Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

27 - Combater a solidão

A propósito do que se passa em França e não só.

Sejamos sinceros, muitos idosos, senão mesmo a maioria, padecem de solidão. É um mal relativamente recente e de que muito se fala mas, como em muitos outros assuntos respeitantes a “quem vai para novo”, nunca, ou muito raramente, para propor soluções.

Também não as tenho, até porque cada caso é um caso e o que seria ideal para uma pessoa seria péssimo para outra.

Disse “mal relativamente recente” e sim, é um facto. Até há uns anos, as pessoas tinham tendência a ficar na terra onde nasciam, ou seja, pertinho da sua família, quando não se tinha até a chamada família alargada, em que casais mais jovens partilhavam a casa com os respetivos pais, sobretudo se um deles era viúvo. Mas mesmo em casas separadas havia sempre bastante contacto entre as gerações.

No mundo atual, a diáspora é quase a regra e, muitas vezes, nem se trata de os filhos estarem noutra terra, estão até noutro país. Este fenómeno tem sido acompanhado recentemente por novos modos de comunicar, que encurtam muito as distâncias. Mas nem sempre estão ao alcance das antigas gerações, com pouca vontade, conhecimentos ou ambos para deles tirarem proveito. E os mais novos nem sempre têm a paciência ou o cuidado necessários para lhes abrir esse novo mundo.

Dirão, e com toda a razão, que por muito contacto à distância que haja isso não substitui uma companhia presencial. Mas ajuda um pouco.

Como último comentário, direi ainda que há uma certa confusão entre as expressões “estar sozinho” e sofrer de solidão”, não são sinónimos, como verão pelo que se segue.

Uma das piores coisas que podemos fazer se, por razões diversas, nos vemos sozinhos é entrar numa espiral de autocomiseração. Ou seja, remoer a toda a hora pensamentos tipo “ninguém quer saber de mim”, “estou para aqui só depois de uma vida a cuidar dos outros”, “posso cair para o lado a qualquer momento e ninguém saberá”...

Para além de improdutivos, têm o muito indesejável resultado de piorarem o estado de espírito de quem os pensa. Sim, é inevitável passar por momentos menos bons, em que se sente pesadamente o isolamento, mas, em vez de nos deixarmos ficar nisso devemos, isso sim, fazer um esforço consciente para sair desse fosso.

Se não têm problemas maiores de mobilidade, não se deixem ficar em casa o tempo todo, façam um esforço por sair, se não todos os dias – a solução ideal – mas pelo menos duas a três vezes por semana.

Não estou a falar de grandes “viagens”, uma simples volta ao quarteirão já ajuda a limpar as teias de aranha mentais. Se, por acaso, há algum jardim ou parque perto de onde vivem, que tal irem até lá passar algum tempinho? Para além da distração, exercício e ar livre, se for sempre mais ou menos à mesma hora verá, certamente, caras repetidas. E, quem sabe, poderão, até começar a conversar um pouco, quanto mais não seja o usual bom dia, boa tarde. Acreditem, muitos desses “clientes” usuais são-no precisamente porque não têm muito com quem conviver...

Se há um café na zona – e, francamente, estão por todo o lado – tornem-se clientes frequentes. Mas não a horas de grande movimento, quando passariam despercebido no meio da multidão. Indo a horas mais vazias, em breve terão o prazer de o empregado saber o que tomam, sobretudo se for um estabelecimento pequeno.

Façam o mesmo no supermercado mais próximo, vão a horas de menos movimento e sejam simpáticos com o pessoal. É claro que não me refiro a uma grande superfície, aí há sempre demasiados clientes e demasiados funcionários.

Nesta fase, sei que já estão a pensar, mas o que é que isto tudo tem a ver com combater a solidão? Nada, se a única ideia é criar amizades. Tudo, se procuram algum contacto humano, sentirem que não estão sós no mundo. E. acreditem, ser reconhecido por um empregado de café, supermercado ou farmácia dá mesmo uma sensação de inserção, de pertencer ao mundo.

Como já disse em posts anteriores, faça questão de cumprimentar sempre os outros residentes do seu prédio, caso se cruze com eles – pode até forçar um bocadinho esses encontros casuais... Quem sabe se ao fim de algum tempo isso não leva a pequenas conversas e troca de informações?

A grande questão é que não podemos ficar quietos em casa à espera que o mundo venha bater à nossa porta. Garanto-vos, nunca irá acontecer! Bom, a menos que se viva numa daquelas zonas em que há programas em que Polícia ou GNR fazem a ronda de idosos para verem se está tudo bem...

Mas, com essa exceção, se não sairmos de casa, se não formos a locais, se não procurarmos ativamente contactos, bom, então nunca sairemos da nossa solidão e isolamento.

Há ainda a Internet e a possibilidade de fazer amigos por esse meio. Sim, sei que é bem possível, mas quero deixar aqui uma palavra de aviso. Cuidado! Sim, não revelem demasiado sobre vós ou as circunstâncias em que vivem. Nunca, mas mesmo nunca deem informações sensíveis – lembrem-se sempre da velha expressão, infelizmente bem verdadeira, “na Internet ninguém sabe quem és”.

É que a pessoa com quem estão em contacto pode ser genuína, mas também pode não o ser. Por isso, vão devagar. E se houver um pedido de dinheiro ou de ajuda de algum tipo, bom, é um sinal de alarme. Pensem, o que diriam se um estranho que viram por acaso algumas vezes no café onde vão se sentasse um dia à vossa mesa e vos pedisse um empréstimo chorudo? Pois bem, é exatamente a mesma coisa.

Não mencionei Centros de Dia, Centros Paroquiais ou similares, uma vez que falei deles noutro post. Mas sei que muitas Paróquias organizam excursões para gente de certa idade da zona, ora aí está uma boa oportunidade de convívio – e de distração. E há aulas, concertos, enfim, várias atividades locais em que, se calhar, até nem nunca repararam. O calibre poderá não ser do melhor, mas são, sem dúvida, uma boa ocasião para contacto humano.

Lembrem-se, estar só nem sempre é, nem devia ser, sinónimo de viver em solidão!

Para a semana: Falemos da reforma. A propósito do que se passa em França e não só.

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