Esta é uma das épocas do ano mais propícias a trazer-nos uma quebra na alegria ou, até, na vontade de viver. A euforia do Natal e do Ano Novo ficaram bem para trás e o Carnaval também, isto para quem o festeja ou tem familiares novos que o fazem. No mínimo, viram notícias na televisão e, goste-se ou não dessa festa, sempre é um marco no decorrer dos dias sempre iguais de quem está já reformado e não tem obrigações – sim, lembremo-nos que há bastantes reformados que trabalham, mesmo que seja a tempo parcial.
O problema é que o próximo marco, a Páscoa, ainda está bem distante. Junte-se a isso a existência de muitos dias chuvosos e frios, em que a última coisa que alguém que vai para novo precisa é sair sem ter uma necessidade extrema de o fazer e pronto, temos a receita perfeita para nos sentirmos deprimidos e sem vontade de fazer nada. O pior é que a partir de uma certa idade é bem mais fácil entrar no círculo vicioso em que, quanto menos se faz, menos vontade há para fazer alguma coisa. Nem que seja aproveitar os dias soalheiros e mais quentes que vão surgindo.
Pois bem, aqui ficam algumas dicas para se ocupar e ganhar alguma boa disposição nesses dias deprimentes. Comecemos, então.
Antigamente, no tempo das donas de casa a tempo inteiro e poucos ou nenhuns eletrodomésticos, havia o conceito da “limpeza da primavera”, em que a casa era revolvida de alto a baixo, a roupa de casa lavada ou, no mínimo, posta a apanhar sol, os tapetes bem batidos e tudo, mas mesmo tudo, lavado, polido e limpo. Os tempos mudaram e não vou, de modo algum, propor algo similar, apenas uma versão muito reduzida dessa tal limpeza.
Sabe aquela gaveta cheia de tralha que anda há que séculos a pensar arrumar? O armário com roupa que não usa há anos e que “um dia” irá separar? Pois bem, porque não aproveitar um desses dias bem invernais para tratar disso?
Mas não com um sentido de frete, de obrigação, isso seria bem pior do que nada fazer. Não, aproveite a ocasião para uma pequena viagem ao passado. Por exemplo, em vez de pôr simplesmente de lado um vestido, blusa ou outra peça que já não serve ou que não tenciona voltar a usar, que tal tentar recordar-se de quando a comprou? Ou de uma – ou várias – ocasiões em que a usou?
Deste modo, o que poderia ser uma simples – e chata – arrumação pode tornar-se uma ocasião divertida. Já agora, não importa se não fizer tudo o que planeara fazer, haverá, certamente, outros dias maus em que pode continuar a fazê-lo, o importante é passar uns momentos agradáveis e distrair-se.
Repare que eu frisei “dias maus”, é que se o tempo está bom o melhor que tem a fazer é aproveitá-lo para ir dar uma voltinha, espairecer, apanhar ar puro e algum sol.
E que tal estender este conceito de arrumação a outras áreas? Álbuns de fotografias, por exemplo – sim, quem vai para novo tem, certamente, alguns, de antes da “modernice” das fotos no telemóvel. Pois bem, folheie-os, tente recordar a ocasião em que a foto foi tirada e quem está nela. E, já agora, aproveite para lhe pôr uma identificação como deve ser, facilitará muito a sua vida futuramente – sim, acontece a todos vermos uma foto e já não nos lembrarmos bem de quem eram aquelas pessoas.
Pode fazer o mesmo com os seus livros, tirá-los, um a um e ver se ainda se lembra do conteúdo – e caso não faça a mais pálida ideia, eis uma nova leitura para “as horas vagas” – ou, caso se lembre, se gostou, adorou ou detestou e, até, porquê. Já agora, não vale a pena manter obras que odeia.
A próxima dica é um pouco entrar no “faz de conta”. Muito simplesmente, sugiro que planeie umas férias. Mas atenção, não têm de ser férias a sério, reais, das que se calhar até irá fazer. Não, aqui não há limites.
Basicamente, pense num país, região ou cidade que gostaria de visitar, nos dois últimos casos até podem ser em Portugal. E depois pesquise, muito a sério, o que têm para oferecer e que lhe possa agradar. Mas tudo, mesmo tudo. É que a grande vantagem de não serem férias a sério é que deste modo não há limites de tempo ou de dinheiro. Veja passeios, monumentos, locais interessantes, hotéis, restaurantes, lojas, enfim, não falta informação na Internet para poder preparar um dossier completo.
E não precisa de se limitar à Internet. Pode aproveitar um dia bom para ir até uma biblioteca ampliar a sua pesquisa, com a vantagem de que, se não é um frequentador habitual, poderá ficar agradavelmente surpreendid e repetir a dose com outro tipo de livros.
Bom, falei em férias de faz de conta, mas nada impede que aproveite o que pesquisou para tirar umas a sério...
A última dica não é para toda a gente, nem todos podem ou querem ter um animal de estimação. Mas são uma ótima companhia e ajudam imenso a manter ou a melhorar a boa disposição. Se optar por um, lembre-se que um cão tem de ir à rua duas vezes por dia, mesmo com chuva e frio, pode, pois, não ser a escolha ideal para si. Já um gato não tem essas limitações e mesmo que seja já adulto e esteja na fase de só querer “sopa e pantufas”, pode ser uma boa companhia – também aqui relembro que um gatinho é por definição brincalhão e que as suas atividades nem sempre respeitam objetos mais delicados.
Resumindo, ocupe-se! É que quando estamos parados, sem nada fazer, a nossa mente tem tendência para divagar, infelizmente quase sempre para coisas deprimentes ou, no mínimo, nada agradáveis. E, se puder, procure companhia, humana ou não, cara a cara ou via telefone ou computador.
Para a semana: Voltemos ao idadismo. Neste período pré-eleitoral, aqui ficam alguns “queixumes”