Somos um país muito sui generis em vários aspetos e um dos que mais se destaca é o da habitação. Todos sabemos das dificuldades existentes para alugar uma casa com uma renda razoável e em boas condições de habitabilidade, por razões que não cabem no âmbito deste post. A consequência mais flagrante é que o nosso mercado imobiliário difere, e de que maneira, do de muitos outros países, dentro e fora da Europa.
Sendo assim, pessoas ainda jovens acabam por tentar comprar logo uma casa mais ampla, a pensar na futura família, e onde ficam até à morte – ou até à ida para um lar.
Ora por muito apegados que estejamos ao conceito da “minha casinha” somos forçados a reconhecer que, a partir de uma certa idade, não é a solução ideal. Mas, infelizmente, a alternativa é um lar, solução que não agrada a quase ninguém e, muito francamente, há boas razões para isso.
Pois bem, está na altura de pensar em alternativas para o tão badalado envelhecimento da população. Sem esquecer que os não novos de agora e, sobretudo, os que “estão a ir para novos” são pessoas bem diferentes dos da mesma idade de há uns anos, com mais saúde, muito melhor forma física, melhor nível educacional – importante para manter ou ter atividades – e mais conhecedores das novas tecnologias. Ou seja, não são os “velhinhos, coitadinhos” tão do apreço dos nossos “bem pensantes.
Vou, pois, apresentar aqui algumas soluções.
A primeira, é a aldeia para seniores, também chamada aldeia social. Já há dois exemplos em Portugal, um em Águeda e o outro em Portimão. Basicamente, são formadas por casas pequenas, T0 ou T1 para casais ou pessoas individuais, havendo depois uma casa comum, digamos, com cozinha, sala de convívio, etc. para todos os residentes.
O movimento nasceu nos Estados Unidos e tem alastrado mundo fora. Lá, são autênticas estâncias, com todo o tipo de pessoal e assistência. Aqui, optou-se por construí-la perto de um centro de assistência para poder usufruir do seu apoio social e médico, com menores custos para os residentes.
A grande vantagem é que as pessoas que ali estão têm a privacidade da sua própria casa, mas não estão sozinhas, podem conviver com os outros residentes – em geral há a regra da obrigatoriedade de uma refeição em comum todas as semanas – e têm apoios. Há serviço de limpeza e lavagem de roupa, acesso a transportes, etc. Mais ainda, a sua implantação num terreno amplo permite que haja pequenas hortas e / ou jardins para os residentes, para que possam ter alguma atividade física e um passatempo.
Espantosamente, ou talvez não, a Segurança Social não comparticipa estes projetos!
Outra solução, de que ainda não há exemplos em Portugal (pelo menos não encontrei nenhum), é o chamado cohousing. Basicamente, é similar às aldeias seniores, mas não se reduz a estes, pode integrar gente mais nova. Mais ainda, o conceito surgiu na Dinamarca num cenário urbano. Basicamente, falamos de casas / habitações mais pequenas e adaptadas a não muito novos e toda uma gama de instalações e pessoal comunitário. Já há uma associação em Portugal que tenta promover este conceito, a Hac.Ora. Mas há dificuldades, sobretudo porque não existe uma figura legal para este conceito.
Temos, depois, os chamados apartamentos assistidos. São, basicamente, T1 feitos a pensar em idosos que querem manter a sua independência mas que sabem que precisam de algum apoio. O principal nestes locais é a vigilância 24 horas por dia – o célebre botão de pânico – e acesso a serviços médicos, de fisioterapia e outros. Ou seja, habitações mais pequenas e fáceis de manter ligadas a serviços comuns a todas elas, incluindo limpeza, tratamento da roupa, refeições, etc., há uma vasta gama de ofertas noutros países, das mais “pobrezinhas” a verdadeiros condomínios de luxo.
Em 2018 surgiu a notícia de que a Misericórdia de Vale de Cambra ia construir 18 destes apartamentos. Mas não encontro relatos sobre se foram ou não concretizados.
E passemos a algo que eu acho que seria muito importante, chamemos-lhe, à falta de melhor, habitação mista. Podia ser implementada em novos bairros sociais, por exemplo, ou em prédios para outros níveis económicos.
Basicamente, os dois ou três primeiros andares (consoante a altura do prédio) seriam ocupados por apartamentos T1 ou T0 (ou um misto) destinados a seniores e totalmente adaptados a eles – botões de pânico, nada de banheira, kitchenette funcional...
Depois haveria mais um ou dois andares que funcionariam como lar universitário. Os estudantes só lhe teriam acesso a troco de convívio e cuidados básicos de assistência aos idosos do prédio, como ajudar com compras, com chamadas Zoom para a família, preenchimento de papeladas, etc.
Se fosse num bairro social, o resto do prédio seria ocupado por famílias ou pais solteiros com crianças pequenas – mas teriam de estar a trabalhar ou a fazer um esforço real para melhorar as suas capacidades e arranjar trabalho. O mesmo se aplica, clado, em prédios que pertençam a uma Câmara, por exemplo.
O último andar seria a zona social do prédio. Cozinha comunitária para quem a quisesse usar, sala de refeições, sala de convívio e outras instalações de lazer, como um ginásio, por exemplo.
E, se o prédio fosse realmente muito grande, o penúltimo andar seria um misto de centro de dia para idosos e creche / ATL para os filhos dos moradores, sim, ligados, para haver convívio. Ou, então, esse tipo de instalações seria colocada a cada dois ou três prédios.
Sei que irão dizer que seria difícil planear e construir um prédio com tantas diferenças entre andares... Pois bem, aí está um bom tema para um concurso de arquitetos! E não só para construção de raiz, podia ser também a adaptação de edifícios já existentes!
Este projeto teria a enorme vantagem de dar segurança e mais facilidade de vida a idosos, mas mantendo e promovendo algo que falta cada vez mais na nossa sociedade: o convívio e entreajuda entre gerações. É que o que vemos é que os moradores de um prédio tendem a ser mais ou menos da mesma faixa etária, que vai envelhecendo e isolando-se à medida que os anos passam.
Seja como for, temos de abandonar o atual paradigma de vida para idosos que se resume muito simplesmente a isto: a casa onde sempre viveram e que se tornou totalmente inadequada ou um lar, se conseguirem arranjar um de jeito. E essa mudança tem de passar também pela Segurança Social, que terá de estar aberta a novas opções e ideias.
Os que vão para novos do nosso país merecem-no!
Para a semana: Viver bem o inverno. Algumas dicas para um inverno mais confortável e alegre.