Ir para novo

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188 - Falemos da Páscoa

Aproxima-se o Domingo de Páscoa e aproveito para fazer um post mais levezinho, ou antes, um bocadinho mais filosófico. É claro que num país como o nosso, com uma forte tradição cristão, a Páscoa está associada à Ressurreição de Cristo, sendo, pois, a festa mais importante do calendário religioso – ou a chocolate e outras guloseimas para muito boa gente... Mas é uma celebração muito mais antiga do que o cristianismo.

Os povos europeus pagãos festejavam por esta altura, mais precisamente no equinócio da primavera (20 de março), o fim do inverno. As celebrações estavam associadas à deusa germânica Eostern – que deu origem ao termo inglês para a Páscoa, “Easter” e celebravam, claro, a fertilidade.

Para o judaísmo, a festa de Pesach – uma palavra que significa passagem – celebrava a libertação do povo hebreu do Egito, liderado por Moisés, após a décima praga. Lembro que Jesus se deslocou a Jerusalém precisamente para esta festa, cujo nome deu a nossa Páscoa, tendo sido então preso e cruficicado.

Quanto à Páscoa cristã, simboliza a vitória sobre a morte e a libertação do pecado graças à morte e ressurreição de Cristo.

Fiz esta longa introdução para realçar o facto de que, nas suas várias vertentes, esta data celebra uma transição, uma mudança. Mais ainda, a passagem de um estado de coisas mais sombrio a algo mais alegre e promissor: do frio e escuridão do inverno para o calor e luz da primavera, da escravidão para uma vida livre e do pecado para a redenção.

E é precisamente aí que eu quero chegar. Nas nossas sociedades, as transições do nosso estatuto como seres humanos ao longo da vida pouco ou nada são celebradas e, quando o são, referem-se apenas a passagens ao estado adulto – por exemplo, os 16 anos nos EUA e os 15 na América Latina, só para as raparigas (pois, é a idade do consentimento para casarem), o bar mitzah no judaísmo... E, em muitos países, os 18 anos são marcantes como sendo a idade em que se atinge a maioridade, ou seja, em que nos tornamos adultos.

Ora eu acho que está na altura de marcarmos como deve ser a passagem à chamada terceira idade, ou seja, a entrada na verdadeira “maior idade”. É claro que face à opinião generalizada de que é uma desgraça envelhecer e que os ditos “velhos” não têm um lugar produtivo na sociedade, o que disse acima sobre a Páscoa pode parecer uma contradição. Ou seja, em vez de uma transição de pior para melhor parece tratar-se precisamente do contrário.

Mas, como quem me lê bem sabe, não concordo mesmo nada com esta visão da vida humana, acho que o que está mal é a nossa perceção da jornada de ir para novo e que os longevos têm muito a dar à sociedade, para além de poderem ter uma vida plena e realizada.

Toquei anteriormente e em mais detalhe neste assunto em É tão bom já não ser novo! em que foquei, precisamente, alguns dos benefícios de já ter uns bons aninhos em cima, e em vários posts sobre Idadismo, o externo e o interno.

Acontece que para a maioria de nós já há, até, um marco a indicar essa transição: a passagem da vida laboral à reforma, apesar de, com tantas reformas antecipadas, ser bastante variável. E mesmo que não nos reformemos e continuemos a trabalhar, como é o meu caso, nada nos impede de escolher uma determinada idade para celebrarmos a nossa mudança de estatuto, de mero adulto a longevo.

É claro que no caso das mulheres estas podem sempre optar pelo início da menopausa, mas lembro que esta pode chegar em diversas idades, até mesmo muito cedo, e nem sempre de modo bem claro. E não precisa de ser a mesma idade para toda a gente, lembre-se, a ideia é celebrar uma mudança de vida e o início de uma nova etapa na nossa existência, adapte, pois, a ideia às suas condições.

E se já tem 70, 80 ou mais anos, não há problema, faça-o agora, está-se sempre a tempo de festejar algo. Até porque, com o aumento de longevos em bom estado físico e mental, a idade é cada vez mais apenas um número. Mais ainda, porque fazê-lo apenas uma vez? Se pensarmos bem, a Páscoa chega todos os anos!

A minha ideia é sentarmo-nos calmamente e pensar no que há de bom na nossa nova vida como “idosos”. No post acima citei algumas razões, mas há muitas mais e, muito francamente, cada caso é um caso. Pode parecer que tenho a mania das listas – e tenho – mas a razão principal de fazermos isto é pôr de lado as (muitas) conotações negativas associadas ao aumento da idade acima de um determinado número.

Ou seja, procure coisas positivas e ponha de lado as negativas que só servem para amargurar os anos – muitos ou poucos – que nos restam.

E quando já tiver feito este “trabalho de casa”, festeje, ou seja, anuncie alto e bom som, sobretudo a si próprio, que já é um longevo! Pode, até, fazê-lo com familiares e amigos, desde que esteja preparado para enfrentar a sua estranheza perante esta celebração – lembre-se, o que é novidade cause quase sempre algum espanto.

Poderá estar a pensar, mas porquê tudo isto se já temos os aniversários? Não é bem a mesma coisa. Os dias de anos são passivos, ou seja, passam quer queiramos ou não, quer os festejemos ou não. Mas celebrar a passagem a longevo é algo ativo, somos nós que escolhemos fazê-lo e à nossa maneira.

Só me resta desejar Boa Páscoa – e se dizer isto ofender alguém, têm bom remédio...

Para a semana: Emagrecer para o verão? Com o tempo a aquecer, começamos a notar os quilinhos e gordurinhas a mais...

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