Atendendo a este ser um post com um número marcante, aliado a uma semana de muito trabalho e sem tempo para a pesquisa que precisava de fazer, decidi alterar o tema para falar de algo que já tenho referido várias vezes mas que considero importantíssimo para toda a gente e, acima de tudo, para quem vai para novo: aproveitar a vida.
Começo por dizer que, para mim, isso não significa preencher todos os instantes da nossa existência com trabalho, atividades, distrações. Há muitos que o fazem, mas mesmo assim não aproveitam a sua existência, sempre numa correria, sempre a pensarem no que irão fazer a seguir ou a verem se ainda podem enfiar mais alguma coisinha nas suas mais do que preenchidas horas. São, no fundo, a personificação humana do célebre conceito “a natureza tem horror ao vazio”.
Não, sempre achei que se pode ter uma vida muito sossegada, aborrecida, até, quando vista de fora, mas vivida em pleno, aproveitando e saboreando todos os seus momentos. É um daqueles casos em que grande quantidade não significa qualidade.
Há, também, o caso oposto em que se passa pela vida em “piloto automático”, executando tarefas e rotinas sem lhes prestar a menor atenção. Penso que isto contribui, de certo modo, para a dificuldade com que muitos enfrentam a reforma, quando todo o sistema rui e veem-se, de repente, sem nada para fazer e sem a capacidade para adotar, rapidamente, novos hábitos. Ou seja, quando passam da lufa-lufa diária para o tal “vazio”.
Isto para além do ainda muito popular, “para os anos que me restam, não vale a pena” e que leva muito boa gente a recusar-se a desfrutar de novas experiências e aprendizagens. O pior é que, como indiquei num post anterior, o tempo passa à mesma, quer o aproveitemos ou não, e, pior ainda, a menos que se seja vidente ninguém sabe quanto são, de facto, os tais anos que restam.
No fundo, somos todos culpados de, parafraseando Simon e Garfunkel e o seu maravilhoso “Sound of Silence”, de ouvir sem escutar, de olhar sem ver – e se queremos desfrutar da nossa existência, então temos de inverter isso e o mais depressa possível.
Mas como aproveitar a vida ao máximo? Bom, no fundo, é até muito simples, basta prestar atenção ao que fazemos, por muito rotineiro que seja, e ao que nos rodeia. Por exemplo, se costuma ir às compras num local perto de si, faça um esforço deliberado para reparar em pelo menos uma coisa durante o percurso, em vez de ir embrenhado nos seus pensamentos ou, até, de espírito vazio e sem ver nada do que o circunda. O mesmo quando faz a lida de casa, foque-se em alguma coisa todos os dias, por muito pequena que seja – aposto que há objetos em que não repara há anos...
Se está a ver um programa de televisão ou a ouvir rádio, preste-lhes uma atenção total durante pelo menos alguns minutos. Ao comer, não se limite a fazê-lo enquanto pensa noutra coisa ou vê televisão, analise cores, texturas, cheiros, enfim, repare no que come.
Basicamente, a ideia é abrandar as nossas vidas – e sim, sei que muitos longevos se queixam, precisamente, de terem vidas demasiado pacatas em que nada acontece. E se estão à espera de grandes eventos, então até têm razão. Só que estes são raros para a maioria dos mortais, o truque está, pois, em tirar o melhor partido possível do que temos na nossa vida.
E aqui os longevos têm uma grande vantagem. Tendo deixado para trás a sua vida laboral e com uma vida familiar mais simplificada – refiro-me a filhos pequenos ou adolescentes – podem dedicar-se à vontade a saborear o prazer de estarem vivos. Já agora, se é dos que estão sempre com queixas tipo, “estou para aqui feito inútil”, bom, porque não arranjar algo em que se ocupar?
E que tal voltar aos chamados prazeres simples da vida? Há quanto tempo não vê, com olhos de ver, um pôr-do-sol, uma noite de Lua Cheia? Ou o efeito do sol no mar, num rio? O prazer de sentir uma aragem num dia quente? O som da chuva, quando se está no aconchego de casa? Ou, muito simplesmente, passar uns momentos a olhar pela janela o que se passa na sua rua, um “passatempo” muito praticado antigamente...
É claro que se tem condições físicas e financeiras para viajar, sair, ver coisas, deixe-se de hesitações com base na sua idade. Há cada vez mais pessoas de 70, 80 anos a viajar, quer acompanhadas quer sozinhas – no Facebook não faltam grupos dedicados a viagens em que descobrimos inúmeros casos desses, inclusive mulheres que só o começaram a fazer já depois dos 70.
Esqueça, pois, a sua idade e o também muito célebre “o que dirão”, olhe, sim, para as suas capacidades. Esprema a vida com todas as suas forças. Mas atenção, não viaje apenas para poder dizer que o fez, dedique-se ao que faz e vê, desfrute ao máximo dessa experiência.
Esta última parte poderá parecer contradizer tudo o que disse acima, mas há algo de que desfrutamos cada vez menos no mundo atual: o silêncio. Quantas vezes ligamos a televisão ou o rádio para termos companhia, isto depois de uma vida rodeados de pessoas, conversas e ruído. Escolha uma hora com pouco, ou nenhum, ruído ambiente, sente-se confortavelmente, feche os olhos e deixe-se embalar pelo silêncio envolvente. Acredite, é extremamente relaxante, apesar de poder ser um pouco difícil de início, por falta de hábito, e uma experiência nova que poderá ser muito reveladora.
Como último detalhe, se lê inglês, escrevi um livrinho precisamente sobre isto chamado Don’t Sleepwalk through life (Não passe pela vida como um sonâmbulo). Se tem Kindle Unlimited é grátis aqui. E há a versão impressa. Já agora, por razões que desconheço, está indicado como sendo para a faixa etária dos 16 aos 18 anos... não é.
Para a semana: É oficial, este país não é para idosos. O uso e abuso de coisas feitas online e não só.