora e meia à espera porque o INEM não tinha meios disponíveis...
Mas voltemos ao “não atendeu o telefone”. Não seria mais do que altura de o Governo, seja ele qual for, sempre tão lesto a dar benesses a quem tem bom corpo para trabalhar – refiro-me ao suposto Rendimento Mínimo, claro – olhe com olhos de ver para uma camada etária cada vez mais numerosa e que ajudou a construir a riqueza que agora delapidam?
Que tal proporcionar o chamado “botão de pânico” a todos os idosos que não vivem em lares ou outras instituições? Sim, mesmo aos que habitam com familiares, é que pode acontecer algo quando estão sós. Seria grátis para pensões até um determinado valor e a pagar para as restantes, com valores variáveis consoante o seu montante. Assim, se o 112 recebesse uma chamada dessas já sabia que era um idoso e que tinha de enviar ajuda o mais depressa possível.
Outra solução, se queremos realmente acabar com casos destes, seria criar um registo de idosos que vivem sozinhos e os respetivos números de telefone, registo esse a que o 112 teria acesso para avaliar a veracidade do pedido de ajuda – sim, sei que, infelizmente, abundam as chamadas falsas, mas isto ajudaria muito a separar o trigo do joio.
Já o sugeri anteriormente mas há um outro modo de tornar mais difícil que uma morte só seja detetada dias, semanas ou até meses depois. E é tão simples – e barata – de implementar! Trata-se, muito simplesmente, de uma variante da célebre “árvore telefónica” muito usada em zonas rurais dos EUA.
Para quem não conhece ou não leu a descrição que dei num post anterior, funciona do seguinte modo: o grupo que a constitui cria uma lista ordenada de nomes e, diariamente, cada membro telefona ao que vem imediatamente a seguir na lista, completando-se o círculo quando o último liga de novo ao primeiro. Nem é preciso grande conversa, basta atender e dizer, “está tudo bem”. Assim, se alguém não atender, após algumas insistências a pessoa que tentou fazer a chamada contacta o membro designado para tal para que se desloque a casa de quem quebrou o círculo para ver se foi distração ou se há algum problema. Entretanto, a pessoa que despoletou o alarme faz a chamada que o ausente devia ter feito, para que a “rede” prossiga.
Como este esquema não encaixa muito bem com os nossos hábitos, que tal serem as Juntas de Freguesia a fazerem estas chamadas? Criavam a lista dos idosos residentes na sua área e, a partir de uma hora a fixar, iam ligando a todos para ver se estava tudo bem. Mesmo que fosse tarde demais para prestar socorro, pelo menos seria mais rápida a deteção de um problema ou morte. Isso, sim, era servir o público que os elegeu!
Tivemos, também, o caso da idosa com Alzheimer profundo que desapareceu do hospital e foi encontrada morta dias depois num terreno vizinho. Sim, sei que aqui o grande argumento é que um hospital não é uma prisão e até concordo, mas só se estivermos a falar de pessoas na plena posse das suas faculdades. Em casos como este, se o hospital não tem capacidade para destacar um funcionário para acompanhar o doente em permanência, solicitem a presença de um familiar – diga-se de passagem que neste caso estes até queriam ficar com a senhora e não lhes foi permitido, apesar de terem vincado o seu estado mental.
O que este país precisa é da chamada Revolução Grisalha que já grassa em muitos outros sítios, tendo começado... nos EUA. São grupos de pessoas de mais de 65 anos, bom, muitas vezes de mais de 85, que ficaram fartas de serem postas de parte e de serem vistas como um peso para a sociedade e começaram a agir, tanto no dia-a-dia como politicamente. Criam clubes, associações, negócios, estão, basicamente, em todo o lado, para além de pressionarem governos locais e nacionais para a implementação de medidas que consideram úteis. A sério, nada melhor para dissipar a ideia do “velhinho, coitadinho” do que assistir a um espetáculo de dança em que a maioria dos dançarinos deviam estar, na opinião generalizada, enfiados, mudos e quedos, num lar à espera da morte.
Com os 50 anos do 25 de abril já ao virar da esquina, vamos a isso, vamos a esta nova – e tão necessária – revolução!
Para a semana: Tisanas e outras mezinhas Sim, tisanas, como as do Poirot...