Ir para novo

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198 - Ajudar não é apagar-se

A tendência de presumir que os pais idosos têm de estar disponíveis para cuidar de netos, ajudar financeiramente, etc.

Neste post irei falar do modo como vemos dois bens dos nossos longevos: o seu tempo e a sua parte financeira. Comecemos pelo primeiro.

Existe a ideia generalizada de que os longevos, precisamente porque não têm uma ocupação fixa, estão sempre disponíveis para ajudar os filhos no que diz respeito a cuidar dos netos. E isso é, em muitos casos, uma necessidade bem real, quer pela falta de creches e infantários a preços acessíveis quer por horários escolares pouco compatíveis com as profissões dos pais – sem esquecer as greves, claro!

E acho ótimo, até pelo convívio entre gerações, desde que isso não signifique o “apagar” da vida privada desses avós e não só.

Comecemos pela decisão de deixar os filhos umas horas por dia em casa dos avós. A primeira pergunta a fazer é, chegou-se a um acordo mútuo? Ou partiu-se, muito simplesmente, do princípio de que, com tantas horas vagas, os ditos avós o fariam automaticamente por nada mais terem com que se ocuparem? Pior ainda, que é essa a sua obrigação?

Acho que isso é inverter as coisas. É que por muito que esses avós gostem de estar com os netos, fazê-lo quase por imposição e sem sequer serem consultados é um abuso. Mais ainda, há cada vez mais longevos com planos para a sua reforma, desde atividades a estudos e viagens. Será justo esperar que esqueçam tudo isso só porque os filhos precisam de ajuda?

Em muitos países já está a haver uma rebelião mais ou menos silenciosa contra este tipo de situação e há cada vez mais avós que fazem saber que sim, não se importam de ficar com os netos uma vez por outra, mas com consulta prévia quanto a datas e duração – a menos, claro, que seja uma emergência.

Temos de nos lembrar que esses longevos já criaram crianças, muitos deles enquanto mantinham um emprego exterior, e que anseiam por terem agora tempo para se dedicarem a si mesmos, sobretudo as avós, em vez de continuarem a abdicar de si para servir outros.

Há, também, aqui outro aspeto a ter em conta, a diferença de costumes e de estilos educativos. A teoria prevalecente é a de que são os pais que os ditam, não restando aos avós outra opção exceto calar e cumprir. Mais uma vez, é uma inversão total da situação, com os filhos – e muitas vezes os netos – a darem ordens naquela que é, de facto, a casa dos avós.

Pode-se falar com eles sobre estes assuntos, claro, mas não impor. E se o estilo educativo for contra tudo aquilo em que os pais acreditam, a solução é simples, arranjem outra opção. O que não se pode, de modo algum, é impor as nossas ideias a outros, muito menos na casa deles.

Mais acima disse, “por muito que gostem de estar com os netos”. Pois, isso nem sempre é verdade. Não faltam por aí criancinhas criadas com a ideia peregrina de que dizer-lhes não é uma violência e que, graças a essa ausência total de limites, fazem a vida negra aos avós numa época da sua vida em que o que eles queriam era descanso e tempo para si.

Sim, há muitos longevos com ideias educativas francamente retrógradas ou até contraproducentes, mas são as ideias deles. Podemos tentar mudá-las, pelo menos um pouco, mas não impor-lhes as nossas numa situação em que são eles que estão a fazer um favor.

Resumindo, é altura de pôr de lado a ideia dos “velhinhos, coitadinhos”, sem nada para fazer exceto cuidar dos netos quando isso convém aos pais destes, tendo em mente que há um número cada vez maior a abraçar plenamente a vida, muito provavelmente pela primeira vez na sua já longa existência.

Passemos à segunda parte, a financeira.

Tenho reparado que muitos potenciais herdeiros consideram os bens de um longevo como já sendo seus. Ficam, até, muito indignados quando há despesas com o que consideram luxos e que, muitas vezes até nem o são.

Li, recentemente, que já existe em Portugal algo que conhecia de outros países mas que aqui tem um formato um pouco mais formal. Trata-se de uma agência imobiliária para clientes com mais de 75 anos que querem vender a casa mas continuando a habitá-la até morrerem ou irem para um lar. É claro que o preço de venda é menor do que seria numa venda limpa, digamos, sendo-lhe aplicada uma taxa redutora que depende da idade do proprietário.

A ideia surgiu porque há muitos longevos com uma pensão minúscula, das que exigem escolher entre comida e farmácia, mas que são donos de um andar, muitas vezes degradado, numa zona apetecível. Vendendo-o, mesmo com a tal taxa de redução, passam a auferir de mais rendimentos mensais, sem terem de sair do seu lar. E o que ganha o comprador? Bom, há-os de todos os tipos, desde empresários com um olho no futuro desenvolvimento da zona a pessoas particulares que querem comprar uma casa numa certa zona mas não para a habitarem de imediato.

A questão complica-se quando há herdeiros, estes muitas vezes aceitam muito mal que os pais vendam algo que já viam como seu para poderem ter um fim de vida melhor. Também há o oposto, filhos que contactam a agência porque não podem dar aos pais os cuidados de que estes precisam e com uma venda deste tipo isso passa a ser possível.

A grande questão aqui é que a casa e outros bens de um longevo são propriedade sua, pagos com o seu trabalho. E a ideia de poupar o mais possível nos últimos anos de vida, sem distrações ou pequenos mimos, para poder deixar uma herança a filhos e netos é algo que está a passar de moda em muitos países ocidentais. Aí, poupa-se, isso sim, durante a vida ativa para se poder ter, depois, uns verdadeiros anos de ouro.

Basicamente, ambas as atitudes, quanto ao tempo e ao dinheiro, advêm da mesma ideia básica, a de que a partir de uma certa idade uma pessoa deixa de o ser em pleno, não tendo direito a ter vida própria, ideia demasiadas vezes aceite ou até incentivada pelo próprio longevo.

Felizmente, as coisas começam a mudar.

Para a semana: É oficial, este país não é para idosos. O uso e abuso de coisas feitas online e não só.

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