Com a discussão da lei laboral voltou a falar-se bastante da atual idade da reforma, sobretudo este ano em que vai aumentar um niquinho. Há quem a queira aumentar a um ritmo bem mais rápido do que o atual, mas há também quem afirme que devia baixar para os 60 anos. Sei que o que direi aqui não vai agradar a todos – ou a ninguém – mas é a minha opinião e lembro que já tenho 73 anos e ainda sou trabalhadora independente.
Poderá espantar muita gente, mas o conceito atual de “idade da reforma” só surgiu depois de 1975. Antes disso existia apenas para funcionários públicos e outros regimes profissionais que tinham acesso a uma pensão. Pior ainda, com uma esperança média de vida de 64,8 % - 60,7 % para os homens – e uma idade da reforma, para quem a tinha, de 65 anos, poucos chegavam a gozá-la. E, mesmo atualmente, não existe no setor privado com o mesmo grau de obrigatoriedade do setor público. Isto sem falar dos cada vez mais numerosos trabalhadores por conta própria que, às vezes, nem se chegam a reformar – e não necessariamente por razões económicas – e das muitas microempresas (mais de 300 000) em que o “patrão” é muitas vezes o único funcionário.
Ou seja, quando se fala dos problemas da Segurança Social – de que as pensões constituem cerca de 64 % das despesas – e se atribuem todos ao tão badalado envelhecimento da população, esta é, no mínimo, uma análise pela rama uma vez que as pensões são agora universais no nosso país. Ou seja, abrangem muito, mas mesmo muito mais pessoas do que quando surgiram. E há ainda as muitas outras despesas ali incluídas, sobretudo com a tendência de arranjar cada vez mais apoios e subsídios de todos os tipos – como o famigerado RSI – de que não se vê o retorno em muitos casos, nem sequer naquilo que é suposto fazerem.
Mas, para mim, não se devia reduzir esta questão ao seu aspeto financeiro, apesar de este ser importante. Olhando para os atuais longevos, vemos que, com a atual esperança de vida de 81,5 anos, e a aumentar, vive-se muito tempo depois da reforma – que é agora aos 66 anos e 1 mês, fora as muitas reformas antecipadas, claro está. Ou seja, mais de 15 anos. Somando-lhes os 19 que são a idade média de entrada no mercado de trabalho, temos, em média, 47 anos de trabalho e 34 antes e depois, com uma forta tendência para o primeiro valor diminuir e o segundo baixar – aproximamo-nos rapidamente da igualdade entre esses números.
É claro que a tendência para aumentar a idade da reforma está a alastrar um pouco por todo o lado – embora, curiosamente, ainda haja países onde as mulheres se reformam mais cedo, isto apesar da sua esperança média de vida ser maior – havendo previsões de que possa chegar aos 74 anos até 2060. Pois, imagino a indignação geral, mas qual será, então a esperança média de vida, mais ainda, de uma vida em boa forma física e intelectual?
Para mim, a grande questão estaria em revisitar a ideia de reforma. O Japão, por exemplo, um país conhecido pela longevidade e boa saúde da sua população, criou o sistema de reforma flexível, em que as pessoas se podem manter a trabalhar até aos 75 anos. Mais ainda, as empresas são encorajadas a reempregar os seus funcionários com mais de 60 anos, muitas vezes com novas funções mais adaptadas à sua idade.
E, muito francamente, esse deveria ser o futuro, acabar com uma idade da reforma rígida e substituí-la por um limiar de idade a partir do qual a pessoa poderia reformar-se, se assim o entendesse – por muito que o digam não somos todos iguais e os nossos empregos também não, há quem adore o seu e prefira mantê-lo em vez de ser forçado a ficar inativo.
Uma outra hipótese, que poderia ser complementar, consistiria em “reciclar” as pessoas acima de uma certa idade para executarem outras tarefas, ou até as mesmas de um outro modo. Dei, anteriormente, o exemplo de médicos reformados, cirurgiões, por exemplo, que poderiam, caso o desejassem, receber formação para clínica geral de pessoas mais idosas, com consultas mais longas do que as atuais – como expliquei na altura, muitos dos utentes têm uma certa dificuldade em exprimir o que sentem e sentem-se mais à vontade com alguém de mais idade e tempo para os ouvir.
Bem sei que muitos dizem ansiar pela reforma, o problema é que, como tenho dito em vários posts deste blogue, não estão minimamente preparados para ela, ou seja, para a ausência de horários e ocupações obrigatórias, acabando por ficar totalmente à deriva.
Pois bem, a Alemanha tem um sistema de passagem gradual à reforma nos últimos anos de vida ativa. Ou seja, passa-se de uma semana de 35 horas para uma de 28, permitindo, assim, ao trabalhador ir-se habituando a ter mais tempo livre. Mais ainda, há isenção de parte dos impostos para quem continue a trabalhar depois da idade da reforma.
E que tal criar empregos a tempo parcial destinados a pessoas já reformadas ou, pelo menos, acima de uma certa idade? Ao contrário da ideia subjacente à luta pela baixa da idade da reforma, essas pessoas têm muito para dar à sociedade e não deviam ser postas de lado com o pretexto de que “merecem descansar” depois de anos a trabalharem. É claro que quando se fala em aumentar a idade da reforma, citam sempre o exemplo de profissões como camionista e outras fisicamente exigentes, mas quem diz que essas pessoas não podem receber formação para outra atividade que puxe menos por elas?
Mais ainda, quantos de nós enveredamos por uma atividade por ser a única a que tínhamos acesso ou por razões financeiras quando queríamos outra, menos prática? Pois bem se não fizermos a mudança aquando da reforma, quando a faremos? Não nos devia ser dada essa possibilidade?
Repito, não somos todos iguais e se há aqueles para quem anos de lazer total são atraentes, há também bastantes que prefeririam continuar a sentirem-se úteis.
Para a semana: Voltemos à alimentação. Com a chegada do bom tempo, algumas sugestões para comer bem e sem muito trabalho.