Voltaram a referir na Televisão o caso de duas mulheres donas de um lar que maltratavam os idosos a seu cargo, não os alimentando, pondo-os a dormir no chão, agredindo-os, etc. É terrível, sem dúvida, mas o que mais me chocou foi a investigação ter durado meses! Ou seja, enquanto acumulavam factos, escutas e tudo isso, os idosos continuaram a sofrer. Francamente, não havia outro modo de fazer as coisas? Uma simples rusga não teria mostrado mais do que claramente as péssimas condições ali existentes?
É claro que há razões para que isto aconteça, até mesmo em lares legais, não excluindo os de luxo, e a principal é, claro, a legislação.
À boa maneira portuguesa, há um documento que estabelece as regras para a criação e funcionamento de lares com fins lucrativos. Se estiver interessado, poderá lê-lo aqui – aviso já que é bem longo! Fala de tudo e mais alguma coisa, tipo de edifício, dimensões de quartos e salas, pessoal que deve existir, enfim, pode-se dizer que é muito minucioso. Até fala do tipo de mobiliário, pavimentos, iluminação...
E a minha primeira dúvida está precisamente aqui, será que depois de legalizados os lares continuam a cumprir todas as normas? E quem garante que o fazem?
O que me leva à questão principal, o regulamento interno da instituição, que é obrigatório apresentar. Só que... este fica totalmente ao critério de quem cria o lar, não havendo normas mínimas a respeitar. Nomeadamente, o horário de visita de familiares e amigos e a sua duração.
Há-os, certamente, que permitem a ida de familiares chegados a qualquer hora, desde que não interrompam um tratamento, por exemplo, e sem limitações de tempo. Mas muitos têm um horário rígido e chegam a limitar a visita a 15 ou 20 minutos e apenas num local designado – nem pensar em ir ao quarto da pessoa visitada.
Isto é feito, segundo parece, para garantir o “bom funcionamento” daquelas instituições. Mas deverá ser essa a ênfase? Não nos devíamos preocupar, isso sim, com o bem-estar de quem ali está, muitas vezes à custa de grandes sacrifícios financeiros dos seus familiares?
É que esta limitação pode ter consequências gravíssimas. Primeiro, se há uma hora fixa para a presença de “estranhos”, é muito fácil arranjar o cenário para que pareça estar tudo bem, independentemente do que se passa, de facto, no resto do tempo. Mais ainda, com uma definição criteriosa desse horário pode-se garantir que muitos só possam lá ir ao fim de semana porque colide com o seu horário normal de trabalho.
A limitação do tempo da visita também abre caminho a abusos, mal dá tempo para se trocarem meia dúzia de palavras. Pior ainda, se o idoso ousar queixar-se e os familiares o relatarem, é muito fácil punir o queixoso quando ficam a sós, garantindo, assim, que o caso não se volta a repetir – a queixa, não os abusos, bem entendido.
E com a visita a ter obrigatoriamente lugar na zona comum, ou seja, sem privacidade, como é que os familiares sabem se o quarto que estão a pagar é o mesmo que viram inicialmente? Que há, até, um quarto? E se o idoso se queixa de ser agredido e maltratado, é impossível verificar o seu estado físico num lugar público.
Ou seja, esta norma de o horário de visitas ficar ao critério da instituição só serve os interesses desta. E é isso que queremos para os nossos idosos? Já agora, essa de horário de visita não cheira a prisão? Apesar de os presos terem direito a visitas mais longas e muito mais direitos do que os nossos idosos residentes em lares.
Sim, visitas sem horário podem, de facto, perturbar o funcionamento normal de um lar, mas o bem-estar de quem ali está deve sobrepor-se a tudo isso. E os familiares têm o direito de ver o seu idoso quando podem e querem e de terem o tempo que quiserem a sós com ele para poderem verificar as condições em que de facto vivem e o seu estado físico.
Inclusive à hora das refeições, ou será que acreditamos piamente que todos os lares legalizados cumprem o que está definido nas normas indicadas acima, nomeadamente: “A alimentação deve ser variada, bem confecionada e adequada à idade e ao estado de saúde dos utentes.”
Acho que é mais do que altura de olharmos para os lares de terceira idade de outro modo. E não me refiro apenas à sua escassez e à existência de muitos que são ilegais – bom, com o tempo que demora a regularizar seja o que for neste país, isto pode não ser, necessariamente, um sinal de que são maus.
E sim, sei que há muitos idosos que, uma vez postos num lar, nunca recebem uma única visita, ficam totalmente ao abandono. Mas isso resolvia-se facilmente com a criação de visitas de inspeção surpresa que incluíssem, sempre, pelo menos um enfermeiro. Mais ainda, o mesmo lar poderia ter mais do que uma no mesmo mês, ou seja, nunca saberia quando seria inspecionado.
Mas, para mim, o mais importante é acabar de vez com a limitação do horário e duração das visitas por parte dos familiares – é que enquanto lá estão, seria bastante fácil informarem-se sobre quem não é nunca visitado e incluir essas pessoas sob a sua asa...
Isto era bem capaz de evitar um caso que me chocou particularmente, de uma senhora de que vimos uma foto a festejar os seus 90 e tal anos e que, tendo ido para um lar no dia seguinte, foi levada para o hospital umas duas semanas depois com equimoses na cabeça e em todo o corpo, vindo a falecer. Quem defende manter a situação atual para bem do funcionamento dessas instituições devia ser obrigado a ver diariamente essas duas fotos.
Para a semana: Aproveitar os dias bons. Com um inverno tão chuvoso e desagradável, temos mesmo de aproveitar ao máximo os dias bons... ou melhores.