Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

61 - O stress

Pois, infelizmente não se restringe aos novos nem a quem está na idade ativa.

O conceito de stress tal como o conhecemos é relativamente recente, embora o termo em si já exista desde pelo menos o século 14, apenas como pressão ou constrição de natureza física. Mas foi só no século 20, com a melhoria das condições de vida, que passou a ser entendido como um conjunto de mecanismos psicológicos, fisiológicos e de comportamento perante algo que é visto como uma ameaça.

O termo está cada vez mais na moda e aplica-se a torto e a direito a quase todos os setores da sociedade, incluindo as criancinhas – sim, as tais que não devem ter testes nem exames porque isso lhes causa stress.

Reparem que disse “quase todos os setores da sociedade”. É que curiosamente não ouvimos falar no stress de quem vai para novo. Fica-nos até a ideia de que a entrada na reforma põe milagrosamente fim a todas as situações de stress!

Só que infelizmente as coisas não se passam assim no mundo real e os menos novos são extremamente suscetíveis a sofrer de stress e com muito boas razões para tal.

Não vou falar no stress por razões financeiras, infelizmente cada vez mais comum devido às parcas reformas de muitos e ao aumento do custo de vida. Sim, é terrível, mas as suas causas são demasiado abrangentes e as soluções, se é que as há, também. Restringir-me-ei, pois, a outras razões.

E estas podem ser diversas.

Uma muito comum é o receio de ter uma doença grave ou crónica, que impossibilite uma vida mais ou menos independente. O grande problema aqui é que, à força de temer o que possa a vir acontecer, a pessoa acaba por não gozar a vida enquanto tem saúde, pior ainda, o stress torna-a muito mais vulnerável a todo o tipo de doenças e atrasa – ou impede, até – a recuperação de alguma doença menor ou de uma infeção. Sim, o stress tem efeitos negativos na saúde!

Outra causa muito comum é a passagem abrupta de uma vida laboral para uma vida de lazer. Como já referi várias vezes, passa-se literalmente em 24 horas de ter horários e tarefas a cumprir para dias a fio sem ocupação à vista. E, também como tenho referido, muitos, sobretudo no nosso país, chegam à reforma sem passatempos ou atividades alternativas que lhes preencham pelo menos parcialmente o tempo agora vago. Não é pois de admirar que esta seja uma das grandes causas de stress em quem já tem uma certa idade.

A reforma traz também muitas vezes a perda de convívio humano, é que para muitos os “amigos” com quem conviviam eram colegas de trabalho e, cortado esse laço laboral, o contacto vai-se perdendo. E entra-se num ciclo vicioso em que quanto menos contactos se têm mais temor há de ficar totalmente isolado e, até, de morrer sem que alguém dê conta, como vemos com demasiada frequência na comunicação social.

Há ainda a perda do cônjuge ou, muito frequentemente, o receio de o perder, que causa tanto ou mais stress do que a sua perda real. Sem esquecer que com o avançar da “viagem para novo” agiganta-se o temor da morte e de um possível sofrimento nos últimos tempos de vida.

Se está nesta viagem ou tem familiares ou amigos que estão nela, aqui ficam alguns sintomas de stress a que deve estar atento – é claro que muitos podem ser devidos a outras razões mas, descartadas estas, nomeadamente através de exames médicos, fica o nosso amigo stress...

- Falta de concentração em atividades usuais, como ler, fazer palavras cruzadas, bordar...; já agora, é um ciclo vicioso, quanto menos as conseguem fazer mais aumenta o stress

- Irritabilidade, sobretudo se não era habitual

- Falta de energia para tudo

- Nervosismo e ansiedade frequentes

- Dores de cabeça e de costas, mais uma vez se não eram habituais

- Problemas gastrointestinais, perda de apetite mesmo para petiscos favoritos, problemas intestinais (demasiado preso ou solto)

- Palpitações cardíacas não devidas a uma doença cardíaca

Repito, alguns destes sintomas podem ter outras razões mas, descartadas estas, é bom pensar no stress que, infelizmente, não costuma ser tido em conta quando se trata de alguém a partir de uma certa idade.

Quando ao modo de tratar o stress, bom, depende bastante da pessoa. Há quem tenha uma natureza depressiva, digamos, que se agrava com a aproximação dos cenários acima descritos, doença, morte, isolamento, piorando, pois, com o passar dos anos.

Mas não custa tentar tomar algumas medidas simples mas que ajudam imenso a aliviar esta situação. Muitas já foram descritas anteriormente como ajudando a envelhecer bem e com saúde, mas é sempre bom recordá-las.

- Alimentação saudável e adequada, tema a que já dediquei vários posts e a que voltarei mais vezes.

- Exercício físico, é que lá diz o velho ditado, mente sã em corpo são; também já dei anteriormente algumas sugestões, nomeadamente em Exercitemo-nos.

- Ocupar o tempo, seja com estudos – dei anteriormente várias sugestões – ou com distrações, incluindo viagens e saídas diversas.

- Evitar o isolamento; se não tem família perto ou acessível durante uma boa parte do tempo, tente entrar para novos grupos de convívio, um centro de dia, por exemplo, ou algo mais esporádico; o importante é não ficar sozinho, dia após dia, semana após semana.

- Ter um animal de estimação; sim, não é para todos, mas há inúmeros estudos que comprovam a sua capacidade para diminuir o stress e a ansiedade dos seus companheiros humanos; ou pode também tentar um pouquinho de jardinagem, mesmo em vasos de interior – é que cuidar de coisas vivas ajuda imenso a manter a saúde mental, como explico em Coisas vivas.

O mais importante é não pensar que o que sente é natural por causa da sua idade e, acima de tudo, não deixar de viver o presente por estar demasiado preocupado com o que o futuro lhe poderá trazer de mau. Como disse num outro post, o tempo passa à mesma, quer o gozemos ou não, por isso mais vale ir apreciando o que a vida tem de bom – e não, não estou a fazer uma apologia de viver como a cigarra, se há motivos reais de preocupação devemos, claro, fazer tudo ao nosso alcance para melhorar a situação, mas isso é bem diferente do que a obsessão doentia com o “e se isto acontece...”

Para a semana:  Mitos do envelhecimento da população Os mitos que levam ao medo do aumento da percentagem de idosos na população

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