Não são tão abundantes nem tão variados como nos Estados Unidos, mas os campos de férias para jovens começam a chegar ao nosso país. Não as colónias de férias de outrora, para crianças desfavorecidas, mas lugares pagos (alguns mesmo muito bem pagos!) com inúmeras atividades para os “rebentos”.
E fiquei a pensar... porque não criar campos de férias apenas para quem “vai para novo”?
O grande argumento das tais colónias de férias de antigamente era proporcionar uns dias de praia – sim, eram sempre à beira-mar – a crianças que nunca tinham visto o mar e cujas famílias não tinham dinheiro para lhes proporcionar isso.
Mas... quantos idosos haverá no interior do país que também nunca viram o mar? E quantos do litoral nunca viram uma montanha, neve, floresta, enfim, o que não têm na sua zona? Com a agravante que uma criança pode sempre esperar ver tudo isso quando for crescida, mas, quando se “vai para novo”, as hipóteses de o conseguir fazer vão-se reduzindo cada vez mais.
E já nem sequer há aquelas semaninhas nas termas que os médicos costumavam receitar para tudo e mais alguma coisa...
Proponho, pois, proporcionar uns dias num ambiente diferente a todos os que tenham passado uma determinada barreira etária. Sim, sei que há paróquias e juntas de freguesia que tentam organizar uns passeios, mas não são para todos, nem em termos de custos nem de tipo de distração, e a minha ideia é criar algo acessível a toda a gente – mais adiante direi como – e abrangendo vários dias, não sendo, pois, uma simples excursão de um dia.
Se costuma passear muito e ver coisas, parabéns, não precisa disto, embora possa querer fazê-lo pela companhia e pelo convívio. Mas a ideia base é destiná-los a quem nunca sai da sua terrinha, mesmo que a dita seja Lisboa ou Porto – sim, há muito boa gente que da grande cidade em que vive pouco mais conhece do que o bairro onde sempre viveu, mas isso é assunto para um outro post.
Não me refiro, necessariamente, a ter estes “campos de férias” durante o verão. Mesmo que sejam uns dias na praia, não me parece que seja a melhor altura, atendendo a quem se destinam. Para além de estar tudo cheio com pessoal em férias e turistas, o calor pode ser muito desagradável para quem já tem uns aninhos. Não, há épocas melhores (e menos cheias) para esta atividade, com a vantagem acrescida de que poderiam ajudar regiões e povoações que passam algumas dificuldades fora da época turística e / ou da vinda dos nossos emigrantes.
Os locais seriam escolhidos a pensar nas pessoas específicas que iriam frequentar esse “campo de férias”, nomeadamente se são ativas ou se precisam de acompanhamento especial. Seriam também selecionados de modo a poderem proporcionar o máximo de experiências diferentes a este grupo etário. Ou seja, seria literalmente “levar a ver o mar” a quem nunca o viu e mostrar o interior aos que só conhecem a costa. E não só.
Mas atenção, não seria simplesmente levar as pessoas para um hotel, pensão ou o que fosse e deixá-las lá. Além de passeios na zona haveria, também, outras atividades mais relaxantes, digamos. E, acima de tudo, fazer uma tentativa muito a sério para que os vários elementos do grupo convivam e criem laços. Podem não durar para além deste período, mas para muitos pode muito bem ser a primeira vez que contactam estranhos, pode ser a primeira brecha no espesso muro de solidão em que vivem.
E, quem sabe? Pode muito bem ser um primeiro passo para passarem a sair e a conviver mais, o que é sempre desejável ou para a criação de um grupo que se mantenha para lá deste período, com todas as vantagens que isso traz.
Sei que estão a pensar, pois, isso é tudo muito bonito, mas, quem paga?
Bom, há várias soluções.
Primeiro, os que possam pagar, pagam, claro, na totalidade ou em parte. É que não fazer coisas, não sair de casa, não conhecer nada não são apanágios únicos de quem tem fracos recursos. Não, há muito boa gente com boas reformas e que está nessa situação pelos mais variados motivos. Muitos passaram a vida a trabalhar e isso de ir viajar ou, no mínimo, passear nas férias é uma “modernice” de que nunca desfrutaram. E quando, finalmente, passam a ter disponibilidade total do seu tempo por estarem reformados, bom, não fazem a menor ideia de como começar – especialmente se enviuvaram e não têm filhos fora da sua terra que possam ir visitar.
Quanto a quem não pode pagar, pois bem, que tal reservar uma pequenina percentagem das taxas turísticas que grassam por aí para criar um fundo que ajudasse a financiar estas atividades? As nacionais iriam para um fundo único de apoio a residentes de pequenas vilas e aldeias, as das cidades iriam para fundos próprios destinados a proporcionar bons momentos a quem ali vive.
Francamente, de todos os fins a que esse dinheiro possa ser destinado não imagino nenhum mais útil do que proporcionar recordações inesquecíveis e únicas a quem nunca teve possibilidades de as criar!
Para a semana: Viajar é preciso... Mas muitos receiam começar a fazê-lo a partir de uma certa idade.