Ir para novo

Considerações gerais, ideias, projetos e muito mais para quem está a "ir para novo".

152 - Porque será...

Vivemos num país de “preocupados”. Ou antes, de pessoas, todas elas do lado “certo” da sociedade, que passam a vida a dizer que estão muito preocupadas com isto e com aquilo. E até seria muito louvável se, a), fizessem algo em relação ao motivo da sua preocupação e b), se as ditas causas não fossem sempre, por mera coincidência, claro está, questões com que é de bom tom preocuparmo-nos e de que irei referir algumas.

Infelizmente, a cada vez maior fatia da população constituída por quem vai para novo só entra no seu radar quando se fala em baixar a idade da reforma ou para uma breve menção aos “velhinhos, coitadinhos” – para além de ser uma expressão que abomino, o que mais me incomoda quando a ouço é que nunca é seguida de qualquer proposta de melhoria da situação que lhe deu azo.

Comecemos pela saúde, algo que nos preocupa (aqui sim, a sério) cada vez mais quando os anos começam a pesar. E não me refiro a tê-la ou não tê-la mas sim aos custos crescentes para a conseguir manter minimamente e há dificuldade em ter acesso atempado a cuidados médicos.

Ora os “preocupados” com dar cuidados médicos de todo o tipo aos muitos ilegais que enxameiam o nosso país ignoram totalmente a questão dos mais idosos. A começar pelo problema de arranjar uma consulta, é que com sorte os que têm médico de família conseguem uma por ano, isto numa altura da vida em que seria necessária uma maior vigilância. E em termos de qualidade das ditas consultas, bom, é quase sempre tudo atribuído à idade, como referi em Idadismo na medicina. Mas tudo bem, quem lhes manda não serem imigrantes ilegais?

Uma “preocupação” recente tem a ver com o aumento de estudantes universitários que trabalham para fazer frente às despesas – na sua maior parte de habitação. Mas o facto de muitos idosos terem de escolher os medicamentos que vão adquirir nesse mês porque se os comprarem todos não terão dinheiro para comer e / ou para fazer face a outras despesas imprescindíveis, bom, isso não afeta os “preocupados”.

Passemos agora às levas de jovens que aproveitam as férias de verão para irem fazer voluntariado em África e em muitos outros locais distantes. Atenção, sou totalmente a favor do trabalho voluntário em todas as idades, acho, até, que quanto mais cedo se começar, melhor, não é pois isso que está em causa.

Mas... porque será que esses jovens se “preocupam” tanto com as condições de vida noutros continentes quando há tantos idosos a viverem igualmente mal ou ainda pior no nosso país e sem forças e dinheiro para fazerem algo em relação a isso? Não faltam aldeias – as tais de que os “preocupados” tanto falam quando querem fazer relambórios sobre a desertificação do interior – em que as casas, quase todas habitadas por idosos, não têm condições para uma vida condigna.

De telhados e paredes em mau estado a falta de isolamento, gela-se lá dentro no inverno e coze-se no verão. E como a eletricidade e o gás são caros – e no caso deste último é preciso ir buscá-lo – usam lenha, ou antes, paus que vão apanhando, para se aquecerem e cozinharem, respirando as tais dioxinas que tanta “preocupação” causaram aquando da coincineração. Já não falo em pôr – oferecidos, claro está – painéis solares, mas uma reparação como deve ser de telhados e paredes exteriores tornariam, certamente, a vida ali muito mais confortável.

Temos também a “preocupação” com preservar culturas em risco de desaparecerem, segundo nos dizem. Mais uma vez, um objetivo muito louvável mas, também aqui, só interessam aos “preocupados” se forem longe da Europa.

Ora as nossas vilas, aldeias e até cidades estão cheias de pessoas que praticam artes em vias de extinção, que conhecem receitas específicas da região em que vivem e que poucos conhecem e que sabem inúmeras histórias e costumes que, quando morrerem, morrerão com elas.

Há países, nomeadamente na Europa de Leste, em que muitos jovens têm consciência disso e passam fins de semana e parte das suas férias em aldeias diversas precisamente para aprenderem e registarem o mais possível da sabedoria, artes e hábitos de quem ali vive. Não seria bom vermos o mesmo por cá?

Finalmente, as criancinhas. Os “preocupados” estão sempre a falar em incutir-lhes o respeito pela diferença – bom, nem todas as diferenças, claro, como prova o assédio que se repete nas nossas escolas a crianças autistas – e por outras culturas e religiões (bom, nem todas claro, não faz mal gozar com um cristão empenhado na sua religião).

Curiosamente, quando se trata de idosos, a conversa é outra. Quantos desses pais “preocupados” e que têm familiares idosos em lares não levam consigo os filhotes quando os visitam porque “é chato para eles”? Há palestras nas escolas sobre transgéneros e quejandos, põem-se criancinhas a desfilar com cartazes que nem entendem, mas não se levam a passar umas horas num centro de dia ou num lar. Ou seja, a menos que pertençam ao grupo de crianças quase criadas pelos avós por falta de tempo ou de condições dos pais, muitas crescem sem ter tido o menor convívio com pessoas idosas.

E isso vê-se no modo como se comportam perante esse grupo etário em transportes públicos, supermercados ou, até, na rua, onde é frequente ocuparem o passeio todo na galhofa e o idoso que tenha o azar de se cruzar com eles é que tem de descer para o asfalto. Pois, é que o respeito pelos mais velhos não está na lista das “preocupações” dos tais “preocupados”.

Para a semana: Alguns bons exemplos Para contrabalançar um pouco o post desta semana.

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