De livros, e não só, temos todos – ou, pelo menos, muitos de nós – uma imagem mental de irmos envelhecendo rodeados pela família, num ambiente de carinho e respeito, mesmo quem não tem filhos. E até pode ter sido verdade em tempos idos, em que a geração antiga era pouco numerosa e, em muitos casos, a detentora da riqueza, e as mudanças sociais e tecnológicas raras e muito lentas, o que dava grande valor aos seus conhecimentos e experiência.
O problema é que a realidade atual é bem diferente e existe um tremendo fosso entre o que esperamos e o que vivemos, fosso esse que nos impede, muitas vezes, de arranjar soluções alternativas.
Falarei de casais em que pelo menos um “vai para novo” num outro post, neste irei concentrar-me em pessoas viúvas, solteiras ou divorciadas, com ou sem filhos, quer vivam ainda na sua própria casa, em casa de um familiar – normalmente um filho / filha – ou num lar.
Há um elemento comum a todos estes casos, as gerações mais novas pouco tempo têm para passar com a mais antiga, mesmo quando fazem um esforço para o conseguirem. Não nos esqueçamos que há cada vez mais mulheres que trabalham fora de casa e, em compensação, a reforma estende-se agora a quase toda a gente, exceção feita para pessoas de zonas rurais que continuam a fazer agricultura de subsistência até bem tarde.
Ou seja, durante a semana pouco ou nenhum tempo há para estarem juntos e, muito francamente, ao fim de semana querem é aproveitar esse período para umas compras, distrações ou relaxe. O convívio com o idoso acaba por se tornar, aos poucos, uma obrigação e, como quase sempre acontece nestes casos, começa a haver uma certa renitência em cumpri-la, não por má vontade mas porque já não partilham interesses comuns e pouco têm a dizer uns aos outros.
Há ainda os casos também eles cada vez mais frequentes de os familiares mais próximos se encontrarem distantes, noutra zona do país ou até fora dele. E mesmo que o idoso esteja familiarizado com os modernos meios de comunicação é inevitável que o contacto se vá tornando cada vez mais raro e complicado.
O problema é que para muitos dos que “vão para novos” a imagem que mencionei no início é extremamente poderosa, mesmo que não tenham plena consciência disso. E, sobretudo se têm filhos, sentem esse distanciamento progressivo como um ataque pessoal que os pode levar – e leva, frequentemente – a uma profunda depressão.
Daí ouvirmos frequentemente a queixa “a família não quer saber de mim”, “estou para aqui abandonado” e muitas outras, sobretudo por parte de quem vive em lares – é que estes são às vezes entrevistados por diversas razões, mas os que vivem na sua casa sentem o mesmo, embora não os ouçamos a menos que sejam vizinhos ou conhecidos.
Para mim, o grande problema está no conceito de família que se restringe, usualmente, a pessoas com quem temos laços de sangue. Mas, com a cada vez maior longevidade e as mudanças também elas cada vez mais rápidas e abruptas da nossa sociedade, talvez seja altura de repensar essa ideia.
Uma coisa que sempre me fascinou na sociedade americana é o modo como pessoal das Forças Armadas, Bombeiros e Polícia vê os seus colegas – ou parte deles – como “irmãos”, no verdadeiro sentido da palavra. É muito comum referirem-se-lhes como sendo a “sua família”. O que leva a que muitos continuem a passar muito tempo juntos após a reforma, quer sejam ou não casados. Há até lares em que muitos dos utentes estão nesta categoria.
São na sua maioria homens, mas as mulheres também criam os seus grupos “de pedra e cal” a que se sentem muitas vezes mais ligadas do que à sua família biológica e também elas fazem os possíveis para passarem os chamados “anos de ouro” juntas.
Nenhuma destas situações é comum em Portugal, nem mesmo em amizades femininas. Mas talvez seja altura de o ser. É que, muito francamente, essa ideia de que “família há só uma” pode ter resultado em tempos idos mas não é, agora, nem correta nem ideal. E quanto mais depressa a pusermos de parte melhor será para a sanidade mental de quem “vai para novo” ou já lá chegou.
Não estou a dizer que se ponha de parte a família biológica, muito longe disso. Digo apenas que devíamos deixar de estar totalmente dependente dela para nos apoiar e fazer companhia numa idade mais avançada.
E há outra vantagem em alargar este conceito. Ora pensem lá um bocadinho, com quem preferem conversar, com a geração mais nova – ou novíssima – da vossa família ou com amigos do vosso grupo etário (ou quase)? Com quem têm mais em comum, em vivências e conhecimentos?
É claro que essa nova “família” não surge já formada, tem de ir sendo cultivada ao longo do tempo. E quanto mais cedo começarmos melhor será, claro, a ideia é fazermos juntos a caminhada para novos. Mas se esta já vai avançada, não desespere, ainda vai muito a tempo de arranjar um grupinho – ou vários – com quem passar as muitas horas livres de que dispõe agora. Em posts anteriores dei várias sugestões, desde centros de dia a passeios e visitas organizadas, mas cuidado com “amigos” arranjados via internet (ver o post anterior, Fraudes), nem sempre são o que parecem...
Se vive num lar, olhe à sua volta com olhos de ver. É praticamente impossível que não haja ali ninguém com quem possa divertir-se a jogar às cartas, ver TV “comentada”, contar mexericos... Sim, muitas vezes há ali pessoas de que não gostamos ou com quem entramos em choque, mas não acontece o mesmo na nossa família real?
O que nos impede muitas vezes de fazermos isso é a tal ideia arreigada de que com a família é que se está bem e o lar não passa de uma sala de espera onde aguardamos a visita da dita ou uma saída em conjunto. Só que a vida passa à mesma, quer nos divirtamos quer não, e se não fizermos algo para passar bem o tempo... bom, o prejuízo é totalmente nosso.
E há uma vantagem adicional neste conceito de “família” escolhida: é que se estivermos menos dependentes da biológica, estamos mais descontraídos no tempo que com ela passamos, há menos queixumes e amuos, digamos, enfim, somos convivas bem mais apetecíveis e corre tudo, certamente, melhor. Pode até ser que passe a haver mais convívio...
Para a semana: Consultas médicas. Algumas sugestões de melhoria