Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

18 - Uma sociedade não preparada

Apesar de tanta conversa sobre o envelhecimento da população, não estamos preparados para isso.

Quanto mais vivo e analiso o país em que vivemos mais me convenço de que, apesar de toda a conversa sobre o envelhecimento da população, na prática nada fazemos para tornar a nossa sociedade mais propícia a uma boa qualidade de vida acima de uma determinada idade.

E não me refiro apenas ao Governo e outras entidades, no fundo penso que a maior parte de nós já pouco ou nada espera dessas “criaturas” – mesmo assim irei mencionar um ou dois assuntos que não dependem de particulares, como muitos dos restantes.

E começarei por esses.

Não sei se sabem, mas o nosso estimado Governo aceitou a proposta do PAN para produtos menstruais gratuitos. Ou seja, como as mulheres que os usam serão talvez um quarto da população total, iremos todos pagar algo que não serve a todos. Mas, curiosamente, não há qualquer proposta para proporcionar andarilhos e cadeiras de rodas a pessoas com uma reforma mais parca, digamos.

Sei bem que, teoricamente, a Segurança Social trata disso, na prática, após meses (ou anos) de análise à situação – sim, é óbvio que imensa gente vai pedir essas coisas sem precisar... – vem uma espera ainda mais longa para a sua atribuição. Como se costuma dizer, bem podem esperar sentados, desde que não seja na dita cadeira de rodas.

Uma outra área em que a liberalidade governamental seria bem-vinda seria na entrega gratuita dos chamados botões de pânico a todos acima de uma certa idade. Sim, mesmo os que vivem acompanhados, há certamente períodos em que se encontram sozinhos e o pior ou, pelo menos, o menos bom, pode acontecer quando menos se espera e, como em quase tudo, quanto mais rápido for o socorro menos gravosas serão as consequências.

Temos também a solidão dos idosos, de que tanto se fala e com tão pouco proveito. Bom, antigamente havia as chamadas Enfermeiras Visitadoras, que, já agora, nem sempre eram enfermeiras, recebiam apenas formação nesta área específica. A sua função era irem a casa de grávidas antes e depois do parto, para verem se estava tudo bem e darem os conselhos e apoios indispensáveis.

Pois bem, que tal criar algo semelhante, mas para idosos? Não a este nível, claro, mas simplesmente pessoas com alguma formação, muito básica, em psicologia gerontológica e cuidados básicos de saúde, que visitariam os idosos de uma determinada área, no mínimo uma vez por mês, para verem se estava tudo bem e, acima de tudo, para lhes dar um pouco de conversa e companhia. E, claro, caso a situação o justificasse, as visitas seriam mais frequentes ou seriam alertados outros serviços.

Uma outra medida bem mais fácil de implementar seria a da chamada “árvore telefónica”, muito popular nos EUA. Trata-se, basicamente, de uma lista de pessoas e, diariamente, a primeira liga à segunda para ver se está tudo bem, esta liga à terceira, etc., até se completar o círculo com a última a ligar à primeira. É claro que a pessoa pode não atender por estar ocupada, se assim for, fazem nova tentativa um pouco mais tarde. Deste modo, se alguém não responder mesmo, a pessoa designada para tal vai ver, pessoalmente, se está tudo bem – já agora, a polícia americana também faz esse tipo de visitas, se for solicitada para tal.

Evitava-se deste modo os muitos casos em que idosos morrem ou têm problemas graves e só são encontrados muito mais tarde. Já agora, para quem não gosta de conversar, não há problema, basta dizer “tudo bem”, desligar e fazer o telefonema que lhe compete – rápido e eficaz.

Passemos agora a outro assunto, este mais do foro dos particulares, digamos, vestuário feito a pensar em idosos.

Sei que disse em posts anteriores que um idoso, só por o ser, não tem de deixar de se vestir como quer e gosta, mas aqui não estou a falar de visual mas sim de facilidade de uso.

Como muito bem sabemos, à medida que os aninhos vão pesando há movimentos que custam cada vez mais a executar. E isto para não falar da perda de visão ao perto. Mais ainda, a tendência sedentária aumenta e a sensibilidade da pele também, tecidos que se usavam sem problemas passam a criar algum desconforto e há ainda uma maior sensação de frio, mesmo quando a temperatura não a justifica.

Tendo tudo isto em conta, que tal começar a haver linhas de vestuário feitas de raiz a pensar nos não muito novos? Basicamente, tecidos confortáveis, mesmo após muitas horas, quentes, mas leves, botões grandes, para não ser preciso andar à procura dos óculos, vestidos, blusas, etc., fáceis de enfiar, enfim, produtos feitos a pensar neste setor etário e testado nele.

Ouvimos tantos estilistas jovens a lastimarem-se das dificuldades em iniciarem carreira, pois bem, isto pode não ser muito glamoroso mas seria, sem dúvida, um enorme êxito.

E ainda neste setor, mais dois detalhes.

Sabem como é difícil encontrar casacos informais para homem com botões? Sim, o fecho de alto a baixo é bem prático... quando se é novo. Voltemos ao que disse acima sobre sedentarismo e a sensação de frio. Pois bem, isso significa que muitas dessas peças vão ser usadas com a pessoa sentada, muitas vezes dentro de casa, a ver televisão, por exemplo. E um casaco com fecho torna-se extremamente desconfortável, “espartilhando” a parte de baixo do tronco e ancas. Mas se tiver botões, basta desapertar alguns do fundo e... conforto garantido! Isto para não falar na dificuldade em “enfiar” a ponta do fecho, que, diga-se de passagem, não se restringe aos mais idosos.

O outro detalhe, este para as senhoras, está nos soutiens. Com a dificuldade crescente em fazer certos movimentos, torna-se cada vez mais difícil apertar o dito. E de fecho à frente, pois bem, só em modelos sexy, digamos. Ora aqui está toda uma linha de produtos a criar! Mais uma vez, tecidos confortáveis e fecho à frente ou, até, uma variante dos modelos desportivos de enfiar pela cabeça, mas feitos especificamente para esta fatia crescente da sociedade, em termos de materiais, tamanhos e formatos – nada de acolchoados, pelo menos na maioria dos modelos.

Há certamente muito mais a dizer sobre este assunto, mas ficará para uma próxima vez.

Para a semana: Distrações. Sim, distração precisa-se e mais do que nunca após a reforma, ou a idade da mesma...

0