Em tempos idos havia o costume, pelo menos numa certa camada social, da chamada “limpeza da primavera”. Não era uma mera limpeza da casa, implicava retirar roupas dos armários para as pôr a arejar, lavar e polir tudo e mais alguma coisa, enfim, não havia recanto, por mais obscuro, que permanecesse intocado após os longos meses de inverno. E, dependendo do número de “mãos” disponíveis e do tamanho da habitação, podia, até, levar alguns dias durante os quais rotinas e casa ficavam viradas do avesso.
Ora o que proponho aqui é algo similar, mas não para a nossa casa – é claro que se manteve essa tradição de deixar tudo impecável para a Páscoa e o bom tempo, tudo bem. Mas a minha ideia é fazer uma verdadeira limpeza a nós mesmos – e mais uma vez, não me refiro a algo físico, como o nosso corpo, mas sim à nossa componente espiritual digamos.
Não se assuste, nada tem a ver com religião ou misticismo. Trata-se, isso sim, de ir à caça de hábitos e ideias que os são prejudiciais e de cuja existência muitas vezes nem nos apercebemos para os pôr a “arejar”. Ou seja, varrer o pó e as teias de aranha que se instalaram, sabe-se lá há quanto tempo, na nossa mente e que prejudicam, em maior ou menor grau, a nossa vida.
Pequeno aviso, este tipo de limpeza pode não ser fisicamente cansativo, mas não deixa de exigir algum esforço, sobretudo para quem não está habituado a refletir sobre si e sobre os seus atos.
Passemos aos factos.
Anda há anos a adiar certas coisas que diz que adoraria fazer e sem saber bem porque nunca as fez? Como uma viagem, um passeio, estudar algo? Pois bem, está na altura de analisar muito a sério o que se passa. Pode ser mera inércia, claro, à força de ir adiando vai-se perdendo a vontade de agir – é, basicamente, a aplicação espiritual da velha ideia de quanto menos se faz menos se quer fazer.
Mas muitas vezes a razão é outra e tem a ver com o idadismo de que tenho falado, tanto o nosso como o dos outros. Basicamente, acha, bem no íntimo, que “ir para um ginásio não é para a minha idade”. Ou, pior ainda, o que dirão se eu decidir fazer uma viagem à China? E são apenas dois pequenos exemplos.
É a chamada auto sabotagem, de que todos sofremos, em menor ou em maior grau, ao longo da vida, muitas vezes sem sequer nos apercebermos de que o estamos a fazer, sobretudo atualmente em que está na moda culpar tudo e todos pelo que nos acontece... exceto nós mesmos, claro.
Como exercício de “limpeza da primavera”, aqui fica uma sugestão. Faça uma lista de coisas que sempre quis fazer e nunca fez sem que para isso houvesse uma razão de peso – por exemplo, pode não ter ido à China por ser uma viagem demasiado cara para os seus rendimentos, sendo assim, não conta.
Reduza-a, depois, a dois, três itens no máximo. E pense muito a sério, de papel e caneta na mão até, sobre o que o tem impedido de realizar esse desejo. É bem capaz – aliás, é quase certo – de ter a surpresa de descobrir que não há nenhuma razão válida para esse contínuo adiamento.
Mas não se fique pela análise. Faça um plano para realizar pelo menos uma dessas ideias – ou seja, descobriu o “pó”, limpe-o. E se descobrir que, afinal, até há razões válidas para a sua não realização, ganha à mesma uma vez que fez “uma limpeza” na sua lista de desejos.
Passemos, agora, a algo que também nos afeta a todos, uns mais do que outros, podendo ser altamente nocivo para uma vida mais feliz – note-se que não disse feliz, referi apenas “mais feliz”.
Refiro-me a ressentimentos, invejas e similares, nomeadamente o muito popular “não tenho sorte nenhuma”... O grande problema aqui é que muitos desses eventos já têm uma idade mais do que provecta e deviam ter sido há muito relegados para o baú do esquecimento. Sim, que importância tem para a sua vida atual se uma pessoa que considerava sua amiga disse mal de si há vinte ou trinta anos? Ou se um seu conhecido tem uma vida materialmente melhor do que a sua, apesar de terem partido do mesmo ponto?
Está na altura de refletir sobre tudo isso, mas com olhos de ver. É que muitas vezes esses sentimentos tornaram-se um hábito de tal modo enraizado que já nem nos lembramos do que lhes deu origem. Pois bem, vamos lá pôr tudo isso a arejar, a apanhar um pouco de sol – e acredite, muitos murcharão prontamente mal lhe apliquemos alguma luz e bem mais rapidamente do que um vampiro de Hollywood a desfazer-se em pó se exposto ao sol.
Ou seja, deixe de remoer o passado, viva o presente. E esqueça a vida dos outros, concentre-se, isso sim, em ver como pode melhorar a sua.
Finalmente, hábitos e rotinas. Quando chegamos a uma certa idade, é quase certo termos acumulado toda uma série deles. Há os que têm razão de ser, claro, mas se os analisar descobrirá certamente que muitos persistem... por mero hábito, por serem algo que “sempre fez”. E se calhar alguns vêm, até, da sua infância ou adolescência e estão totalmente desadequados à sua vida atual.
Por exemplo, levanta-se às 7 porque sempre o fez, apesar de estar reformado e não precisar de o fazer? Mantém os mesmos dias de limpeza da casa e compras de quando tinha uma vida atarefada? Só planeia distrações para o fim de semana, apesar de nada fazer durante os chamados dias úteis?
Como imagina, também esta é uma boa área para fazer uma boa “limpeza da primavera”. Pense nos seus hábitos e rotinas, veja se ainda há uma razão para os manter. Acredite, irá, certamente, eliminar muitos deles. E se gosta de uma vida regrada, que tal substitui-los por outros mais adaptados à sua vida atual?
E pronto. Boa “limpeza de primavera”!
Para a semana: Cãibras. Imprevisíveis, dolorosas e, dependendo de quando ocorrem, podem até ser perigosas