Neste post irei falar do modo como vemos dois bens dos nossos longevos: o seu tempo e a sua parte financeira. Comecemos pelo primeiro.
Existe a ideia generalizada de que os longevos, precisamente porque não têm uma ocupação fixa, estão sempre disponíveis para ajudar os filhos no que diz respeito a cuidar dos netos. E isso é, em muitos casos, uma necessidade bem real, quer pela falta de creches e infantários a preços acessíveis quer por horários escolares pouco compatíveis com as profissões dos pais – sem esquecer as greves, claro!
E acho ótimo, até pelo convívio entre gerações, desde que isso não signifique o “apagar” da vida privada desses avós e não só.
Comecemos pela decisão de deixar os filhos umas horas por dia em casa dos avós. A primeira pergunta a fazer é, chegou-se a um acordo mútuo? Ou partiu-se, muito simplesmente, do princípio de que, com tantas horas vagas, os ditos avós o fariam automaticamente por nada mais terem com que se ocuparem? Pior ainda, que é essa a sua obrigação?
Acho que isso é inverter as coisas. É que por muito que esses avós gostem de estar com os netos, fazê-lo quase por imposição e sem sequer serem consultados é um abuso. Mais ainda, há cada vez mais longevos com planos para a sua reforma, desde atividades a estudos e viagens. Será justo esperar que esqueçam tudo isso só porque os filhos precisam de ajuda?
Em muitos países já está a haver uma rebelião mais ou menos silenciosa contra este tipo de situação e há cada vez mais avós que fazem saber que sim, não se importam de ficar com os netos uma vez por outra, mas com consulta prévia quanto a datas e duração – a menos, claro, que seja uma emergência.
Temos de nos lembrar que esses longevos já criaram crianças, muitos deles enquanto mantinham um emprego exterior, e que anseiam por terem agora tempo para se dedicarem a si mesmos, sobretudo as avós, em vez de continuarem a abdicar de si para servir outros.
Há, também, aqui outro aspeto a ter em conta, a diferença de costumes e de estilos educativos. A teoria prevalecente é a de que são os pais que os ditam, não restando aos avós outra opção exceto calar e cumprir. Mais uma vez, é uma inversão total da situação, com os filhos – e muitas vezes os netos – a darem ordens naquela que é, de facto, a casa dos avós.
Pode-se falar com eles sobre estes assuntos, claro, mas não impor. E se o estilo educativo for contra tudo aquilo em que os pais acreditam, a solução é simples, arranjem outra opção. O que não se pode, de modo algum, é impor as nossas ideias a outros, muito menos na casa deles.
Mais acima disse, “por muito que gostem de estar com os netos”. Pois, isso nem sempre é verdade. Não faltam por aí criancinhas criadas com a ideia peregrina de que dizer-lhes não é uma violência e que, graças a essa ausência total de limites, fazem a vida negra aos avós numa época da sua vida em que o que eles queriam era descanso e tempo para si.
Sim, há muitos longevos com ideias educativas francamente retrógradas ou até contraproducentes, mas são as ideias deles. Podemos tentar mudá-las, pelo menos um pouco, mas não impor-lhes as nossas numa situação em que são eles que estão a fazer um favor.
Resumindo, é altura de pôr de lado a ideia dos “velhinhos, coitadinhos”, sem nada para fazer exceto cuidar dos netos quando isso convém aos pais destes, tendo em mente que há um número cada vez maior a abraçar plenamente a vida, muito provavelmente pela primeira vez na sua já longa existência.
Passemos à segunda parte, a financeira.
Tenho reparado que muitos potenciais herdeiros consideram os bens de um longevo como já sendo seus. Ficam, até, muito indignados quando há despesas com o que consideram luxos e que, muitas vezes até nem o são.
Li, recentemente, que já existe em Portugal algo que conhecia de outros países mas que aqui tem um formato um pouco mais formal. Trata-se de uma agência imobiliária para clientes com mais de 75 anos que querem vender a casa mas continuando a habitá-la até morrerem ou irem para um lar. É claro que o preço de venda é menor do que seria numa venda limpa, digamos, sendo-lhe aplicada uma taxa redutora que depende da idade do proprietário.
A ideia surgiu porque há muitos longevos com uma pensão minúscula, das que exigem escolher entre comida e farmácia, mas que são donos de um andar, muitas vezes degradado, numa zona apetecível. Vendendo-o, mesmo com a tal taxa de redução, passam a auferir de mais rendimentos mensais, sem terem de sair do seu lar. E o que ganha o comprador? Bom, há-os de todos os tipos, desde empresários com um olho no futuro desenvolvimento da zona a pessoas particulares que querem comprar uma casa numa certa zona mas não para a habitarem de imediato.
A questão complica-se quando há herdeiros, estes muitas vezes aceitam muito mal que os pais vendam algo que já viam como seu para poderem ter um fim de vida melhor. Também há o oposto, filhos que contactam a agência porque não podem dar aos pais os cuidados de que estes precisam e com uma venda deste tipo isso passa a ser possível.
A grande questão aqui é que a casa e outros bens de um longevo são propriedade sua, pagos com o seu trabalho. E a ideia de poupar o mais possível nos últimos anos de vida, sem distrações ou pequenos mimos, para poder deixar uma herança a filhos e netos é algo que está a passar de moda em muitos países ocidentais. Aí, poupa-se, isso sim, durante a vida ativa para se poder ter, depois, uns verdadeiros anos de ouro.
Basicamente, ambas as atitudes, quanto ao tempo e ao dinheiro, advêm da mesma ideia básica, a de que a partir de uma certa idade uma pessoa deixa de o ser em pleno, não tendo direito a ter vida própria, ideia demasiadas vezes aceite ou até incentivada pelo próprio longevo.
Felizmente, as coisas começam a mudar.
Para a semana: É oficial, este país não é para idosos. O uso e abuso de coisas feitas online e não só.