Ir para novo

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50 - Maus tratos

Ainda é um assunto quase tabu, infelizmente.

De vez em quando ouvimos falar de maus tratos a idosos, quase sempre relacionados com lares. Infelizmente, à semelhança da violência doméstica e da pedofilia, o problema é bem mais vasto e grave do que a meia dúzia de notícias que nos chegam deixam entender.

Não vou sequer falar de algo que está agora muito “na moda”, o ataque a casas isoladas onde só vivem idosos, para, com uma violência que nada justifica, lhes roubarem o pouco que têm. Ressalto, apenas, que têm muito menos tempo de antena do que, por exemplo, queixas que envolvam polícias.

De acordo com a Organização Mundial de Saúde, Portugal é um dos países com maior taxa de violência contra idosos. Curiosamente, quem está sempre a propor o agravamento – ou criação – de penas por maus tratos a animais nada faz em relação a isto. Atenção, sou a favor da penalização de abusos contra animais, mas acho que os idosos merecem, no mínimo, o mesmo tratamento. E o velho argumento de que estão incluídos na legislação geral não pega, pessoalmente acho bem mais grave atacar um idoso do que uma pessoa na pujança da vida, a sua capacidade de defesa é bem menor.

O abuso de idosos abrange vários tipos: físicos, emocionais, financeiros, sexuais, negligência ou até abandono – recordemos os idosos que são hospitalizados e para lá ficam porque os familiares deram uma morada falsa e eles não sabem esses dados.

Quando vêm a lume casos em instituições envolvem, quase sempre, maus tratos físicos ou negligência – como aquela idosa que foi filmada à socapa com feridas abertas e coberta de formigas. O grande problema é que não sabemos, de facto, o que se passa ali no dia-a-dia.

Embora a legislação em vigor não indique um horário de visitas obrigatório, deixando-o ao critério de cada instituição, muitas limitam-no com o pretexto de não causar incómodo ao seu normal funcionamento. Ou seja, os familiares só têm acesso aos seus entes queridos num período curto, ignorando o que se passa fora desse horário.

E não esqueçamos os muitos idosos em lares que nem visitas recebem. Ora não seria altura de criarmos um corpo de fiscais, digamos, que aparecessem a horas não marcadas e vasculhassem tudo para ver o que realmente se passa?

Melhor ainda, que tal o equivalente ao “comprador secreto”? Para quem não conhece, são pessoas contratadas pela direção de uma loja – bom, normalmente cadeias de lojas – para fazerem compras ali e preencherem um relatório sobre o atendimento, pessoal, etc. Ou seja, seriam idosos em bom estado físico e mental que entrariam num lar com o pretexto de uma situação de emergência – ou teriam de esperar imenso por uma vaga – para relatarem, depois, a sua experiência e os problemas que encontraram.

Mas os casos mais frequentes de maus tratos a idosos têm lugar na sua própria casa ou em casa de familiares e às mãos dos seus cuidadores, quer sejam membros da família ou pessoas contratadas para o efeito.

Infelizmente, se no caso da violência doméstica e da pedofilia há uma enorme relutância das vítimas em denunciar os abusos de que são vítimas, a situação é ainda pior no caso de idosos e por diversas razões.

Muitos nem sabem que são vítimas de abusos, quer por diminuição das suas faculdades cognitivas quer por terem sempre vivido num ambiente familiar violento. Outros têm vergonha de falar do assunto, não nos esqueçamos de que para as gerações mais antigas é uma vergonha “lavar a roupa suja” em público. Há ainda quem não saiba a quem recorrer ou como denunciar a situação.

Mas uma das razões mais comuns é o idoso depender do abusador, financeiramente ou em termos de companhia. O seu grande receio é ficar ao desamparo se o abusador lhe for retirado – bom, o mais provável no nosso país é até o idoso ser enviado para um lar e quem o maltratou ficar em paz e sossego...

Há, ainda, o caso cada vez mais comum, de os abusos virem de um neto (ou neta) drogado, que tudo faz para ficar com a parca reforma do avô ou avó ou com os seus bens para manter o seu vício. Numa situação destas, às razões acima indicadas junta-se ainda o facto de ser família e haver todo um sentimento de lealdade que, infelizmente, não se processa nos dois sentidos.

Há muitas razões para os maus tratos a idosos, não irei falar deles, direi apenas que um dos mais comuns quando envolve um familiar ou cuidador é a solidão e isolamento em que ambos vivem. À força de passarem o tempo todo juntos e sozinhos, bom, algo quebra e o elo mais fraco é certamente o menos novo dos dois. Sem esquecer que há idosos de “trato difícil” que fazem a vida negra a quem deles cuida e que são, até, às vezes os autores das agressões...

Muitos casos seriam detetados e remediados se houvesse visitas periódicas – e não anunciadas – a idosos. Já escrevi sobre isso em “E vivam as visitadoras”. Mas até lá, compete-nos a todos estarmos atentos ao que se passa à nossa volta, com familiares idosos com quem não vivemos, vizinhos, pessoas do nosso bairro, enfim, todos os que nos rodeiam.

E embora os casos que são publicitados envolvam sobretudo negligência e maus tratos físicos, há outros dois muito prevalecentes.

Um deles é o abuso emocional, ou seja, insultos, agressões verbais (mais valia morreres, não serves para nada...) e, muito simplesmente, o bullying, de que só se fala quando envolve menores ou pessoas de certos setores sexuais ou étnicos, mas que abrange, infelizmente, todos os escalões sociais e etários.

E há ainda o financeiro, que vai das burlas (de que falarei noutro post), a que os idosos são ainda mais suscetíveis do que o resto da população, à pressão de familiares e curadores para ficarem indevidamente com dinheiro e bens de todo o tipo.

Se quiser ler mais sobre este assunto, aqui fica este artigo, “Prevenir maus tratos a idosos”.

Para concluir, se é vítima ou suspeita que alguém o é, aqui ficam alguns contactos a que pode denunciar a situação.

Associação Portuguesa de Apoio à Vitima: 116 006 (chamada gratuita, dias úteis das 08-22)

Linha Nacional de Emergência Social: 144 (chamada gratuita, 24 horas por dia, sete dias por semana)

Linha do Cidadão Idoso da Provedoria de Justiça: 800 203 531006 (chamada gratuita, dias úteis das 9:30-17:30)

Para a semana: Quedas. Como evitá-las e o que fazer caso aconteçam

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